quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Um lindo dia na vizinhança



Um lindo conto para adultos tolinhos


A produção cinematográfica classificada como cinebiografia – "Um lindo dia na vizinhança" – aparenta não ter previsto, voluntariamente, espaço em seu roteiro, visando a uma cobertura mais ampla da vida do pedagogo Fred Rogers –  um artista norte-americano, ministro de uma Igreja Presbiteriana, que tornou-se o famoso apresentador do programa televisivo ‘Mister Rogers Neighborhood’, musicalizado por canções educativas infanto-juvenis, com letras de sua autoria.

Infância, juventude, maturidade, conquistas, a gênesis do programa –  nada disso é revelado ao longo do filme assinado pela escritora, diretora e atriz norte-americana Marielle Heller. Na prática, o espectador passa a conhecer a vida do jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys) e a sua conturbada relação com seu pai, que abandona a família em um momento crucial para a estabilidade daquele núcleo. Mas o acaso faz de Fred Rogers (Tom Hanks) o homem que muda a sua vida. Ao assumir um viés espiritualista, estruturado por autodescobertas, o roteiro passa a ser direcionado por um sentimentalismo que requalifica o papel de Rogers como um salvador da alma humana, capaz de curar os estados de tristeza e de raiva que cometem os homens – uma fórmula incapaz de fazer de “Um lindo dia na vizinhança” uma história biográfica de Fred Rogers mas, somente, um lindo conto para adultos tolinhos que procuram um antídoto para suas vidas amarguradas, onde o cinismo partidário celebra o retrocesso em nome da família e de Deus. E quem sabe, como isso, são promovidos a discentes de uma eficaz aula de autossugestão para pessoas influenciáveis, dominada por um discurso contaminado pela programação neurolinguística.

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