quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Uma Vida Oculta



Cabe ao espectador estabelecer seus critérios para compreender, julgar e questionar, a essência da fé apresentada pelo longa


Antes mesmo de entrar no mérito do argumento e do roteiro de “Uma Vida Oculta”, vale a pena chamar atenção para a qualidade do longa escrito e dirigido por Terrence Malick, no que se refere à fotografia e à trilha sonora musical, que ocorre em raríssimos momentos, quando lhe é permitida sobrepujar toda uma preciosa sorte de ruídos de fundo, responsáveis por complementar a leitura visual de quase cem por cento das cenas. A narrativa é cicia e com potencial de embalar o espectador em profundo estado de reflexão e de relaxamento – não fosse a intensidade do drama que faz a metafísica história, baseada em fatos, acontecer durante quase cento e oitenta minutos de projeção.

A paleta de cores do drama linear vivido pelo camponês Franz Jagerstatter (August Diehl), em uma pequena idílica vila alpina na Áustria, no início dos anos 1940, reflete a sua obsessiva postura ideológica ao se recusar a se deixar alistar como combatente junto ao exército nazista alemão, durante a Segunda Guerra Mundial – uma fé ilibada e inabalável que lhe confere forças para rebelar-se contra algo que acredita não ser o correto. Cabe ao espectador estabelecer seus critérios para compreender, julgar e questionar, a essência da fé apresentada pelo longa.

A figura de Adolph Hitler é introduzida em breve cenas em preto e branco, sem maiores esclarecimentos sobre o seu real significado na conjuntura mundial, a sua intenção enquanto exterminador do povo judeu, e o que representa aos olhos dos moradores da bucólica vila onde vivem Franz e sua família.

O cunho religioso, incrustado na fé divina, embutido no filme de Malick, soa destrutivo e ilusório enquanto, diante da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, a existência de Deus não é questionada por Franz, que se mantém disposto a abrir mão de sua vida e deixar sua esposa sem marido, e seus filhos sem pai – a despeito da falta de definição realista quando da abordagem dos assuntos alusivos ao Senhor Todo Poderoso, mas de forma onírica, beirando ao pesadelo angustiante.

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