sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Crimes Delicados




Sadismo precedido pela violência

A perversidade ao extremo, por mero prazer, torna-se diferencial na prática de atos degenerados de um casal que acredita estar aderindo à ‘moda’ da infestação de psicopatia, que acomete a elite da qual faz parte.


Devidamente focado na compulsão pela tortura, pelo voyeurismo e na apática motivação para a prática de ambos, o texto de José Antônio de Souza assume o controle da subversão e diversifica os seus desvios morais, em conjunto com a direção sanguinária e violenta de Marcus Alvisi, que revela, com requintes de frieza, a alienação presente em cada espectador, que gargalha na maioria das cena do espetáculo teatral  “Crimes Delicados”.

O sadismo precedido pela violência, quase ritualística, curiosamente, poupa o espectador de ser impactado inesperadamente, graças à comunhão de desempenhos genuinamente hilários, por parte do elenco composto por André Junqueira, Daniel Dantas e Well Aguiar – uma trupe que, incansavelmente, busca parâmetros justificáveis para os atos de seus personagens, nocivamente tragicômicos. A tentativa de silenciar a palavra com a introdução de uma dose significativa de expressões faciais pantomímicas é impedida pela rigorosa preparação vocal de Rose Gonçalves que, como em um crime perfeito, atira o texto que propõe aterrorizar o espectador mas, somente, atravessa o umbral da inexistência do crime perfeito. Os atos extremos dos protagonistas são conduzidos pela direção de movimento de Luciana Bicalho, que desvenda, a cada passo, o ato de matar e a necessidade do casal ser considerado socialmente, através do atentado contra a vida de uma empregada. O ciclo intenso – ao mesmo tempo, fora de controle sob o aspecto da comicidade – pode ser diagnosticado pelo desenho de luz de Carlos Lafert, que atribui um mecanismo clássico de aproximação plateia-artista que interliga a estrutura límbica de todos os envolvidos. A precisa definição das classes sociais é imediatamente percebida pelo figurino desenhado por Carol Gama, contemplando patologia e humor simultaneamente. O medo e o combate textual se estendem ao som da trilha sonora de Alvisi e Tauã de Lorena, que antecede sustos e anunciam surpresas. O Transtorno da Personalidade Antissocial dos protagonistas assume seu contorno extremo com o visagismo caricata de Renata Imbriani, Lorena Rocha e Paula Sholl.

A linguagem utilizada no espetáculo “Crimes Delicados” tensiona a cumplicidade do espectador diante da violência e da perversão e, dessa maneira, estrutura, de forma deliciosamente absurda, um quadro assustador de uma sociedade elitizada anormal e sem qualquer respeito para com as minorias.

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