quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Festa, A Comédia



A mobilização de muita gente boa para contar a história de um menino chamado Miguel


Sob o bisturi de uma avaliação crítica preliminar de um espetáculo com processo criativo flexionado em quadros linkados entre si, “Festa - A Comédia” aposta todas as suas cartas ao convocar os seguintes nomes consagrados pelo seu desempenho junto ao teatro e à televisão para desenvolverem cinco esquetes: Alessandro Marson, Daniele Valente, Heloísa Périssé, Sill Esteves, Vincent Villari e Walcyr Carrasco. Fruto de um projeto cuja gênesis parte do encontro do diretor teatral Eduardo Figueiredo com o ator Mauricio Machado, o texto do espetáculo conta com um time de autores – amigos com quem já havia trabalhado. O resultado de tudo isso é a mobilização de muita gente boa para contar a história de um menino chamado Miguel, que detesta comemorar o seu aniversário. No caso específico da apresentação solo de Maurício Machado, a comemoração dos onze anos de idade de Miguelzinho.

Segue-se a ordem de apresentação dos monólogos e respectivos personagens, começando por “A mãe”, assinado por Daniela Valente responsável pelo discurso da ex-faxineira de um clube de funk de pilares, que enriquece, da noite para o dia, após ganhar na mega sena. Dona Irene, adepta às intervenções cirúrgico plásticas, é uma mulher bipolar, viciada em remédios tarja preta, sofre do impulso pela ostentação junto a seus amigos e familiares, e tenta satisfazê-lo sob o pretexto de comemorar o aniversário de seu filho – como uma supermãe, de acordo com seu próprio julgamento – contratando “ O Animador” – esquete de autoria de Alessandro Marson, que desenvolve o personagem com vocação para artista, porém, destrambelhado, sem talento e sem a menor vocação para lidar com crianças, para trabalhar como palhaço na festa de Miguel. “A Tia“, cuja ranhetice é exposta por Vincent Villari, apresentando, ao público, a insuportável mulher responsável pela indicação do animador que conheceu em um velório. Apesar de sua morbidez, a tia de Miguel ainda se dá ao luxo de dar em cima de uma mulher contratada para trabalhar na festa do sobrinho – “A Moça da carrocinha de cachorro quente”, cuja vulgaridade tomou todas as formas concebíveis por Heloísa Périssé e Sill Esteves. Coincidentemente, a profissional é amante do pai do aniversariante, e não poderia ser chamada por um nome menos sugestivo – Suellen Shellen. Dessa forma, acontece a festa de “Miguel, o aniversariante”, cujo esquete é de autoria de Walcyr Carrasco, encerrando o espetáculo com uma bela surpresa para os pais e os convidados, ao fim da festa.

O distanciamento contido na abstrata direção de Eduardo Figueiredo não subverte o gênero comédia, tampouco, o reinventa, ao invocar facticidade e vaidade artística. O processo de aclaramento dos personagens parece ter critérios conturbados em sua transformação e construção, considerando figurino e cenário, com ímpeto vanguardista assinados por Márcio Vinicius. Cumprindo com o objetivo de fazer o espectador relaxar, o visagismo de Anderson Bueno dilata a compreensão dos textos e contribui para com o direcionamento do gênero anunciado como comédia. A feição da direção musical de Guga Stroeter e Matias Capovilla, por alguns momentos, provoca estagnação e enclausuramento intersubjetivos, que potencializa a experiência e dá sentido às transformações realizadas pelo ator Maurício Machado que, pelo seu processo criativo, tende à interpretação com resistência racional à aceitação de dados perturbadores contidos em cada cena do espetáculo. O esforço incisivo de Paulo Denizot, a partir de seu desenho de luz, não permite que o espectador abdique da realidade delineada pelos personagens. A afirmação pontuada pelo caminho opressor, na falta de rumo e nas distorções sociais dos participantes do aniversário, é legitimada pela direção de movimentos de Janaína Marlene.

A emancipação teórica enquadrada nas ações das histórias apresentadas em “Festa - A Comédia” ganha especial atenção ao invocar questões éticas avassaladoras, capazes de desestruturar o convívio familiar, quando imersas em vozes conservadoras, avessas a debate sobre a dignidade humana.

Nenhum comentário:

Postar um comentário