terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O Marido do Daniel




Uma literatura ‘Queer’

Sem entrar no mérito, muito menos discorrer sobre as semelhanças e diferenças na dramaturgia e encenação daquilo que se entende por comédia de costumes – cuja leitura da análise tomaria demasiado tempo do espectador comum, pressionado entre informar-se sobre a arte de fazer rir e a de fazer chorar, e a escolha de um espetáculo para preencher seu tempo dedicado ao lazer sob a forma de cultura – percebem-se, no texto do dramaturgo norte americano Michael McKeever - “Daniel’s Husband”, breve momento inicial que o classifica como uma comédia doméstica, flexionada em uma literatura ‘Queer’ – justificando uma definição de gênero teatral mais adequada. Contudo, os alvos para os quais o leitor ou espectador da obra é direcionado – como questões passíveis de reflexão individual ou coletiva, e de confronto com experiências próprias ou de terceiros – ficam a cargo da legitimidade, da aceitação e da credibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo e de assuntos que envolvem direito de família. Ou seja, um drama cujo debate ainda é um tabu e que contempla conflitos, cujas estatísticas ainda apresentam índices muito aquém das ocorrências de fato.


Ao traduzir a dramaturgia de McKeever, José Pedro Peter promove o lançamento de “O Marido do Daniel”, iniciando o autor do texto original no palcos brasileiros, sob a direção de Gilberto Gawronski, que confere, ao núcleo dos personagens, uma roupagem cênica com peso menos cômico e mais dramático, diante da relevância dos temas abordados – a despeito de qualquer nuance de humor sugerida pelos personagens, definida pelo texto ou pela direção do espetáculo, que parece apostar na melancolia de uma situação familiar sem floreios idiossincráticos.

Murilo (Bruno Cabrerizo) é um romancista conceituado no universo gay, que não acredita nem no casamento como instituição civil, nem no matrimônio como sacramento religioso, e que mantém, há sete anos, um relacionamento estável com Daniel (Ciro Sales) que, por sua vez, reflete a sua vocação como arquiteto na casa projetada por ele mesmo, onde mora com Murilo, com quem pretende, um dia, se casar. Lydia (Dedina Bernardelli) é a mãe de Daniel – uma mulher que age como uma força da natureza, capaz de destruir tudo que estiver à sua frente, alimentada por seu egoísmo limitador, mas nunca incompreensível ao olhar de quem deseja sempre o melhor para sua prole. Não obstante, Daniel guarda sérias restrições ao comportamento da mãe, em especial, os sentimentos da progenitora com relação ao seu falecido pai – um promissor artista plástico, cuja uma de suas obras, o arquiteto expõe em sua sala.

A história tem início numa reunião intimista na sala de estar da casa de Daniel, para qual o amigo de meia idade do casal – também agente literário de Murilo – Bartô (Alexandre Lino) – comparece acompanhado por Fred (José Pedro Peter) – um jovem de seus vinte e poucos anos de idade que trabalha na área da saúde – com quem aparenta dividir uma relação recente e sem maiores compromissos. Sem saber das pretensões de Daniel sobre um futuro casamento com Murilo e da aversão deste ao casamento, Fred deflagra uma discussão sobre o assunto, ainda muito mal resolvido pelo casal anfitrião.

O desempenho dos personagens Daniel, Murilo e Lydia são alimentados pela força atuante e pela convicção dos seus intérpretes, que se aprofundam no enredo crucial, com amigável realismo e algumas falas divertidas. Não obstante, Peter conduz com serenidade a dosada relevância de seu personagem, como o estopim que reacende o conflituoso assunto que divide a condição de expectativa por parte de Daniel e o sentimento de aversão por parte de Murilo. O tom definido pela comédia de costumes – visivelmente inflexionado por uma reviravolta na história, conforme divulgação oficial do espetáculo – se deve à habilidade artística de Alexandre Lino, ao incorporar, com especial fidedignidade, o personagem Bartô – o hedonista de meia idade, repleto de trejeitos, caras e bocas, que não esconde a sua preferência por homens cerca de duas décadas mais jovem.

A sala da casa de Daniel é concebida, pela cenógrafa Clívia Cohen, a partir de um leiaute condensado, apesar de, pretensiosamente minimalista – “representando a casa de um arquiteto”, conforme sugerido pela produção do espetáculo, contemplando uma mesa de apoio lateral de tímidas proporções – sobre a qual repousa um toca discos portátil para vinil e uma luminária – uma mesa de centro e um sofá – que se fragmenta quando se instaura a adversidade em meio ao trio familiar. Na quarta parede, uma moldura vazada que representa uma obra de arte de autoria do falecido pai de Daniel – admirador do pintor Iberê Camargo – através da qual, por muitas vezes, os personagens se mostram permeáveis às leituras de suas personalidades por parte dos espectadores. Último plano à frente do fundo infinito negro, uma outra moldura vazada, de proporções bem menores que as da obra de arte do pai de Daniel, se comporta, em alguns momentos, como um retrato de parede de um feliz casal formado por um arquiteto e um escritor e, noutros, um retrato de parede de um arquiteto que se sente ameaçado pela falta de um marido que também o deseje como tal. Apesar dos incômodos que a instalação possa causar ao público mais exigente quanto à estética exigida pelo texto, justifica-se a composição visando à criação de um “ambiente para que o texto flua da maneira mais simples possível”.

As circunstâncias extremas opostas, que se apresentam em diferentes estágios da história, conta com o desenho de luz de Felício Mafra, que oscila entre a incidência de focos dramáticos pontuais, contornados pela penumbra e pela ausência total de luz, e as superexposição das superfícies brancas dos elementos cenográficos de Cohen, pela incidência da luz frontal – um possível recurso intencional do luminotécnico visando à intensificação de determinadas cenas. Humberto Correia é preciso na concepção do figurino para todos os personagens, com destaque para o detalhe do casaco lançado nas costas, com mangas em nó na altura do pescoço, segundo estilo bem típico dos anos 1980, perfeito para o papel desempenhado por Lino.

“O Marido de Daniel”, num primeiro momento, pode induzir o espectador ao erro de escolha de uma peça a partir de seu enunciado, tendo em vista a superficialidade da informação transmitida pelo título, sugerindo, simplesmente, uma relação entre dois homens em um contexto cômico, longe da abordagem sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo – apesar de Daniel e Murilo não serem casados de fato. Quanto à ‘reviravolta’ anunciada, traduzida do inglês ’turn of events’ e ‘unexpected turn’ presentes nas divulgações dos espetáculos off-Broadway, funciona como divisor de águas para justificar o segmento da história que, de fato, classifica o espetáculo como um drama, agravado pelos momentos de conflito presentes nos minutos que prologam a anunciada comédia de costumes. 

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