terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Víspora



Conteúdo para reflexão, em momento muito oportuno, no qual o destino da cultura no país é embarreirado por incertezas, de forma retrógrada e irreparável


Como se em meio a um ato cirúrgico, um confronto de pontos de vista disseca a essência daquilo que se entende por teatro e as perspectivas reservadas, num futuro próximo, para a produção artístico-cultural.

Tudo acontece em um grande recinto onde outrora fora uma sala de espetáculos teatrais, transformada em um grande salão de bingo – onde cantador, partner e apostadores se confundem com elenco e público e lotam a casa de apostas, que se torna palco único do espetáculo “Víspora”.

A dinâmica de palco, se não cem por cento inusitada, é consagrada pelo ineditismo da participação da plateia, enquanto figuração ativa, pelo frenético empenho da direção de Paula Vilela que, num primeiro momento - quando pode transparecer insuflar uma carga de agressividade e de intransigência -  se mostra, ao mesmo tempo, apaziguadora, ao assumir o humor como ponto nevrálgico do drama contido no texto de Vilela e Juuar, de maneira lírica, simbólica e pretensiosamente rebelde.

A acidez presente no discurso dos personagens vividos por Cláudia Barbot, Luiz Furlanetto, Rose Abdallah, Philipp Lavra, durante as partidas de víspora, injeta certa dose de descontrole no espetáculo, fazendo com que o espectador se perca entre atentar para o discurso de cada um dos personagens e seguir o cantador do Bingo – preenchendo as suas cartelas a cada sorteio de um número da sorte, cantado pelo personagem interpretado por Samuel Toledo –  e a cada prêmio entregue aos jogadores sortudos, pela partner incorporada por Paula Vilela.

A ausência da contemporaneidade de um futuro não tão distante mas, precisamente, pré-datado em 2022, é retratado pelo projeto cenográfico assinado por Julia Deccache que, de tão voluntariamente óbvio, discursa sobre o deserto cultural de um país onde ninguém escuta um ao outro – portanto, sem estruturar opiniões próprias. Ao priorizar a banalização comportamental dos personagens,  Ticiana Passos concebe um figurino que retrata a real dimensão da mediocridade que coloca em xeque a indignação, a idealização de sonhos e o desinteresse pelos discursos prontos. A ciranda formada pelo amor e pelo egoísmo é envolvida pela trilha sonora de Gu Siqueira, em conjunto com o desenho de luz de João Gioia, que transita entre a superexposição e a subexposição dos personagens e dos elementos cenográficos à luz, em franca cadência com os momentos que vão da intensa introspecção e alusões às trevas, aos rompantes de exacerbada ganância e de manifestação de prazer diante de conquistas.

A essência da obra do médico, dramaturgo e escritor russo, Tchekhov – ‘A Gaivota’ – insemina  o espetáculo “Víspora”, oferecendo, ao público teatral, conteúdo para reflexão, em momento muito oportuno, no qual o destino da cultura no país é embarreirado por incertezas, de forma retrógrada e irreparável. “Víspora” revela o esforço dos personagens de viverem suas vidas sem qualquer esperança de conseguirem mudá-las e, muito menos, aceitá-las como se vivessem uma comédia, mas constatando sua existência como algo inexoravelmente frustrante – uma versão na qual induz entender o espectador como o responsável pela morte da ave, sem atentar, nas profundezas de sua ignorância que, no mundo, haverá uma fascinante criatura a menos.

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