quarta-feira, 11 de março de 2020

Liberté



Em meio ao absoluto nada


Definindo como cenário temporal, uma floresta entre a França e a Alemanha, alguns anos que antecedem a Revolução Francesa, o diretor catalão Albert Serra faz da tela do cinema uma janela através da qual espectadores são induzidos à prática do voyeurismo involuntário.

Quando deflagrado o movimento de expurgo da devassidão da corte de gala, um grupo de duques e aristocratas se reúne em tributo a uma espécie de último jantar carnal – um momento dedicado à promíscua liberdade sexual.

Nesse contexto, o longa “Liberté” aposta, sem vestígios de reserva, na equalização entre corpos, no status social, nos atributos sexuais e nos desejos carnais, no contexto de uma orgia que emerge na escuridão da noite, a despeito da forte possibilidade de que, o estímulo sensual direcionado aos espectadores não seja correspondido à altura das intenções da direção do longa – contemplando cenas escatológicas, de submissão e de sadomasoquismo crescente durante intermináveis minutos que descrevem horas estagnadas e desperdiçadas em meio ao absoluto nada. Serra descarrega um filme de alta complexidade moral e totalmente inadequado aos espectadores mais sensíveis e avessos a desafios que possam penetrar as entranhas de seus instintos selvagens, possivelmente, adormecidos.

Portanto, a reverberação de passos de espectadores deixando a sala de projeção pode ser inevitável, enquanto, na tela, são projetadas todo um leque de comportamentos e de formas de excitação sexuais, transmitindo, a desconfortável sensação de que o início da trama está longe de acontecer, sob o manto da noite de uma floresta sombria.

Serra não restringe a banalidade de “Liberté” ao argumento e ao roteiro, mas divide a precariedade com os demais recursos cênicos, de forma ampla, restando-lhe a lamentável meta de chocar ao derramar “o leite mau na cara dos caretas”.

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