segunda-feira, 9 de março de 2020

O Meu Sangue Ferve Por Você



Adoravelmente desengajado da alienação do universo erudito


A herança cultural elitista classifica as músicas consumidas pelos brasileiros de classe social menos favorecida como brega – uma palavra que, segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, significa: deselegante, cafona e lugar de prostituição. Tal definição, de cunho pejorativo, depõe contra as qualidade contidas nas letras e na música de canções como ‘Garçom’ – famosa na voz de Reginaldo Rossi ou ‘É o Amor’ – sucesso de Zezé di Camargo & Luciano. Tomando para si a expressão que carrega uma forte carga de preconceito – porém,  designado a fazer com que o brega, jamais seja esquecido – o espetáculo “O Meu Sangue Ferve Por Você” comemora os seus dez anos desde sua primeira apresentação, contando a peculiar história do quadrilátero amoroso entre Creuza Paula, Elivandro, Fernando Sidnelson e Sandra Rosa Madalena, através de canções que foram imortalizadas por Sidney Magal, Jane & Herondy, Agepê, Tetê Espíndola, Wando, Gretchen, José Augusto, Luiz Caldas, Leandro & Leonardo, Fagner, Simony, Roberto Carlos, Xuxa, Elymar Santos, Emílio Santiago, Fafá de Belém, Fábio Jr, Sandy & Junior, dentre outros.

A fórmula de um espetáculo que completa uma década de sucesso tem como principal ingrediente o texto concebido por Pedro Henrique Lopes, adoravelmente desengajado da alienação do universo erudito. O traço que une o brega à dramatização, tecida por melodias e palavras que registram o reconhecimento artístico do estilo, se deve à direção de Diego Morais, que estabelece o romantismo cotidiano, povoado por amor, dor e afeto,  regado com saudável dose de bom humor. A valorização do sofrimento, da tristeza e do choro, por entre gemidos e risos, correspondem à abordagem universal de Tony Lucchesi, contemplada pela sua direção musical, que torna o espetáculo dinâmico,  entusiástico e atual. As nuances que enfatizam a riqueza musical são inesgotáveis, diante do elenco composto por Ana Baird (Sandra Rosa Madalena), Cristiana Pompeo (Creuza Paula), Pedro Henrique Lopes (Elivandro) e Victor Maia (Fernando Sidnelson) que traduzem as tramas amorosas entrelaçadas pelas canções que jamais serão esquecidas, sequer preteridas, após o testemunho do resgate visceral de um comportamento que influenciou um estilo musical por parte do quarteto de atores.

A conotação mundana que visa ao atendimento das especificidades do brega é fomentada pelo desenho de luz de Pedro Henrique Lopes e Lúcio Bragança Junior que, em comum união com o cenário de Clivia Cohen, transforma cada um dos espectadores em observadores de um reality show. Diretamente dos bastidores, ambientado de forma duvidosa – tal e qual as dramáticas e preconceituadas, como de baixa qualidade – as músicas que fazem parte da trilha sonora do dramalhão que se desenrola em cena, têm suas mensagens imediatamente assimiladas e merecedoras da total aceitação por parte da plateia, como se fossem legendas de uma história que a todos interessa, subtituladas pelo equilibrado desenho de som de Leonardo Carneiro e Bernardo Nadal. Os termos bocomoco e kitsch qualificam o código de vestimenta, aparentemente, pretendido por Clivia Cohen, Ana Baird e Cristiana Pompeo que assinam o figurino de “mau gosto” porém, rico em criatividade.

“O Meu Sangue Ferve Por Você” é um espetáculo que nasceu com trajetória fadada ao sucesso de público, muito em função da ingenuidade com que Lopes trata o tema amor e suas aflições sentimentais, com muito bom humor e, porque não dizer, repleto de genialidade

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