Beatriz - Uma existência de mulher, de Catarina Setubal de Rezende: A ausência também tem uma história
Atualizado: 25 de ago.
Por Paulo Sales
Catarina perdeu a mãe aos 17 anos, quando Beatriz tinha apenas 45. Cinco filhos ficaram para trás, ainda crianças e adolescentes, e a primogênita passou a conviver não apenas com a saudade, mas com a impossibilidade de conhecer plenamente uma mulher cuja vida fora interrompida. Décadas depois, reúne mais de 140 cartas, fotografias, documentos e acontecimentos históricos dos anos 1950 e 1960 para reconstruir essa existência. O resultado é uma bioficção que não procura apenas narrar uma trajetória, mas recuperar as possibilidades de uma vida interrompida.
O mérito está em não transformar Beatriz na santa que a memória familiar costuma fabricar depois da morte. Ela aparece como uma mulher de dúvidas, desejos, contradições, fé, inteligência, inquietações políticas e vontade de liberdade. Estudou Letras, aproximou-se da Sociologia, participou da Juventude Universitária Católica e desejou conhecer um Brasil que existia para além do espaço confortável em que sua própria vida estava circunscrita.
Essa dimensão de possibilidade é fundamental. Uma existência não deve ser lida como se seu desfecho estivesse determinado desde o início. Beatriz poderia ter sido muitas coisas. Quis estudar, conhecer, participar e compreender, mas a história, as circunstâncias e as escolhas foram fechando algumas portas antes que ela pudesse descobrir até onde chegaria.
A liberdade, por isso, não aparece como palavra abstrata. Precisava ser negociada com o pai autoritário, com as expectativas destinadas às mulheres, com a maternidade, o casamento, a religião e o Brasil de seu tempo. O livro não precisa transformar Beatriz numa mulher do século XXI para demonstrar a dimensão transgressora de alguns de seus desejos. Basta mostrar que, já nos anos 1950 e 1960, havia mulheres conscientes de que o mundo lhes oferecia papéis prontos demais e interessadas em descobrir o que poderia existir para além deles.
Sua relação com a religião reforça essa complexidade. A participação na Juventude Universitária Católica não é apresentada simplesmente como uma prisão da qual ela precisasse escapar para ser livre. Fé, amor, maternidade e desejo de autonomia convivem na mesma mulher, às vezes em harmonia, às vezes em tensão. A própria experiência religiosa participa dessa negociação: não aparece como o oposto da liberdade, mas como uma das dimensões dentro das quais Beatriz procura compreender o que deseja para si. O livro ganha justamente por não reduzir essa experiência a uma tese.
As cartas de amor para Antônio Rezende desempenham papel decisivo nessa reconstrução. Elas permitem acompanhar Beatriz enquanto ainda não sabe como sua história terminará. Em vez de mostrar apenas quem ela se tornou, revelam quem estava tentando ser. O passado, assim, recupera movimento: deixa de ser um conjunto de acontecimentos encerrados e volta a ser o presente de alguém que fazia escolhas sem conhecer o desfecho.
A segunda parte da obra desloca o foco para Catarina no período posterior à morte da mãe. Como filha mais velha, ela assume responsabilidades, cuida da casa, convive com os irmãos e escreve cartas para uma mãe que já não pode responder. O gesto é, ao mesmo tempo, uma tentativa de manter um diálogo impossível e de construir uma relação que a morte interrompeu antes que mãe e filha pudessem se conhecer por inteiro.
Esse é um dos aspectos mais cruéis da morte precoce: ela não rouba apenas o futuro de quem parte, mas também o futuro de quem fica. Beatriz não conheceu os adultos em que seus filhos se tornariam; os filhos não puderam fazer à mãe as perguntas que só surgem muitos anos depois. Enquanto eles continuaram mudando, a imagem dela permaneceu presa ao momento em que morreu.
É nesse intervalo que a literatura entra. Ao investigar cartas, fotografias e documentos, Catarina encontra uma mãe que não cabe inteiramente na memória familiar. Perceber que uma mãe pode pertencer profundamente aos filhos sem pertencer a eles. Antes de ser mãe de cinco crianças, Beatriz foi uma mulher com infância, juventude, desejos, inquietações, escolhas e possibilidades próprias.

É também aí que surge a dimensão feminista mais interessante da obra. Beatriz não é reduzida à oposição entre maternidade e realização pessoal. Ser mãe não apaga a mulher que queria estudar, conhecer o país e compreender suas desigualdades; tampouco transforma a maternidade em derrota. O livro permite vê-la sustentando desejos que não desaparecem quando ela se torna mãe. Ela pode amar os filhos e desejar outras coisas, ter fé e buscar autonomia, ser esposa sem desaparecer no casamento, cuidar da casa e continuar intelectualmente inquieta. Pode, sobretudo, não caber na personagem que os outros escreveram para ela.
A recriação da voz de Beatriz por inteligência artificial, mais de cinco décadas depois de sua morte, acrescenta uma provocação contemporânea. A tecnologia aproxima, mas também evidencia o limite de toda reconstrução. Uma máquina pode organizar palavras e produzir uma voz plausível; não pode devolver uma vida nem a experiência que existiu por trás dela. As cartas são documentos, mas a narrativa que os reúne é interpretação. Mesmo quando parte de vestígios concretos, a bioficção precisa selecionar, ordenar, preencher lacunas e imaginar continuidades. O passado oferece os materiais; cabe à autora decidir que história fará com eles. O problema não está em interpretar, mas em fingir que não houve escolha.
Por isso, Beatriz deixa de ser apenas a mãe que morreu cedo demais e passa a ser também a mulher cuja vida foi interrompida no meio. Aos 45 anos, ela não era somente aquilo que havia realizado, mas tudo o que ainda poderia realizar, desejar, rever, abandonar ou começar. É esse “ainda” que torna sua morte especialmente dolorosa. A idade deixa de ser apenas um dado biográfico e passa a marcar o tamanho das possibilidades que ficaram sem resposta.
Catarina tampouco escreve para afirmar que conheceu completamente a mãe. Escreve porque percebe o contrário: nunca conhecemos inteiramente ninguém. O filho conhece a mãe como mãe; o marido, a esposa como esposa; os amigos, a amiga. Cada relação ilumina uma parte da pessoa e deixa outras na sombra. Cada um guarda um fragmento, enquanto a pessoa inteira permanece fora de alcance.
Beatriz: Uma Existência de Mulher é, portanto, menos uma tentativa de ressuscitar uma mãe do que um esforço para impedir que ela morra duas vezes: primeiro como pessoa, depois como mulher. A morte encerrou sua existência, mas não deveria encerrar sua complexidade. Recuperar Beatriz significa justamente recusar a versão imóvel que a morte poderia impor a ela.
Ao procurar a mãe, Catarina encontra uma mulher. Ao reconstruir essa mulher, encontra uma ausência. E, ao tentar lidar com essa ausência, descobre que algumas faltas não precisam ser preenchidas, mas compreendidas.
A literatura não repara o irreparável. Nenhuma carta devolve uma mãe aos filhos, nenhuma fotografia interrompe o tempo e nenhuma inteligência artificial ressuscita aquilo que a morte levou. Mas a literatura pode fazer algo menos grandioso e mais verdadeiro: ampliar a existência de quem partiu. Pode devolver movimento a uma vida que, para aqueles que ficaram, corria o risco de permanecer reduzida ao instante da morte.
Beatriz - Uma existência de mulher, de Catarina Setubal de Rezende: A ausência também tem uma história





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