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Blue Note Rio reúne jazz contemporâneo, acid jazz e tributo de densidade histórica

Na sexta-feira, dia 22, Julius Rodriguez sobe ao palco do Blue Note Rio pela primeira vez trazendo consigo algo que a música contemporânea vem desperdiçando com uma regularidade quase ofensiva: identidade. Pianista, compositor, produtor e multi-instrumentista, o artista nova-iorquino radicado em Los Angeles pertence àquela categoria raríssima de músicos cuja presença reorganiza imediatamente o ambiente. Não pela necessidade performática de parecer genial, expediente cansativo que domina boa parte da cena atual, mas pela existência de uma linguagem construída com convicção própria.


Julius não atravessa gêneros para demonstrar versatilidade. Isso seria banal demais. Sua música absorve jazz, soul, improvisação, groove e texturas contemporâneas como consequência natural de uma visão artística incapaz de aceitar confinamento estético.


Talvez por isso a imprensa internacional tenha reagido de forma tão imediata. The New York Times e Vanity Fair já destacaram o músico, que também participou do Tiny Desk Concert e acumula colaborações que transitam de Wynton Marsalis a A$AP Rocky. Um percurso que poderia facilmente resvalar naquela colagem oportunista de referências criada apenas para parecer moderna. 


No formato intimista do Blue Note Rio, com apresentações às 20h e às 22h30, o artista deve apresentar um repertório que dissolve fronteiras sonoras sem transformar essa liberdade em discurso pretensioso. Sua música não parece interessada em provar sofisticação a cada compasso, atitude rara em tempos de performances excessivamente calculadas para impressionar mais visualmente do que sonoramente.


No sábado, a Eletrofunky retorna ao Blue Note Rio com o especial “Jamiroquai Experience”, mergulhando em um repertório que exige mais do que competência instrumental para funcionar. Reviver o universo do acid jazz sempre envolve um risco delicado: transformar um gênero construído sobre pulsação, liberdade e groove em mera decoração nostálgica para adultos tentando recuperar a própria juventude através de refrões familiares.


Blue Note Rio

Felizmente, a banda formada por Fernando Lima e Julio Mossil compreende a diferença entre homenagem e reprodução burocrática. Existe domínio musical suficiente para preservar a vibração elegante que transformou o Jamiroquai em um fenômeno singular dentro da música britânica.


O repertório também explora referências fundamentais do acid jazz, subgênero que encontrou um equilíbrio raríssimo entre sofisticação musical e prazer físico. Funk, soul, R&B e jazz convivem sem rigidez estética, sustentados por linhas de baixo hipnóticas, teclados expansivos e uma pulsação que dispensa a necessidade constrangedora de explicar intelectualidade ao público. 


A Eletrofunky entende isso. O grupo deve subir ao palco interessado em provocar movimento, não reverência cerimonial. Essa escolha tende a produzir diferença perceptível em uma época marcada por apresentações emocionalmente assépticas, frequentemente construídas para gerar cortes rápidos de rede social em vez de experiências musicais consistentes. 


No domingo, Felipe Brito apresenta “Tributo a Martin Luther King Jr.”, proposta artisticamente delicada porque envolve uma figura histórica frequentemente reduzida a símbolo decorativo em discursos culturalmente domesticados. Trabalhar musicalmente um personagem dessa dimensão exige densidade suficiente para escapar da armadilha sentimental que transforma memória política em gesto vazio de comoção estética.


A potência de um tributo como esse depende menos da solenidade e muito mais da capacidade de construir verdade dentro da interpretação. Quando existe profundidade artística sustentando a homenagem, o palco ganha dimensão humana sem recorrer ao sentimentalismo previsível que tantas vezes esvazia projetos dessa natureza.


PROGRAMAÇÃO BLUE NOTE RIO

22/05 | Sexta-feira | 20h e 22h30 JULIUS RODRIGUEZ

23/05 | Sábado | 20h e 22h30 ELETROFUNKY | JAMIROQUAI EXPERIENCE | SÓ HITS

24/05 | Domingo | 18h FELIPE BRITO | TRIBUTO A MARTIN LUTHER KING JR.


Blue Note Rio reúne jazz contemporâneo, acid jazz e tributo de densidade histórica

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