top of page

Dia D: Um Spielberg Aquém de suas próprias ideias

A premissa concebida por Steven Spielberg reúne ingredientes suficientes para alimentar uma obra de ficção científica de grande alcance. Um cientista consegue escapar de uma organização secreta que, durante décadas, suprimiu evidências da existência de vida extraterrestre. Em sua posse estão informações capazes de alterar não apenas o entendimento científico da humanidade, mas também suas estruturas filosóficas, religiosas e culturais. Trata-se de um ponto de partida cuja força dramática parece quase inesgotável. Justamente por isso, torna-se impossível ignorar a distância entre aquilo que o filme promete e aquilo que efetivamente entrega.


Desde a abertura, a narrativa demonstra uma confiança quase irrestrita na dinâmica da perseguição. Os personagens deslocam-se continuamente entre esconderijos, estradas, aeroportos, centros de pesquisa e locais secretos. Cada descoberta conduz a uma nova fuga. Cada fuga conduz a um novo obstáculo. Cada obstáculo conduz a uma nova movimentação. O roteiro mantém os acontecimentos em permanente estado de aceleração, como se temesse que qualquer pausa pudesse comprometer o interesse do espectador.


A sensação predominante é a de acompanhar uma narrativa profundamente comprometida com seus mecanismos externos e surpreendentemente indiferente às implicações humanas da própria história que escolheu contar.


A descoberta da existência de vida extraterrestre deveria funcionar como um abalo de proporções históricas. Não se trata apenas de uma informação extraordinária. Trata-se de um acontecimento capaz de redefinir a percepção humana sobre si mesma. Uma revelação dessa magnitude deveria provocar crises de identidade, conflitos de fé, rupturas políticas, transformações culturais e questionamentos existenciais. Em vez disso, o filme reduz essa descoberta a um elemento de circulação dramática, algo que precisa ser protegido, transportado e disputado para manter a trama em funcionamento.


O aspecto mais frustrante dessa escolha não reside apenas no que o filme faz, mas principalmente no que decide não fazer.


Daniel Kellner, interpretado por Josh O'Connor, ocupa o centro dos acontecimentos. O ator desempenha sua função com competência e credibilidade, mas encontra limitações evidentes na construção do personagem. O roteiro dedica enorme atenção aos deslocamentos físicos de Daniel, mas demonstra escasso interesse por seus deslocamentos internos. Sabemos o que ele carrega. Sabemos de quem foge. Sabemos o que pretende impedir. O que raramente sabemos é como a descoberta que move toda a narrativa alterou sua compreensão do mundo.


Emily Blunt, por sua vez, interpreta Margaret Fairchild, uma meteorologista cuja ligação com os visitantes extraterrestres poderia constituir um dos elementos mais intrigantes da trama. Existe algo potencialmente fascinante em uma personagem posicionada entre a racionalidade científica e uma experiência que desafia qualquer explicação convencional. No entanto, o filme parece satisfeito em utilizar essa característica como mera distinção superficial. O conflito permanece sugerido quando deveria ser explorado.


Jane, interpretada por Eve Hewson, enfrenta problema semelhante. Sua presença possui relevância funcional para a história, mas raramente ultrapassa essa condição. O roteiro pouco faz para transformá-la em alguém que exista para além das necessidades imediatas da narrativa. Sua trajetória carece de singularidade, densidade emocional e autonomia dramática.


Colman Domingo traz sua habitual presença cênica ao papel de Hugo Wakefield. Mesmo assim, a impressão persistente é a de que o personagem foi concebido mais como um conjunto de atributos do que como um indivíduo plenamente desenvolvido. Décadas de segredos e conhecimento acumulado deveriam produzir uma figura marcada por ambiguidades, conflitos e cicatrizes emocionais. Em vez disso, Wakefield permanece limitado a uma gravidade que o roteiro constantemente anuncia, mas raramente desenvolve.


O Dia D

Colin Firth, sempre elegante em cena, interpreta Noah Scanlon com o profissionalismo esperado. Ainda assim, seu antagonista parece excessivamente dependente de arquétipos familiares. Scanlon representa o poder institucional, a cultura do sigilo e a obsessão pelo controle. Nada disso seria um problema se o personagem apresentasse camadas capazes de torná-lo menos previsível. Não é o que acontece. Desde sua primeira aparição, ele parece inteiramente compreendido pelo espectador.


Durante décadas, o cinema utilizou visitantes alienígenas para refletir sobre algumas das questões mais profundas da experiência humana. Eles já simbolizaram medo, esperança, transcendência, isolamento, pertencimento, fé e desconhecimento. Em muitos casos, os extraterrestres funcionaram menos como criaturas e mais como instrumentos para investigar aquilo que nos define como espécie.


A existência dos alienígenas é constantemente apresentada como algo extraordinário, mas quase nunca explorada em suas consequências concretas. O filme raramente se detém sobre as possíveis reações de governos, instituições religiosas, comunidades científicas ou cidadãos comuns diante de uma revelação dessa magnitude. Mais grave ainda é a ausência de interesse pelas transformações emocionais que tal descoberta deveria provocar nos próprios protagonistas.


Os extraterrestres permanecem envoltos em mistério durante grande parte da projeção. Entretanto, mistério não constitui profundidade por si só. Seu valor depende daquilo que ele sugere, desenvolve ou revela. Em Dia D, o mistério frequentemente assume a função de substituir o desenvolvimento dramático que deveria acompanhá-lo.


Os visitantes estão sempre próximos o suficiente para alimentar expectativas e distantes o bastante para evitar uma exploração mais significativa. Quando finalmente surge a possibilidade de ampliar essa relação, o filme opta pela contenção.


As sequências de ação funcionam. A direção mantém o ritmo sob controle. A produção apresenta acabamento impecável. Spielberg continua demonstrando domínio absoluto dos aspectos técnicos da encenação. Nada parece improvisado, descuidado ou incompetente.


Ao longo de mais de duas horas, o espectador acompanha acontecimentos que deveriam produzir assombro, inquietação e transformação. Em vez disso, encontra uma narrativa excessivamente preocupada com trajetórias físicas e insuficientemente interessada nos abalos emocionais, intelectuais e existenciais que constituem seu verdadeiro potencial dramático.


A cada nova sequência, surge a impressão de que um filme mais complexo tenta emergir sob a superfície daquele que estamos assistindo. Um filme mais disposto a investigar pessoas do que conspirações. Mais interessado em consequências do que em mecanismos. Mais comprometido com o significado da descoberta do que com a movimentação produzida por ela.


O que chega à tela é um espetáculo tecnicamente competente, ocasionalmente envolvente e constantemente limitado por sua relutância em explorar aquilo que possui de mais interessante.


Dia D: Um Spielberg Aquém de suas próprias ideias


Comentários


bottom of page