Festival do Dia da África “Da África ao Quilombo Urbano: Africanidades Vivas e Caminhos de Esperança” - Contra a Ancestralidade de Marketing
- circuitogeral

- há 1 dia
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Existe algo particularmente delicado em eventos que se propõem a celebrar ancestralidade. Porque ancestralidade virou uma palavra perigosamente disponível. Cabe em edital, cabe em slogan institucional, cabe em campanha publicitária de banco, cabe em postagem de marca de roupa sustentável. Repetiu-se tanto “ancestralidade”, “território”, “resistência” e “afrocentrado” nos últimos anos que parte dessas palavras começou a perder densidade humana. Tornaram-se conceitos eficientes demais para um mundo especializado em transformar dor histórica em linguagem de marketing cultural.
Talvez o aspecto mais interessante do Festival do Dia da África, “Da África ao Quilombo Urbano: Africanidades Vivas e Caminhos de Esperança”, esteja justamente na tentativa de devolver matéria concreta a termos que andam excessivamente esterilizados pelo discurso. Não apenas conceitos. Corpo. Cheiro de comida atravessando o espaço. Tambor reverberando no chão. Crianças correndo entre adultos atentos. Conversas carregadas de memória, afeto e permanência.
O festival, realizado no Quilombo Urbano Mineiro Pau, em Santa Cruz, parece compreender algo fundamental: identidade não se preserva apenas discursando sobre ela. Preserva-se ocupando espaço, transmitindo linguagem, formando vínculos e criando continuidade entre gerações.
Há uma diferença profunda entre um evento que fala sobre cultura negra e outro que nasce dentro dela. Grande parte dos festivais contemporâneos ligados à diversidade opera num regime de vitrine. Palco patrocinado, fala protocolar, representatividade cuidadosamente organizada para circulação institucional. Expõem culturas periféricas para consumo simbólico de uma plateia que, muitas vezes, deseja apenas confirmar sua própria consciência social.
Aqui, pelo menos no desenho conceitual apresentado, percebe-se uma tentativa de inverter essa lógica. O território não aparece como pano de fundo fotogênico nem como cenário de legitimidade social. Surge como centro narrativo da experiência. Isso altera completamente a temperatura do evento.
Quando o texto do festival fala em quilombo urbano, não parece recorrer àquela romantização preguiçosa que transforma qualquer experiência coletiva em “quilombo”. A palavra surge menos como metáfora e mais como estrutura concreta de continuidade histórica, reorganização comunitária e sobrevivência contemporânea.
O quilombo aparece como espaço onde cultura não funciona como entretenimento suplementar da vida, mas como mecanismo cotidiano de sustentação emocional, política e afetiva. Samba, jongo, coco de roda, dança, espiritualidade e gastronomia ancestral deixam de ocupar a posição decorativa frequentemente reservada às culturas afro-brasileiras em festivais institucionais. Tornam-se linguagem de permanência.
Vivemos uma época curiosa em que as pessoas defendem diversidade cultural enquanto, silenciosamente, desejam que toda cultura seja traduzida para formatos rápidos, confortáveis e imediatamente consumíveis. Tudo precisa ser compreendido sem esforço. Tudo precisa ser fotografável. Tudo precisa caber numa legenda de rede social ou num vídeo curto cuidadosamente editado para circulação digital.
O festival parece caminhar na direção oposta ao insistir numa experiência atravessada por território, memória e presença física. E existe mérito nisso. Principalmente porque a proposta evita higienizar as matrizes africanas para torná-las mais palatáveis ao gosto médio progressista.
A presença do Babalawô Professor Ivanir dos Santos, por exemplo, não surge como exotismo acadêmico nem como peça protocolar de representatividade. Surge como afirmação política num país que ainda naturaliza o racismo religioso enquanto posa de multicultural.
Também é impossível ignorar a coragem implícita de realizar um evento dessa natureza na Zona Oeste do Rio de Janeiro, longe dos corredores culturais onde parte da elite intelectual costuma validar aquilo que considera “cultura relevante”.
Há um paternalismo silencioso quando o centro olha para as produções periféricas. A periferia interessa desde que permaneça organizada dentro de categorias facilmente reconhecíveis: potência criativa, resistência poética, juventude transformadora, vulnerabilidade social convertida em narrativa inspiradora. Quase nunca se admite que territórios periféricos também produzem pensamento sofisticado, elaboração estética complexa e inteligência simbólica própria, sem precisar da tradução legitimadora do centro.
Talvez por isso o espetáculo “Recontando Minha História Preta” apareça como um dos momentos mais promissores da programação. Não pela ingenuidade confortável de colocar crianças no palco, recurso emocionalmente eficiente e frequentemente manipulado por projetos sociais, mas pela possibilidade de deslocamento narrativo.
Durante séculos, a história preta brasileira foi contada quase sempre por outros. Pela escola. Pela televisão. Pela política. Pela academia. E quase sempre de maneira incompleta. Ou pela metade. Ou reduzida ao sofrimento, como se pessoas negras existissem permanentemente aprisionadas numa narrativa de dor histórica.
Quando crianças e adolescentes da própria comunidade assumem essa narrativa, alguma coisa se reorganiza simbolicamente. Mas isso também exige cuidado.

Parte do teatro comunitário contemporâneo ainda opera sob a crença de que legitimidade social substitui elaboração estética. Não substitui. Arte feita na periferia não precisa de indulgência crítica; precisa de exigência verdadeira. Porque paternalismo também é violência simbólica.
Quando um espetáculo acredita que basta listar traumas históricos para produzir potência artística, reduz experiência humana a cartilha emocional. O verdadeiro desafio será perceber se “Recontando Minha História Preta” conseguirá construir linguagem própria ou se cairá na sucessão previsível de slogans emocionais reproduzidos por parte da arte identitária contemporânea.
Nem toda manifestação politicamente necessária produz boa arte. Às vezes produz apenas boa intenção. E boa intenção não sustenta dramaturgia, não sustenta ritmo, não sustenta cena, não sustenta memória estética.
A gastronomia ancestral prevista no festival talvez seja um dos aspectos mais interessantes justamente porque escapa desse risco discursivo. Comida não argumenta. Comida evoca. O Café de Terreiro e o almoço comunitário carregam uma inteligência afetiva que muitos seminários jamais alcançam.
Memória também atravessa o tempero. Transmissão cultural aparece nos modos de preparo. Política se manifesta em quem senta junto para comer.
A indústria contemporânea da experiência gourmet sequestrou parte da culinária afro-brasileira, transformando tradição em consumo cenográfico. Tudo virou “experiência imersiva”. Tudo virou “vivência sensorial”. Tudo virou embalagem sofisticada para um vazio cuidadosamente instagramável.
Quando um festival reinsere alimento dentro de uma lógica comunitária e ritualística, recupera algo profundamente humano que o mercado cultural vem esterilizando nos últimos anos.
Outro aspecto silenciosamente bonito dessa programação está no interesse pela permanência, não apenas pelo impacto momentâneo. Vivemos dominados pela lógica do acontecimento instantâneo. Eventos querem viralizar. Projetos querem repercutir. Experiências querem gerar engajamento contínuo.
Pouca gente pergunta o que permanece depois da foto, depois do vídeo, depois da hashtag.
O trabalho da OSFRJ parece sugerir outra ambição. Menos espetáculo. Mais continuidade. Menos performance social para público externo. Mais construção de vínculo interno.
Porque resistência não mora apenas nos grandes discursos inflamados. Às vezes aparece no fato de uma comunidade continuar produzindo festa, teatro, comida, espiritualidade, conversa e infância em meio a um país especializado em interromper futuros negros.
Existe um esgotamento emocional evidente na sociedade brasileira contemporânea. Um cansaço coletivo. Um individualismo agressivo vendido como liberdade pessoal. Um medo constante travestido de produtividade.
Nesse cenário, reunir pessoas em torno de memória compartilhada talvez seja menos folclórico do que parece. Talvez seja profundamente político.
O festival ainda nem aconteceu. E isso importa. Conceitos sofisticados não garantem experiência transformadora. Tudo dependerá da execução, da organicidade, da escuta, do ritmo e da capacidade do evento de não transformar sua própria pauta em encenação previsível de virtudes progressistas.
Se o Festival do Dia da África conseguir produzir verdade humana sem cair na caricatura militante nem na estética pasteurizada da diversidade institucional, poderá alcançar algo raro: fazer da cultura não um adereço discursivo, mas uma experiência concreta de reconhecimento coletivo.
Reconhecimento que não termina no discurso. Reconhecimento que permanece na memória, no corpo e no território muito depois do fim da programação.
Serviço:
Local: Quilombo Urbano Mineiro Pau – sede da Obra Social Filhos da Razão e Justiça – Tv. Aurora, 157, Santa Cruz, Rio de Janeiro - RJ
Dia e horário: 24 de maio, domingo, das 9h às 19h
Entrada: 1kg de alimento não perecível
Assessoria de imprensa: Carlos Pinho (@dicasdopinhao)
Realização: Obra Social Filhos da Razão e Justiça (OSFRJ)
Festival do Dia da África “Da África ao Quilombo Urbano: Africanidades Vivas e Caminhos de Esperança” - Contra a Ancestralidade de Marketing


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