Psicodrama: O quê, como e por quê (41 cenas fundantes), Zerka T. Moreno e Sérgio Guimarães - Uma Longa Espera pelo Começo
- circuitogeral

- há 7 dias
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Você abre o livro esperando aprender psicodrama e, algumas páginas depois, tem a sensação de ter invadido uma assembleia de filósofos que decidiram declarar guerra aos verbos simples.
São necessários onze parágrafos para admitir que Jacob Levy Moreno talvez fosse um sujeito complexo. Onze. Nesse intervalo, o autor ainda procura o objeto da análise, enquanto o leitor já se tornou parte dela.
A impressão constante é a de um procedimento cuidadosamente cultivado: qualquer ideia que pudesse ser compreendida sem esforço recebe sucessivas camadas de abstração até adquirir um peso que não possuía quando nasceu. A densidade deixa de ser consequência do pensamento e passa a funcionar como maquiagem intelectual.
As frases avançam como se cada substantivo concreto representasse uma derrota estética. Ninguém conversa, ninguém experimenta, ninguém vive. Tudo "desloca o centro da autoridade", "revela uma arquitetura psicológica das coletividades", "edifica um sistema robusto". O ser humano desaparece, substituído por conceitos que parecem conversar apenas entre si, como espelhos discutindo o próprio reflexo.

O raciocínio também obedece a um movimento curioso. Primeiro vem o elogio. Depois a crítica. Em seguida, a crítica da crítica. Logo aparece a crítica dirigida a quem elogiou e, finalmente, a advertência de que toda conclusão inspira desconfiança. O argumento transforma qualquer reação do leitor em prova de sua própria validade. Concordar confirma a tese; discordar apenas demonstra que você ocupou exatamente o lugar previsto para o discordante. É uma moeda lançada ao ar cuja gravidade já conhece o resultado.
Também chama atenção a inflação permanente de profundidade. Tudo precisa ser paradoxo, tensão, inquietação, arquitetura invisível. Nada pode simplesmente existir. Se o texto avançasse por mais algumas páginas, talvez descobríssemos que Jacob Levy Moreno, médico psiquiatra romeno radicado nos Estados Unidos, era simultaneamente presença e ausência, permanência e fluxo, café e descafeinado.
O ensaio, porém, transmite a impressão de que cada adjetivo precisou atravessar uma banca interdisciplinar antes de receber autorização para ocupar a página.
Se o psicodrama convida as pessoas a subir ao palco para agir, este ensaio prefere acomodar o leitor na última fileira, onde ele assiste ao autor contemplando a própria interpretação durante quarenta e uma cenas fundantes. A quadragésima segunda provavelmente registra apenas um homem folheando a introdução em busca do momento exato em que o livro, enfim, decide começar.
Psicodrama: O quê, como e por quê (41 cenas fundantes), Zerka T. Moreno e Sérgio Guimarães - Uma Longa Espera pelo Começo




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