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A Empregada:
quando a terapia é mais cara que a diária na mansão

 

Paul Feig parece ter acordado um dia, revisitado a própria filmografia e chegado a uma conclusão simples: já fez gente rir o suficiente. Agora, queria provocar desconforto

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O resultado é A Empregada, um thriller psicológico que soa como o subproduto de uma terapia coletiva mal resolvida, regada a vinho caro, repressão emocional e pessoas ricas repetindo “fica tranquila” enquanto tudo ao redor grita o contrário.

A premissa não poderia ser mais direta, quase didática. Uma mulher vulnerável, sem casa e com um passado nebuloso, aceita um emprego em uma mansão branca, impecável e silenciosa demais.

Nina (Amanda Seyfried), por outro lado, é o retrato do colapso emocional embalado pelo privilégio. Com dinheiro, tempo livre e nenhuma autocrítica, ela não explode, implode. Não é loucura no sentido clássico, mas a deterioração de alguém que claramente precisa de ajuda e prefere descarregar seu vazio em quem ocupa a posição mais frágil da casa. Terapia exige confronto; poder, não.

É nesse desequilíbrio que Paul Feig encontra diversão.

Ele filma o sofrimento psicológico com um distanciamento quase irônico, como se dissesse que até o surto pode ficar elegante com a iluminação certa. O filme não quer apenas criar tensão. Ele quer provocar culpa. Culpa por achar bonito, por achar envolvente, por se divertir enquanto as relações ali apodrecem.

Há erotismo, violência emocional e uma sensação constante de que todos aqueles personagens precisam urgentemente de limites, acompanhamento profissional e, talvez, menos espaço para ecoar os próprios problemas.

Andrew (Brandon Sklenar), o marido, representa uma ameaça silenciosa. Gentil demais, educado demais, ausente demais. Ele nunca levanta a voz, nunca toma partido e nunca interfere. Justamente por isso, permite que o caos se organize. Sua passividade não é neutralidade, é cumplicidade. Ele é a versão mais polida da negligência emocional.

Feig transforma o lar, esse espaço teoricamente seguro, em um campo minado psicológico. As refeições viram testes passivo-agressivos. Os silêncios se alongam até incomodar. Os olhares avisam que algo vai dar errado, mas sempre com educação.

As reviravoltas chegam, como era de se esperar. Não surpreendem tanto quanto confirmam uma tensão anunciada desde o início. São previsíveis no mesmo sentido em que se prevê o colapso emocional em uma reunião de família: a questão nunca é se vai acontecer, mas quando. Ainda assim, o exagero funciona, porque o filme assume o espetáculo.

O tom campy não enfraquece o thriller. Pelo contrário, escancara o absurdo. A Empregada entende que o psicológico também pode ser teatral, que o trauma pode entrar em cena maquiado e que, às vezes, rir enquanto tudo pega fogo é a forma mais honesta de falar sobre poder, classe e controle.

No fim, a pergunta não é quem é o vilão.
É quem ainda consegue ser funcional.

A Empregada fala menos de mistério e mais de convivência levada ao limite. Mostra como desigualdade, desejo reprimido e ausência de diálogo transformam qualquer mansão em um hospício bem decorado. Paul Feig não quer que o público saia confortável. Quer que saia comentando, julgando e debatendo cada personagem.

E consegue.

Porque, no fundo, este não é um filme sobre patrões ou empregadas.
É sobre pessoas que claramente deveriam estar na terapia,
mas decidiram transformar tudo isso em cinema.

Some a isso uma patroa emocionalmente instável e um marido aparentemente perfeito, e o filme se transforma em um estudo clínico sobre como a elite consegue desestabilizar alguém sem jamais elevar o tom de voz.

Millie (Sydney Sweeney) chega à casa dos Winchester acreditando ter encontrado uma oportunidade. O que ela encontra, na verdade, é um escape room emocional, onde a saída não existe e o controle vem disfarçado de gentileza. Psicologicamente, Millie é sobrevivência pura. Ela aceita tudo porque aprendeu que, quando se dorme no carro, qualquer abuso pode parecer uma chance de recomeço.

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