Família de Aluguel:
Quando o Afeto Vira Serviço
E se, em vez de resolver seus traumas na terapia, você simplesmente alugasse um pai? Parece absurdo, mas o filme faz algo perigoso. Ele leva essa ideia a sério. E, pior, faz funcionar.
PAULO SALES

Ambientado no Japão contemporâneo, o longa mostra uma sociedade cheia de regras, horários e compromissos, mas com um vazio emocional cuidadosamente organizado. Nesse cenário, alugar uma família não soa como um delírio criativo, mas como uma solução prática. Afinal, se todo mundo já finge estar bem no trabalho, em reuniões sociais e em almoços de domingo, pagar alguém para fingir junto parece apenas profissionalizar o processo.

O protagonista Philip, vivido por Brendan Fraser, é um ator americano meio perdido em Tóquio que aceita trabalhar em uma agência de famílias de aluguel. Seu emprego consiste em interpretar parentes sob demanda. Ele vai a funerais de pessoas que nunca conheceu, consola estranhos e oferece apoio emocional como quem presta um serviço qualquer. A diferença é que, em vez de entregar um produto, ele entrega presença.
E o mais desconcertante é que isso realmente ajuda.
O filme brinca com a noção de que essas relações são falsas, mas rapidamente inverte a lógica. Falsas parecem ser muitas relações tradicionais, mantidas por obrigação, silêncio e aparência. O abraço pode ser ensaiado, mas a solidão é real. E quando o carinho, mesmo pago, consegue aliviar essa solidão, o filme deixa a pergunta no ar e não dá respostas confortáveis.
A narrativa também cutuca uma ferida social conhecida. Todo mundo precisa cumprir um papel. Pai responsável, mãe dedicada, filho exemplar. Todos atuando sem ensaio, sem cachê e sem direito a errar. Ao alugar uma família, os personagens experimentam por algumas horas a ilusão de que estão fazendo tudo certo. É triste perceber que essa ilusão, mesmo temporária, é um alívio.
Brendan Fraser entrega uma atuação contida e extremamente humana. Seu personagem carrega um cansaço emocional constante, daqueles que não aparecem em grandes discursos, mas nos silêncios e nos pequenos gestos. Ele não força emoção nem pede empatia. Apenas existe. E isso é mais do que suficiente para que o espectador sinta sua solidão, mesmo quando ele está sorrindo.

A direção aposta em um humor discreto e observacional, que faz rir e logo em seguida provoca desconforto. O filme não explica sua mensagem, não levanta cartazes nem sublinha emoções. Ele sugere. E, justamente por isso, acerta. A cada situação aparentemente absurda, surge uma pergunta incômoda. Se o afeto pode ser comprado, ele perde o valor ou revela o quanto estamos carentes dele?

No fim, Família de Aluguel é um filme doce sem ser apelativo, engraçado sem virar piada e triste sem pesar a mão. Funciona como um lembrete incômodo, porém necessário, de que gentileza, escuta e presença não deveriam ser itens de luxo nem serviços sob demanda.
Talvez a maior ironia do filme seja mostrar que, em um mundo onde todo mundo está atuando o tempo todo, o papel mais difícil continua sendo o de alguém que simplesmente não quer ficar sozinho.




