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Marty Supreme
o vazio carismático e a estética da sedução sem alma

Um filme sobre ambição que confunde velocidade com profundidade. Ele entra em cena já pedindo confiança, como quem diz: “Relaxa, eu sei o que estou fazendo.” E, por um tempo, a gente acredita.

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Timothée Chalamet com pose de gênio inquieto, direção de arte impecável, figurantes em abundância e uma trilha sonora que insiste em sinalizar importância, mesmo quando toca Tears for Fears em um beco de 1952. Tudo parece grande, intenso e urgente. Tudo, menos consistente.

Josh Safdie parece partir de uma ideia simples: fazer um filme sobre ambição sem parar para explicá-la, porque ambição não espera, não olha para trás e não se justifica. O problema é que o filme adota essa lógica ao pé da letra. Ele corre o tempo todo e nunca para para existir.

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A estética de Safdie reforça essa lógica. Tudo vibra, pulsa e exige atenção imediata. O espectador entra em um estado de leve hipnose, como quando concorda com alguém que fala rápido e usa palavras difíceis. Você não entende cada parte, mas o conjunto parece importante, então aceita.

Os personagens ao redor de Marty existem mais como função do que como gente. São peças de cenário que reforçam a sensação de mundo grande e tempo curto. As mulheres engravidam, envelhecem ou aplaudem. Os homens atrapalham ou caricaturam. Abel Ferrara, como um mafioso com cachorro, acaba sendo o personagem mais humano do filme, talvez porque pareça o único que sabe onde está e o que quer.

A trilha sonora anacrônica contribui para a sensação de deslocamento. Estamos nos anos 50, ouvindo música dos anos 80, com emoções dos anos 2020 e a profundidade emocional de um comercial de banco. O filme chama isso de atemporal, mas soa mais como indecisão.

Quando a narrativa finalmente desacelera e quase permite um momento genuíno, um sorriso no palco, um silêncio significativo, ela mesma interrompe, como se tivesse medo de se levar a sério por tempo demais.

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No fim, Marty Supreme é um filme sobre ambição que evita o único lugar onde a ambição realmente se revela: o vazio. A solução é seguir em frente. Outra cidade, outra jogada, outra música épica. O espectador completa o sentido sozinho, como em um relacionamento tóxico no qual só um dos lados faz o trabalho emocional.

Quando acaba, fica a sensação de ter assistido a algo grande sem saber exatamente o quê. Como sair de uma palestra motivacional convencido de que a vida mudou, até chegar ao estacionamento.

Marty Supreme quer ser épico, mas é apenas intenso. Quer ser profundo, mas prefere ser rápido. Talvez essa seja sua mensagem mais honesta: na pressa de ser alguém, ninguém vira ninguém.

Assim nasce Marty Mauser, um protagonista que vive em modo stories. As coisas acontecem em sequência, mas não se acumulam. Do ponto de vista psicológico, Marty é interessante não como pessoa, mas como conceito. Ele não é um personagem; é uma promessa. Um PowerPoint humano com três slides fixos: Potencial, Crescimento e Próximo Passo. Se tivesse LinkedIn, estaria descrito como visionário, disruptivo e jogador de tênis de mesa.

O filme confunde movimento com desenvolvimento. Marty está sempre indo a algum lugar, mas o roteiro parece ter medo do momento em que alguém possa perguntar por quê. Por que tênis de mesa? Por que esse desejo? Por que isso importa? A pergunta mal se forma e já é abafada por um corte rápido, música alta e a próxima cena.

As sequências de pingue-pongue funcionam como espetáculo, mas não como revelação. Poderiam ser de boliche, sinuca ou bingo do asilo. O esporte não é paixão; é pretexto. Serve apenas como caminho para dinheiro, fama e aplauso, como um coach que diz ter escolhido propósito quando, na prática, só trocou o produto.

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