“Tenente Seblon” e “Marginal Genet”
Ontologia precária do poder em duas peças teatrais
O encontro entre Tenente Seblon e Marginal Genet produz um híbrido cênico que articula repressão institucional e marginalidade assumida como duas faces de uma mesma fantasia de controle
PAULO SALES

Francis Mayer se aproxima de Jean Genet não com o desejo de explicá-lo, mas de provocá-lo. Sua leitura parece perguntar, com ironia deliberada, se aquilo ainda dói. A resposta é afirmativa. Dói, ri e sangra, ainda que com polidez suficiente para não comprometer o verniz institucional que tenta conter o impacto.
De um lado está o tenente: farda impecável, subjetividade amassada, autoridade exibida como vitrine e desejo clandestino registrado em gravações precárias. Do outro, o jovem Genet: marginal por vocação, poeta por insistência e delinquente porque o mundo nunca lhe ofereceu uma alternativa legítima de pertencimento. Um exerce o poder; o outro aprende a sobreviver. Ambos compartilham a crença ilusória de que o controle é algo externo, palpável, e não uma construção frágil da imaginação masculina.

Mayer estrutura sua encenação a partir da repressão como força motriz e da culpa como energia dramática. Em Tenente Seblon, a paixão pelo marinheiro Michel funciona como uma piada silenciosa que todos percebem, exceto aquele que a protagoniza. Já em Marginal Genet, o desejo não se oculta nem pede desculpas. Ele cobra, apanha, escreve e devolve a violência recebida em forma de literatura e desprezo. Se um grava para não enlouquecer, o outro escreve para dar sentido à própria ruína. Nenhum deles alcança redenção.


O elenco sustenta essa engrenagem com uma seriedade quase agressiva, o que intensifica tanto o humor quanto a crueldade da cena. Vinícius Moizés constrói um personagem que oscila entre a fragilidade institucional e a hostilidade afetiva, como alguém que troca de uniforme em um espaço impróprio, instável e precário. Thiago Brugger apresenta um Genet invasivo, sem concessões ao afeto ou à diplomacia. Ele ocupa o espaço, senta-se confortavelmente e julga a vida alheia com discursos extensos e cortantes. Ao redor deles, marinheiros, amantes e cúmplices formam um cabaré emocional que gira de maneira desordenada, iluminando o conflito e colidindo sem aviso.

Ao final, as duas peças compõem uma tese não autorizada sobre poder, desejo e a estupidez estrutural de quem acredita ser possível viver sem assumir aquilo que insiste em pulsar. Tenente Seblon deposita fé na hierarquia; Marginal Genet, no crime como forma de aprendizado. Ambos descobrem que não há armário, farda ou marginalidade capazes de ocultar o essencial. O riso que emerge desse reconhecimento não oferece conforto. Trata-se de um riso nervoso, desconfortável, que denuncia a identificação involuntária do espectador com aquilo que vê em cena.
Se o resultado parece excessivo, é porque Genet jamais foi adepto da contenção. Mayer articula os dois textos e entrega um espetáculo que não busca aplausos conciliadores. O que se exige do público é mais incômodo: desligar o gravador interno, abandonar a pose de normalidade e encarar, sem disfarces, o que realmente sentiu diante do que acabou de assistir.




