Oswaldo Massaini: o fabricante de emoções (Volume 1, 2 e 3): A engenharia do afeto
- circuitogeral

- há 6 dias
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Há algo profundamente suspeito em qualquer tentativa de “fabricar emoções”. A expressão carrega, por si só, uma espécie de confissão involuntária. Não se trata apenas de criar histórias, mas de organizar sentimentos, quase como se fossem peças disponíveis para montagem. Na trilogia Oswaldo Massaini: o fabricante de emoções, de Paulo Fernando dos Santos, essa lógica não é ocultada. Pelo contrário, é exposta com um cuidado que beira o desconforto.
Oswaldo Massaini não aparece como figura heróica nem como antagonista. Essa dualidade seria simplista demais. Ele surge como alguém que compreendeu cedo uma verdade pouco admitida: o público não busca apenas boas histórias. Busca sentir. E, com o tempo, aprende até mesmo como quer sentir.
O primeiro volume acompanha esse aprendizado inicial. Há uma aparência de descoberta, quase como se tudo ainda estivesse em aberto. No entanto, por trás dessa fase formativa, já se delineia uma percepção decisiva: emoções podem ser estruturadas. Não surgem apenas de forma espontânea; podem ser conduzidas, organizadas e entregues com precisão crescente.
No segundo volume, essa percepção amadurece. O reconhecimento de O Pagador de Promessas marca mais do que um êxito artístico. Funciona como validação de um modelo que passa a se repetir. A partir daí, a experiência do espectador deixa de ser imprevisível. Há um padrão. E padrões, quando bem executados, produzem conforto. Mas também limitam. O espectador já não se perde na narrativa. Ele percorre um caminho que, de algum modo, já conhece.

O terceiro volume abandona qualquer ilusão de neutralidade. A ideia de legado é colocada sob pressão. O que permanece quando emoções são produzidas em larga escala? O impacto se mantém ou se dissolve com o tempo? A trajetória de Massaini passa a ser atravessada por essa ambiguidade. Realização e desgaste coexistem. O que antes parecia expansão revela, aos poucos, seus próprios limites.
Há ainda um elemento mais sutil. Ao narrar esse processo, Paulo Fernando dos Santos não se coloca fora dele. Sua escrita também organiza ritmo, expectativa e envolvimento. Existe uma consciência silenciosa disso ao longo do texto. Em vez de negar essa condição, ele a deixa visível. Não como justificativa, mas como parte do próprio problema.
A trilogia não oferece respostas confortáveis. Também não busca julgamento direto. O que ela propõe é uma observação mais atenta: sentimentos podem ser induzidos com mais facilidade do que se imagina. E, talvez, o mais inquietante seja perceber o quanto essa indução pode passar despercebida.
Porque, quando a emoção parece natural demais, vale a pena perguntar de onde ela veio.
Oswaldo Massaini: o fabricante de emoções (Volume 1, 2 e 3): A engenharia do afeto



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