quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Festa, A Comédia



A mobilização de muita gente boa para contar a história de um menino chamado Miguel


Sob o bisturi de uma avaliação crítica preliminar de um espetáculo com processo criativo flexionado em quadros linkados entre si, “Festa - A Comédia” aposta todas as suas cartas ao convocar os seguintes nomes consagrados pelo seu desempenho junto ao teatro e à televisão para desenvolverem cinco esquetes: Alessandro Marson, Daniele Valente, Heloísa Périssé, Sill Esteves, Vincent Villari e Walcyr Carrasco. Fruto de um projeto cuja gênesis parte do encontro do diretor teatral Eduardo Figueiredo com o ator Mauricio Machado, o texto do espetáculo conta com um time de autores – amigos com quem já havia trabalhado. O resultado de tudo isso é a mobilização de muita gente boa para contar a história de um menino chamado Miguel, que detesta comemorar o seu aniversário. No caso específico da apresentação solo de Maurício Machado, a comemoração dos onze anos de idade de Miguelzinho.

Segue-se a ordem de apresentação dos monólogos e respectivos personagens, começando por “A mãe”, assinado por Daniela Valente responsável pelo discurso da ex-faxineira de um clube de funk de pilares, que enriquece, da noite para o dia, após ganhar na mega sena. Dona Irene, adepta às intervenções cirúrgico plásticas, é uma mulher bipolar, viciada em remédios tarja preta, sofre do impulso pela ostentação junto a seus amigos e familiares, e tenta satisfazê-lo sob o pretexto de comemorar o aniversário de seu filho – como uma supermãe, de acordo com seu próprio julgamento – contratando “ O Animador” – esquete de autoria de Alessandro Marson, que desenvolve o personagem com vocação para artista, porém, destrambelhado, sem talento e sem a menor vocação para lidar com crianças, para trabalhar como palhaço na festa de Miguel. “A Tia“, cuja ranhetice é exposta por Vincent Villari, apresentando, ao público, a insuportável mulher responsável pela indicação do animador que conheceu em um velório. Apesar de sua morbidez, a tia de Miguel ainda se dá ao luxo de dar em cima de uma mulher contratada para trabalhar na festa do sobrinho – “A Moça da carrocinha de cachorro quente”, cuja vulgaridade tomou todas as formas concebíveis por Heloísa Périssé e Sill Esteves. Coincidentemente, a profissional é amante do pai do aniversariante, e não poderia ser chamada por um nome menos sugestivo – Suellen Shellen. Dessa forma, acontece a festa de “Miguel, o aniversariante”, cujo esquete é de autoria de Walcyr Carrasco, encerrando o espetáculo com uma bela surpresa para os pais e os convidados, ao fim da festa.

O distanciamento contido na abstrata direção de Eduardo Figueiredo não subverte o gênero comédia, tampouco, o reinventa, ao invocar facticidade e vaidade artística. O processo de aclaramento dos personagens parece ter critérios conturbados em sua transformação e construção, considerando figurino e cenário, com ímpeto vanguardista assinados por Márcio Vinicius. Cumprindo com o objetivo de fazer o espectador relaxar, o visagismo de Anderson Bueno dilata a compreensão dos textos e contribui para com o direcionamento do gênero anunciado como comédia. A feição da direção musical de Guga Stroeter e Matias Capovilla, por alguns momentos, provoca estagnação e enclausuramento intersubjetivos, que potencializa a experiência e dá sentido às transformações realizadas pelo ator Maurício Machado que, pelo seu processo criativo, tende à interpretação com resistência racional à aceitação de dados perturbadores contidos em cada cena do espetáculo. O esforço incisivo de Paulo Denizot, a partir de seu desenho de luz, não permite que o espectador abdique da realidade delineada pelos personagens. A afirmação pontuada pelo caminho opressor, na falta de rumo e nas distorções sociais dos participantes do aniversário, é legitimada pela direção de movimentos de Janaína Marlene.

A emancipação teórica enquadrada nas ações das histórias apresentadas em “Festa - A Comédia” ganha especial atenção ao invocar questões éticas avassaladoras, capazes de desestruturar o convívio familiar, quando imersas em vozes conservadoras, avessas a debate sobre a dignidade humana.

O Chamado da Floresta



Bela e lendária aventura


Califórnia, 1890, em plena corrida do ouro – Buck, um cão de estimação é subtraído de seu dono e de seu lar na Califórnia, e é levado para uma localidade desértica gelada, junto ao exótico e selvagem rio Yukon, no Alasca, para ser vendido como cão de trenó. Durante a sua jornada, longe de seu lar, Buck passa de dono para dono, até descobrir, por si só, que seu destino final não é junto aos humanos, mas com os animais de sua espécie e de outras que habitam as florestas de coníferas daquela região.

A bela e lendária aventura, que discorre sobre a ganância humana e a avassaladora força do instinto animal, é mais uma adaptação cinematográfica do clássico romance, do início do século XX, intitulada “O Chamado da Floresta” assinado pelo autor, jornalista e ativista social norte-americano, Jack London. O longa é direcionado ao público de todas as idades, a despeito de que os carismáticos e convincentes animais elencados sejam frutos da avançada tecnologia da computação gráfica.

A direção de Chris Sanders oferece pura emoção, garantindo ao espectador, apaixonar-se, instantaneamente, pela amizade entre o cão e seus companheiros humanos – interpretados por Omar Sy e Harrison Ford – em meio a uma paisagem capaz de provocar, no espectador adulto, um sentimento nostálgico de uma infância que ainda pulsa no coração.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O Marido do Daniel




Uma literatura ‘Queer’

Sem entrar no mérito, muito menos discorrer sobre as semelhanças e diferenças na dramaturgia e encenação daquilo que se entende por comédia de costumes – cuja leitura da análise tomaria demasiado tempo do espectador comum, pressionado entre informar-se sobre a arte de fazer rir e a de fazer chorar, e a escolha de um espetáculo para preencher seu tempo dedicado ao lazer sob a forma de cultura – percebem-se, no texto do dramaturgo norte americano Michael McKeever - “Daniel’s Husband”, breve momento inicial que o classifica como uma comédia doméstica, flexionada em uma literatura ‘Queer’ – justificando uma definição de gênero teatral mais adequada. Contudo, os alvos para os quais o leitor ou espectador da obra é direcionado – como questões passíveis de reflexão individual ou coletiva, e de confronto com experiências próprias ou de terceiros – ficam a cargo da legitimidade, da aceitação e da credibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo e de assuntos que envolvem direito de família. Ou seja, um drama cujo debate ainda é um tabu e que contempla conflitos, cujas estatísticas ainda apresentam índices muito aquém das ocorrências de fato.


Ao traduzir a dramaturgia de McKeever, José Pedro Peter promove o lançamento de “O Marido do Daniel”, iniciando o autor do texto original no palcos brasileiros, sob a direção de Gilberto Gawronski, que confere, ao núcleo dos personagens, uma roupagem cênica com peso menos cômico e mais dramático, diante da relevância dos temas abordados – a despeito de qualquer nuance de humor sugerida pelos personagens, definida pelo texto ou pela direção do espetáculo, que parece apostar na melancolia de uma situação familiar sem floreios idiossincráticos.

Murilo (Bruno Cabrerizo) é um romancista conceituado no universo gay, que não acredita nem no casamento como instituição civil, nem no matrimônio como sacramento religioso, e que mantém, há sete anos, um relacionamento estável com Daniel (Ciro Sales) que, por sua vez, reflete a sua vocação como arquiteto na casa projetada por ele mesmo, onde mora com Murilo, com quem pretende, um dia, se casar. Lydia (Dedina Bernardelli) é a mãe de Daniel – uma mulher que age como uma força da natureza, capaz de destruir tudo que estiver à sua frente, alimentada por seu egoísmo limitador, mas nunca incompreensível ao olhar de quem deseja sempre o melhor para sua prole. Não obstante, Daniel guarda sérias restrições ao comportamento da mãe, em especial, os sentimentos da progenitora com relação ao seu falecido pai – um promissor artista plástico, cuja uma de suas obras, o arquiteto expõe em sua sala.

A história tem início numa reunião intimista na sala de estar da casa de Daniel, para qual o amigo de meia idade do casal – também agente literário de Murilo – Bartô (Alexandre Lino) – comparece acompanhado por Fred (José Pedro Peter) – um jovem de seus vinte e poucos anos de idade que trabalha na área da saúde – com quem aparenta dividir uma relação recente e sem maiores compromissos. Sem saber das pretensões de Daniel sobre um futuro casamento com Murilo e da aversão deste ao casamento, Fred deflagra uma discussão sobre o assunto, ainda muito mal resolvido pelo casal anfitrião.

O desempenho dos personagens Daniel, Murilo e Lydia são alimentados pela força atuante e pela convicção dos seus intérpretes, que se aprofundam no enredo crucial, com amigável realismo e algumas falas divertidas. Não obstante, Peter conduz com serenidade a dosada relevância de seu personagem, como o estopim que reacende o conflituoso assunto que divide a condição de expectativa por parte de Daniel e o sentimento de aversão por parte de Murilo. O tom definido pela comédia de costumes – visivelmente inflexionado por uma reviravolta na história, conforme divulgação oficial do espetáculo – se deve à habilidade artística de Alexandre Lino, ao incorporar, com especial fidedignidade, o personagem Bartô – o hedonista de meia idade, repleto de trejeitos, caras e bocas, que não esconde a sua preferência por homens cerca de duas décadas mais jovem.

A sala da casa de Daniel é concebida, pela cenógrafa Clívia Cohen, a partir de um leiaute condensado, apesar de, pretensiosamente minimalista – “representando a casa de um arquiteto”, conforme sugerido pela produção do espetáculo, contemplando uma mesa de apoio lateral de tímidas proporções – sobre a qual repousa um toca discos portátil para vinil e uma luminária – uma mesa de centro e um sofá – que se fragmenta quando se instaura a adversidade em meio ao trio familiar. Na quarta parede, uma moldura vazada que representa uma obra de arte de autoria do falecido pai de Daniel – admirador do pintor Iberê Camargo – através da qual, por muitas vezes, os personagens se mostram permeáveis às leituras de suas personalidades por parte dos espectadores. Último plano à frente do fundo infinito negro, uma outra moldura vazada, de proporções bem menores que as da obra de arte do pai de Daniel, se comporta, em alguns momentos, como um retrato de parede de um feliz casal formado por um arquiteto e um escritor e, noutros, um retrato de parede de um arquiteto que se sente ameaçado pela falta de um marido que também o deseje como tal. Apesar dos incômodos que a instalação possa causar ao público mais exigente quanto à estética exigida pelo texto, justifica-se a composição visando à criação de um “ambiente para que o texto flua da maneira mais simples possível”.

As circunstâncias extremas opostas, que se apresentam em diferentes estágios da história, conta com o desenho de luz de Felício Mafra, que oscila entre a incidência de focos dramáticos pontuais, contornados pela penumbra e pela ausência total de luz, e as superexposição das superfícies brancas dos elementos cenográficos de Cohen, pela incidência da luz frontal – um possível recurso intencional do luminotécnico visando à intensificação de determinadas cenas. Humberto Correia é preciso na concepção do figurino para todos os personagens, com destaque para o detalhe do casaco lançado nas costas, com mangas em nó na altura do pescoço, segundo estilo bem típico dos anos 1980, perfeito para o papel desempenhado por Lino.

“O Marido de Daniel”, num primeiro momento, pode induzir o espectador ao erro de escolha de uma peça a partir de seu enunciado, tendo em vista a superficialidade da informação transmitida pelo título, sugerindo, simplesmente, uma relação entre dois homens em um contexto cômico, longe da abordagem sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo – apesar de Daniel e Murilo não serem casados de fato. Quanto à ‘reviravolta’ anunciada, traduzida do inglês ’turn of events’ e ‘unexpected turn’ presentes nas divulgações dos espetáculos off-Broadway, funciona como divisor de águas para justificar o segmento da história que, de fato, classifica o espetáculo como um drama, agravado pelos momentos de conflito presentes nos minutos que prologam a anunciada comédia de costumes. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O Preço da Verdade



Uma assustadora realidade


Uma história de horror, perturbadora e pertinente, sobre a má conduta corporativa da segunda maior empresa química do mundo – a norte-americana DuPont – que envenenou a cidade de Parkersburg, localizada no estado norte-americano da Virgínia Ocidental por décadas, é o fio condutor do longa “O Preço da Verdade”.  Conta a história da batalha de quinze anos de um advogado de Cincinnati – Robert Bilott (Mark Ruffalo) para fazer valer a justiça e obrigar a ré ressarcir todas as vítimas de sua conduta genocida. Conforme artigo da New York Times Magazine, publicado em 2016, o advogado Robert Bilott se tornou o pior pesadelo da Du Pont.

Todd Haynes – o diretor independente, roteirista e produtor cinematográfico americano – ousa em sua direção, ao fazer de sua obra uma denúncia contra as agressões das grandes empresas contra o meio ambiente, detalhando o terror pelo qual passa um fazendeiro, cujas terras se transformam em um cemitério de gado, anos após anos. Na vizinhança, pessoas adoecem por longos anos, durante os quais, a justiça se mantém inerte diante do lançamento de rejeitos químicos no solo e, consequentemente, nos recursos hídricos da Virgínia Ocidental. No caso em questão, o produto químico tóxico usado na fabricação do Teflon – o  fluorocarbono PFOA,  cuja exposição aos seres humanos é provavelmente associada a ocorrência de câncer renal, câncer testicular, doenças da tireoide, altas taxas de colesterol e pré-eclâmpsia. 

Longe de ser um filme com final feliz, o longa sentencia o crime contra o planeta de maneira insolúvel, já que, em escala mundial, 99% de todos os seres vivos já tenham a sua cota de contaminação confirmada por estudiosos, através de atos como tomar banho, cozinhar e beber água, que servem como portas de entradas invisíveis.

“O Preço da Verdade” aponta o dedo para as empresas que funcionam de maneira criminosa e consciente de tais atos, e permitem que pessoas e animais sofram com a água que bebem e o ar que respiram. Esse quadro, cada vez mais atual, é que faz o filme uma assustadora realidade que, pelo que tudo indica, encontra-se longe de ser revertida.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Víspora



Conteúdo para reflexão, em momento muito oportuno, no qual o destino da cultura no país é embarreirado por incertezas, de forma retrógrada e irreparável


Como se em meio a um ato cirúrgico, um confronto de pontos de vista disseca a essência daquilo que se entende por teatro e as perspectivas reservadas, num futuro próximo, para a produção artístico-cultural.

Tudo acontece em um grande recinto onde outrora fora uma sala de espetáculos teatrais, transformada em um grande salão de bingo – onde cantador, partner e apostadores se confundem com elenco e público e lotam a casa de apostas, que se torna palco único do espetáculo “Víspora”.

A dinâmica de palco, se não cem por cento inusitada, é consagrada pelo ineditismo da participação da plateia, enquanto figuração ativa, pelo frenético empenho da direção de Paula Vilela que, num primeiro momento - quando pode transparecer insuflar uma carga de agressividade e de intransigência -  se mostra, ao mesmo tempo, apaziguadora, ao assumir o humor como ponto nevrálgico do drama contido no texto de Vilela e Juuar, de maneira lírica, simbólica e pretensiosamente rebelde.

A acidez presente no discurso dos personagens vividos por Cláudia Barbot, Luiz Furlanetto, Rose Abdallah, Philipp Lavra, durante as partidas de víspora, injeta certa dose de descontrole no espetáculo, fazendo com que o espectador se perca entre atentar para o discurso de cada um dos personagens e seguir o cantador do Bingo – preenchendo as suas cartelas a cada sorteio de um número da sorte, cantado pelo personagem interpretado por Samuel Toledo –  e a cada prêmio entregue aos jogadores sortudos, pela partner incorporada por Paula Vilela.

A ausência da contemporaneidade de um futuro não tão distante mas, precisamente, pré-datado em 2022, é retratado pelo projeto cenográfico assinado por Julia Deccache que, de tão voluntariamente óbvio, discursa sobre o deserto cultural de um país onde ninguém escuta um ao outro – portanto, sem estruturar opiniões próprias. Ao priorizar a banalização comportamental dos personagens,  Ticiana Passos concebe um figurino que retrata a real dimensão da mediocridade que coloca em xeque a indignação, a idealização de sonhos e o desinteresse pelos discursos prontos. A ciranda formada pelo amor e pelo egoísmo é envolvida pela trilha sonora de Gu Siqueira, em conjunto com o desenho de luz de João Gioia, que transita entre a superexposição e a subexposição dos personagens e dos elementos cenográficos à luz, em franca cadência com os momentos que vão da intensa introspecção e alusões às trevas, aos rompantes de exacerbada ganância e de manifestação de prazer diante de conquistas.

A essência da obra do médico, dramaturgo e escritor russo, Tchekhov – ‘A Gaivota’ – insemina  o espetáculo “Víspora”, oferecendo, ao público teatral, conteúdo para reflexão, em momento muito oportuno, no qual o destino da cultura no país é embarreirado por incertezas, de forma retrógrada e irreparável. “Víspora” revela o esforço dos personagens de viverem suas vidas sem qualquer esperança de conseguirem mudá-las e, muito menos, aceitá-las como se vivessem uma comédia, mas constatando sua existência como algo inexoravelmente frustrante – uma versão na qual induz entender o espectador como o responsável pela morte da ave, sem atentar, nas profundezas de sua ignorância que, no mundo, haverá uma fascinante criatura a menos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Crimes Delicados




Sadismo precedido pela violência

A perversidade ao extremo, por mero prazer, torna-se diferencial na prática de atos degenerados de um casal que acredita estar aderindo à ‘moda’ da infestação de psicopatia, que acomete a elite da qual faz parte.


Devidamente focado na compulsão pela tortura, pelo voyeurismo e na apática motivação para a prática de ambos, o texto de José Antônio de Souza assume o controle da subversão e diversifica os seus desvios morais, em conjunto com a direção sanguinária e violenta de Marcus Alvisi, que revela, com requintes de frieza, a alienação presente em cada espectador, que gargalha na maioria das cena do espetáculo teatral  “Crimes Delicados”.

O sadismo precedido pela violência, quase ritualística, curiosamente, poupa o espectador de ser impactado inesperadamente, graças à comunhão de desempenhos genuinamente hilários, por parte do elenco composto por André Junqueira, Daniel Dantas e Well Aguiar – uma trupe que, incansavelmente, busca parâmetros justificáveis para os atos de seus personagens, nocivamente tragicômicos. A tentativa de silenciar a palavra com a introdução de uma dose significativa de expressões faciais pantomímicas é impedida pela rigorosa preparação vocal de Rose Gonçalves que, como em um crime perfeito, atira o texto que propõe aterrorizar o espectador mas, somente, atravessa o umbral da inexistência do crime perfeito. Os atos extremos dos protagonistas são conduzidos pela direção de movimento de Luciana Bicalho, que desvenda, a cada passo, o ato de matar e a necessidade do casal ser considerado socialmente, através do atentado contra a vida de uma empregada. O ciclo intenso – ao mesmo tempo, fora de controle sob o aspecto da comicidade – pode ser diagnosticado pelo desenho de luz de Carlos Lafert, que atribui um mecanismo clássico de aproximação plateia-artista que interliga a estrutura límbica de todos os envolvidos. A precisa definição das classes sociais é imediatamente percebida pelo figurino desenhado por Carol Gama, contemplando patologia e humor simultaneamente. O medo e o combate textual se estendem ao som da trilha sonora de Alvisi e Tauã de Lorena, que antecede sustos e anunciam surpresas. O Transtorno da Personalidade Antissocial dos protagonistas assume seu contorno extremo com o visagismo caricata de Renata Imbriani, Lorena Rocha e Paula Sholl.

A linguagem utilizada no espetáculo “Crimes Delicados” tensiona a cumplicidade do espectador diante da violência e da perversão e, dessa maneira, estrutura, de forma deliciosamente absurda, um quadro assustador de uma sociedade elitizada anormal e sem qualquer respeito para com as minorias.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Aves de Rapina - Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa




Capacidade feminina de se emancipar de forma ‘foderosa’



O spin-off do ‘Esquadrão Suicida’ – o terceiro longa do Universo Estendido DC lançado em 2016, escrito e orquestrado pelo diretor, produtor e roteirista norte-americano, David Ayer – abre uma promissora janela para Margot Robbie incorporar a excêntrica Harley Quinn – na ocasião, entregue a um romance tóxico com o Coringa, debilmente interpretado por Jared Leto.

“Aves de Rapina - Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa” parte do término da relação entre Harley Quinn e o Sr.C (a maneira exótica da protagonista se referir ao seu desafeto amoroso), conduzido com extrema ira emocional potencializada pelos efeitos do álcool sobre Harley Quinn, que rouba um caminhão-tanque repleto de gasolina e o conduz diretamente ao local do seu primeiro encontro romântico com o Sr.C. – uma indústria de produtos químicos. Nesse momento, um show pirotécnico detonando uma explosão descomunal, ao mesmo tempo fake aos olhos do espectador mais atento, prologa a história do empoderamento de cinco mulheres de Gothan, visivelmente, distintas entre si – a policial Renee Montoya (Rosie Perez) é caracterizada com o visual de uma personagem de seriado televisivo dos anos 1980;  Helena Bertinelli (Mary Elizabeth Winstead) - a filha de um mafioso em busca de vingança pelo assassinato de sua família; a cantora de boate e exímia lutadora de artes marciais - Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell); e a batedora de carteira Cassandra Cain (Ella Jay Basco). A busca por um valioso diamante que anima a narrativa nervosa e fragmentada, cujos estilhaços são aspergidos ao longo de toda a história, também apresenta o detestável criminoso e dono de clube - o romano Roman Sionis (Ewan McGregor). A direção de Cathy Yan, capaz de falar com o público através de uma linguagem pra lá de contemporânea, convida a plateia a participar de lutas coreografadas, a visualizar explosões fantásticas e a testemunhar, com requintes de proximidade, atos de violência extremamente cruéis, praticadas pela anti-heroína e pelo criminoso Sionis.

A abundância de cenas brutais contidas em “Aves de Rapina - Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa”, muitas das vezes, beira ao mau gosto grosseiro. Mesmo assim, o espectador, estranhamente, consegue se divertir – a despeito do excessivo exibicionismo da capacidade feminina de se emancipar de forma “foderosa”, a partir do impacto de um taco de beisebol que, dependendo da cabeça lesionada, pode servir, até mesmo, de um grande alívio para o espectador.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Jojo Rabbit




Sob o signo do fanatismo

Na tela, Roman Griffin Davis se entrega ao papel do garoto de dez anos, Johannes Betzler - cujo apelido Jojo confere título ao filme – que tem a infância marcada pelas atrocidades praticadas pelo exército à serviço do governo alemão, controlado por Adolf Hitler e pelo Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores, no período correspondente ao Terceiro Reich.


Jojo é membro da Juventude Hitlerista e sonha em se tornar um herói de guerra ariano. Porém, enquanto sua aspiração é fadada à frustração – tendo em vista a delicadeza e sensibilidade ímpares que tomam conta da sua essência infantil - a concretização de seus planos é, literalmente, detonada por uma granada que explode em sua mão, tornando-o incapaz, fisicamente, de participar de futuros combates. Consequentemente, a instituição lhe atribui as tarefas mais servis, incluindo a distribuição de folhetos de recrutamento. Em meio a todas as subtrações que a vida lhe reserva, Jojo também é obrigado a rever os conceitos que fazem parte de sua compreensão sobre relações sociais, ao descobrir uma adolescente judia (Thomasin McKenzie) escondida, por sua mãe (Scarlett Johansson), no sótão de sua casa. Sua visível introspecção e isolamento ao qual se reserva lhes entregam à fantasia de ter, Adolf Hitler, como um confidente umbrático – caricatamente incorporado pelo neozelandês Taika Waititi, autor do texto e o intendente pela desafiadora e perturbadora direção do longa, baseado na obra literária ‘Caging Skies’, assinada por Christine Leunens.

Sob o signo do fanatismo, o longa “Jojo Rabbit” confere incertezas sobre a sua classificação como comédia, tendo em vista o confronto promovido entre horror e asco, e a demanda por reflexão sobre a visão do Füher do povo e do Reich alemão por parte do espectador, resultando numa sátira que assume o formato do humor mórbido e que atenua a carga dramática contida no universo da obra, metamorfoseado em um filme para adulto, protagonizado por uma criança.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Mariana Volker - Órbita


Transitando por entre paixão e seus percalços


Após o lançamento do álbum de estreia de sua carreira – ‘Palafita’ – em 2014, e da sua participação no The Voice Brasil 2015, a cantora  Mariana Volker apresenta o show do seu mais novo trabalho – “Órbita” – no Teatro PetroRio das Artes, no Shopping da Gávea – Rio de Janeiro, na sexta-feira – 31 de janeiro de 2020.

Transitando por entre paixão e seus percalços, Volker abre a noite com ‘Imensidão’, dando seguimento à sua apresentação com ‘Eu Sinto Muito’, ‘Labirinto’ (músicas de sua autoria, em parceria com Valentina Zaninie), dentre outras e, fecha a primeira parte do show, impulsionando com ‘Mais Feliz’ (de Bebel Gilberto, Cazuza e Dé).
Diante da vulnerabilidade voluntária da plateia ao desempenho de Volker, a artista contagia todos com uma nova roupagem do pagode do grupo Só Pra Contrariar - ‘Que Se Chama Amor’ (de José Fernando) e dá a deixa para o carro-chefe do seu mais novo álbum cujo nome intitula o show – ‘Órbita’.

Tomado por uma festa vibrante, o universo de Volker chega ao seu terceiro estágio, durante o qual, uma parceria formada por Mariana e o teclado preenche os corações dos mais românticos dentre seus fãs, com ‘Monte Carlos’ e a sensível versão de ‘Disk Me’ (Arthur Marques, Diego Timbó, Gorky, Maffalda, Pablo Bispo e Zeb) – um sucesso que se fez na voz da Pablo Vittar.

De volta ao palco, sua banda – composta por Pedro Sodré (guitarra); Thiago Vivas (baixo); João Carrera (bateria) e Rudah (teclados) – concede todo suporte instrumental a Volker para juntos, conduzirem a quarta parte do show, a partir de uma homenagem à cantora Joana que, presente na plateia, foi presenteada com a versão de um dos seus grandes sucessos – ´Tô Fazendo Falta’ (Alvaro Socci / Lucca Ferreira). 

Papo reto com a plateia, Volker declara o seu amor pela música e, de maneira festiva, concede o consagrado bis, com o sucesso ‘Love Is In The Air’ (Harry Vanda, George Young) – imortalizado pela voz de John Paul Young, acompanhado pelo clamor que alivia a plateia, ciente de que o fim da viagem estaria próximo – que ocorre ao som de ´Gigantesca’, deixando seu público como se, fora de órbita e sem saber, ao certo, metaforicamente, o caminho de volta para casa.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

O Diabo Em Mrs. Davis




‘Malvada’

“O Diabo Em Mrs. Davis” é um espetáculo monologado com base em uma série de palestras – também conhecidas como One Woman Shows – proferidas por uma das atrizes mais reverenciadas da história do cinema – Bette Davis – realizadas entre 1985 e 1986, quando já se encontrava afastada das telas.


Involuntária e despretensiosamente, a atriz Andrea Dantas se auto condecora a partir da frase de autoria da personagem a quem cedeu sua capacidade interpretativa – ‘Que culpa eu tenho de ser brilhante?’. O esplendor da intérprete toma conta da boca de cena quando da sua entrega ao texto de Jau Sant’Angelo, que acaba por se abstrair relativamente aos atributos físico-estéticos de Davis, abusa da sua capacidade de síntese e se empenha em explorar todo o universo dramático de Dantas no qual, sem qualquer esforço, encarna a ‘malvada’ cuja morte deixou um vazio nas telas do cinema há cerca de 30 anos. O conceito de ‘mulher independente’ idealizado pelo cinema americano é a principal engrenagem da direção de Aloisio de Abreu que, não somente expõe ao público, a essência do ícone do cinema reconhecida pela sua fama de má, sádica e autoritária, mas também revela a sua dedicação, generosidade e obstinação pelo perfeccionismo – tudo, admiravelmente, sem exagero artístico ou pirotecnia cênica. A imagem da sofisticação e da sensualidade da atriz ganha contorno impiedoso pelo figurino de  Marcelo Marques, que personifica a sua beleza nada convencional, dotada de muito charme,  em conjunto com o visagismo de Walter do Valle, que delineia seus olhos, com formatos refinadamente incomuns, salientando, notavelmente, sua expressão dramática. A magnitude do espetáculo conta com uma ambientação cênica que preserva a sua força, talento e suas explosões sentimentais, desenhadas por Dantas e Sant’Angelo, como se o espectador fosse parte integrante da plateia de One Woman Shows, hipnotizado pelo peculiar e enigmático olhar, digno da canção interpretada por Kim Carnes, em 1974.

Cinquenta e oito minutos com Andrea Dantas representam nada menos do que um intenso mergulho na essência de Mrs. Davis, revelando o diabo que deixa de habitar as profundezas do fogo do inferno e se muda para o céu, para junto de uma estrela de grande magnitude, cuja própria luz é capaz de ofuscar os holofotes de Hollywood.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Nefelibato



A desestabilização do estado passivo do espectador frente às agressões emocionais promovidas pela política


“Abater a inflação com um só tiro” – um dos compromissos assumidos por Fernando Collor de Mello durante a sua campanha eleitoral para o cargo do 32º Presidente do Brasil. Em 1990, o então mais jovem presidente a assumir o cargo, aos quarenta anos de idade, implementa o plano econômico mais polêmicos da História do Brasil – o “Plano Collor” – cuja plataforma assume, como base, o sistema neoliberal, definido por um ‘Estado Mínimo’, contemplando: a extinção de órgãos públicos, a demissão de funcionários públicos em massa, a deflagração do processo das privatizações e uma reforma econômica a partir do congelamento das contas bancárias de todos os brasileiros.

Chafurdado nesse fato histórico, o texto assinado pela atriz e escritora Regiana Antonini conduz o monólogo “Nefelibato”, onde o desalento e a insolvência social assumem ares de loucura que acomete o protagonista Anderson que, ao devanear perante o público, compartilha a sua total perda financeira, sentimental, agridocemente interpretado por Luiz Machado, como se estivesse carregando consigo toda a angústia e desespero de milhares de brasileiros afetados pelo trauma do confisco. Em compasso com o potencial de desempenho de Machado, a derrocada do governo, cuminada pelo impeachment, torna-se solo fértil para o deslanchar da direção de Fernando Philbert, ancorada nos impactos e traumas acumulados decorrentes da implantação de programas econômicos e pela gestão da política irresponsável no cotidiano dos brasileiros, até os dias de hoje. O entendimento de que os impactos dos planos econômicos não se distanciam da essência humana é retratado pelo projeto cenográfico e pelo figurino assinados por Teca Fichinski, que presenteia o espectador com uma instalação viva a amostra, em pleno palco descortinado, mimetizando o protagonista à obra de arte, como fruto de uma tradução juramentada da forma com que o povo brasileiro vem sendo tratado ao longo dos anos – verdadeiro lixo. A dramatização fomentada por violentos contrastes de luz e sombra definidos pelo desenho de luz cênica de Vilmar Olos preenche o olhar do espectador – em franca alusão à esperança e à morte de um povo sofrido de uma nação chamada Brasil – apurando o seu olhar para os momentos de desespero, para os sentimentos de angústia, para as dores da tristeza e para as decepções incalculáveis que afloram do peito do que hoje é apenas a sombra de um cidadão, outrora bem-sucedido e, atualmente, um homem em situação de rua. A banalização da miséria aos olhos dos políticos e dos transeuntes que lidam com essa realidade no dia a dia é chamada ao primeiro plano, graças à atenção, em preciosismo laboratorial, da expressão corporal conduzida, de forma avassaladora, pela direção corporal de Marina Salomon. A descrença do protagonista, relativamente aos seus governantes, é aprofundada pela trilha sonora de Maíra Freitas, como um catalisador ideológico de um povo privado de irem às urnas para eleger o presidente de seu país, além de ter seus direitos políticos suspensos, pela ditadura militar, por um período de trinta anos.

“Nefelibato” tem como meta a desestabilização do estado passivo do espectador frente às agressões emocionais promovidas pela política de interesses pessoais e pelo descaso dos governantes frente aos direitos básicos dos cidadãos – como uma seta no alvo, inacessível à maioria dos cidadãos comuns.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Um lindo dia na vizinhança



Um lindo conto para adultos tolinhos


A produção cinematográfica classificada como cinebiografia – "Um lindo dia na vizinhança" – aparenta não ter previsto, voluntariamente, espaço em seu roteiro, visando a uma cobertura mais ampla da vida do pedagogo Fred Rogers –  um artista norte-americano, ministro de uma Igreja Presbiteriana, que tornou-se o famoso apresentador do programa televisivo ‘Mister Rogers Neighborhood’, musicalizado por canções educativas infanto-juvenis, com letras de sua autoria.

Infância, juventude, maturidade, conquistas, a gênesis do programa –  nada disso é revelado ao longo do filme assinado pela escritora, diretora e atriz norte-americana Marielle Heller. Na prática, o espectador passa a conhecer a vida do jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys) e a sua conturbada relação com seu pai, que abandona a família em um momento crucial para a estabilidade daquele núcleo. Mas o acaso faz de Fred Rogers (Tom Hanks) o homem que muda a sua vida. Ao assumir um viés espiritualista, estruturado por autodescobertas, o roteiro passa a ser direcionado por um sentimentalismo que requalifica o papel de Rogers como um salvador da alma humana, capaz de curar os estados de tristeza e de raiva que cometem os homens – uma fórmula incapaz de fazer de “Um lindo dia na vizinhança” uma história biográfica de Fred Rogers mas, somente, um lindo conto para adultos tolinhos que procuram um antídoto para suas vidas amarguradas, onde o cinismo partidário celebra o retrocesso em nome da família e de Deus. E quem sabe, como isso, são promovidos a discentes de uma eficaz aula de autossugestão para pessoas influenciáveis, dominada por um discurso contaminado pela programação neurolinguística.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Os Miseráveis



Um coquetel molotov


A construção de um confronto define o viés dramático do novo longa de Ladj Ly – “Os Miseráveis”. O panorama do filme apresenta o distrito de Montfermeil, localizado a leste de Paris, conhecido por seu alto índice de violência e, também, como o cenário do romance homônimo de Victor Hugo.

O novato policial Stéphane (Damien Bonnard) ingressa na patrulha da unidade de crimes de rua, sob o comando de Gwada (Djibril Zonga) – notoriamente cínico e reacionário – e Chris (Alexis Manenti) – que inicia o treinamento de Stéphane. Durante a ronda pelas ruas de Montfermeil, as abordagens junto à comunidade local demonstra uma total falta de afinidade e empatia da polícia para com os cidadãos - todos tidos como suspeitos e, consequentemente, passíveis de assédio policial, sem qualquer justificativa plausível. 

Ao trazer à tona temas polêmicos como racismo e violência, Ladj Ly arremessa um coquetel molotov no espectador que, ao mesmo tempo, vitimado pelo impacto, aplaude o resultado de uma Copa do Mundo, fervorosamente, como se fosse o bastante para a conquista da alegria de viver. Esse mesmo espectador também se demonstra abalado pela opressão profundamente enraizada nos atuais governos de quase todo o mundo – só restando o pensamento de Victor Hugo como consolo – “Meus amigos, lembrai-vos sempre de que não há ervas daninhas nem homens maus: - Há, sim, maus cultivadores”.