quinta-feira, 12 de março de 2020

Terremoto



Um espetáculo inegavelmente aflitivo


A sequência do filme “A Onda” de 2015 – cujo roteiro contempla um colossal desmoronamento de uma montanha, provocando um enorme tsunami que consome a pequena e pitoresca cidade de Geiranger, na Noruega – consagra o geólogo Kristian Eikjord (Kristoffer Joner) como herói nacional, por ter orientado uma parcela da população para que buscassem locais elevados junto às montanhas para salvarem suas vidas. A despeito de seu sucesso, o compromisso obsessivo de Kristian para com a sua função junto ao posto de sismologia de Geiranger – do qual já havia se desligado antes mesmo do abalo sísmico causador da catástrofe – a partir do evento do tsunami, se transforma em trauma patológico, por todas as demais vidas que não lhe foi possível salvar.

Em “Terremoto”, Kristian é um homem separado de sua esposa, que passa a viver com seu casal de filhos em Oslo. Sua nova obsessão por uma nova e iminente catástrofe é deflagrada ao tomar conhecimento da morte de um colega de profissão, durante a investigação de um misterioso incidente em um túnel rodoviário, nos arredores de Oslo.

A excepcionalidade do design do som que, em conjunto com os efeitos visuais, impressionam ao transmitir a sensação de colapso geral provocado por um terremoto, confere à direção de John Andreas um status de excelência, tendo em vista o potencial de compreensão promovido pela narrativa visual e sonora, nos momentos ápices da catástrofe – uma perfeita extensão de “A Onda” que antecede “Terremoto”, lastreado por núcleos de personagens genéricos e ignorando as leis da probabilidade em prol de um final ‘feliz’.

O longa é um espetáculo inegavelmente aflitivo, desde os momentos que registram os abalos sísmicos, até os instantes em que os personagens são vitimizados, de forma recorrente, pelos escombros daquilo que fora uma cidade, a despeito da superficialidade na abordagem do tema, baseado em fatos fictícios, num cenário real de uma possível catástrofe ainda não anunciada.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Liberté



Em meio ao absoluto nada


Definindo como cenário temporal, uma floresta entre a França e a Alemanha, alguns anos que antecedem a Revolução Francesa, o diretor catalão Albert Serra faz da tela do cinema uma janela através da qual espectadores são induzidos à prática do voyeurismo involuntário.

Quando deflagrado o movimento de expurgo da devassidão da corte de gala, um grupo de duques e aristocratas se reúne em tributo a uma espécie de último jantar carnal – um momento dedicado à promíscua liberdade sexual.

Nesse contexto, o longa “Liberté” aposta, sem vestígios de reserva, na equalização entre corpos, no status social, nos atributos sexuais e nos desejos carnais, no contexto de uma orgia que emerge na escuridão da noite, a despeito da forte possibilidade de que, o estímulo sensual direcionado aos espectadores não seja correspondido à altura das intenções da direção do longa – contemplando cenas escatológicas, de submissão e de sadomasoquismo crescente durante intermináveis minutos que descrevem horas estagnadas e desperdiçadas em meio ao absoluto nada. Serra descarrega um filme de alta complexidade moral e totalmente inadequado aos espectadores mais sensíveis e avessos a desafios que possam penetrar as entranhas de seus instintos selvagens, possivelmente, adormecidos.

Portanto, a reverberação de passos de espectadores deixando a sala de projeção pode ser inevitável, enquanto, na tela, são projetadas todo um leque de comportamentos e de formas de excitação sexuais, transmitindo, a desconfortável sensação de que o início da trama está longe de acontecer, sob o manto da noite de uma floresta sombria.

Serra não restringe a banalidade de “Liberté” ao argumento e ao roteiro, mas divide a precariedade com os demais recursos cênicos, de forma ampla, restando-lhe a lamentável meta de chocar ao derramar “o leite mau na cara dos caretas”.

segunda-feira, 9 de março de 2020

O Meu Sangue Ferve Por Você



Adoravelmente desengajado da alienação do universo erudito


A herança cultural elitista classifica as músicas consumidas pelos brasileiros de classe social menos favorecida como brega – uma palavra que, segundo o dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, significa: deselegante, cafona e lugar de prostituição. Tal definição, de cunho pejorativo, depõe contra as qualidade contidas nas letras e na música de canções como ‘Garçom’ – famosa na voz de Reginaldo Rossi ou ‘É o Amor’ – sucesso de Zezé di Camargo & Luciano. Tomando para si a expressão que carrega uma forte carga de preconceito – porém,  designado a fazer com que o brega, jamais seja esquecido – o espetáculo “O Meu Sangue Ferve Por Você” comemora os seus dez anos desde sua primeira apresentação, contando a peculiar história do quadrilátero amoroso entre Creuza Paula, Elivandro, Fernando Sidnelson e Sandra Rosa Madalena, através de canções que foram imortalizadas por Sidney Magal, Jane & Herondy, Agepê, Tetê Espíndola, Wando, Gretchen, José Augusto, Luiz Caldas, Leandro & Leonardo, Fagner, Simony, Roberto Carlos, Xuxa, Elymar Santos, Emílio Santiago, Fafá de Belém, Fábio Jr, Sandy & Junior, dentre outros.

A fórmula de um espetáculo que completa uma década de sucesso tem como principal ingrediente o texto concebido por Pedro Henrique Lopes, adoravelmente desengajado da alienação do universo erudito. O traço que une o brega à dramatização, tecida por melodias e palavras que registram o reconhecimento artístico do estilo, se deve à direção de Diego Morais, que estabelece o romantismo cotidiano, povoado por amor, dor e afeto,  regado com saudável dose de bom humor. A valorização do sofrimento, da tristeza e do choro, por entre gemidos e risos, correspondem à abordagem universal de Tony Lucchesi, contemplada pela sua direção musical, que torna o espetáculo dinâmico,  entusiástico e atual. As nuances que enfatizam a riqueza musical são inesgotáveis, diante do elenco composto por Ana Baird (Sandra Rosa Madalena), Cristiana Pompeo (Creuza Paula), Pedro Henrique Lopes (Elivandro) e Victor Maia (Fernando Sidnelson) que traduzem as tramas amorosas entrelaçadas pelas canções que jamais serão esquecidas, sequer preteridas, após o testemunho do resgate visceral de um comportamento que influenciou um estilo musical por parte do quarteto de atores.

A conotação mundana que visa ao atendimento das especificidades do brega é fomentada pelo desenho de luz de Pedro Henrique Lopes e Lúcio Bragança Junior que, em comum união com o cenário de Clivia Cohen, transforma cada um dos espectadores em observadores de um reality show. Diretamente dos bastidores, ambientado de forma duvidosa – tal e qual as dramáticas e preconceituadas, como de baixa qualidade – as músicas que fazem parte da trilha sonora do dramalhão que se desenrola em cena, têm suas mensagens imediatamente assimiladas e merecedoras da total aceitação por parte da plateia, como se fossem legendas de uma história que a todos interessa, subtituladas pelo equilibrado desenho de som de Leonardo Carneiro e Bernardo Nadal. Os termos bocomoco e kitsch qualificam o código de vestimenta, aparentemente, pretendido por Clivia Cohen, Ana Baird e Cristiana Pompeo que assinam o figurino de “mau gosto” porém, rico em criatividade.

“O Meu Sangue Ferve Por Você” é um espetáculo que nasceu com trajetória fadada ao sucesso de público, muito em função da ingenuidade com que Lopes trata o tema amor e suas aflições sentimentais, com muito bom humor e, porque não dizer, repleto de genialidade

quarta-feira, 4 de março de 2020

Blitz, O Filme


A banda que agitou o país nos anos 1980


Com formação original contemplada por Evandro Mesquita (voz e guitarra), Ricardo Barreto (guitarra), Antônio Pedro Fortuna (baixo), William “Billy” Forghieri (teclados), as backing vocals Fernanda Abreu e Márcia Bulcão, e Lobão (bateria) surge a banda de rock brasileira “Blitz”, uma das precursoras do rock brasileiro dos anos 1980 – o "BRock", marcando uma geração que inova, ao misturar rock, história em quadrinhos e teatro. Ainda sobre a formação da banda, quando do lançamento do seu primeiro álbum de estúdio – “As Aventuras da Blitz 1” – em 1982, Lobão é substituído por Roberto Gurgel, conhecido pelo apelido Juba. Somam-se a essas informações fatos curiosos sobre a origem do nome da banda e as particularidades, sob a forma de depoimento, por parte de cada um dos componentes e respectivos amigos, assumindo um formato de cinema documental em “Blitz, O Filme”. Paulo Fontenelle não se intimida ao dirigir o longa a partir de um patchwork de imagens para contar histórias de bastidores, revelar cenas de ciúmes, desconstruir fatos surpreendentes e colorir a realidade com curiosidades sobre a banda que agitou o país. Seu documentário aborda a febre que acometeu o Brasil com o advento da “Blitzmania”, a participação da banda no primeiro Rock In Rio, as trocas dos integrantes, a bem sucedida investida de Fernanda Abreu em carreira independente, e a tentativa de Evandro Mesquita de emplacar o sucesso em seu primeiro disco solo, sem a banda Blitz. Com sua obra, Fontenelle presta um singelo tributo aos anos 1980 que agradará, com toda certeza, os aficionados pelo rock Brasil – estilo que abriu as portas para bandas como Barão Vermelho, Legião Urbana, Os Paralamas do Sucesso e Titãs.

Dois irmãos uma jornada fantástica



Uma fantasia reflexiva e notoriamente inteligente

Ao retratar uma história que flutua entre a obviedade da visão básica infantil, inspirada na estranha complexidade adulta, a animação “Dois irmãos uma jornada fantástica” constrói um mundo da fantasia alheio às suas origens e esquecido dentro de si mesmo, na medida em que seus personagens tornam-se dependentes da tecnologia, desde a invenção da lâmpada até o advento dos smartphones. A direção de Dan Scanlon se esmera na demonstração de quanto pode ser mágica, a faísca de criatividade humana, quando não se é escravo das rotinas pragmáticas e mundanas da vida, viabilizadas pela modernidade. A narrativa gira em torno de dois irmãos elfos – Barley e Ian – cujo pai falece, deixando o primeiro, ainda criança, e o segundo, ainda bebê. Quando do aniversário de dezesseis anos de Ian, sua mãe lhe revela um presente que lhe fora deixado por seu falecido esposo para que fosse entregue ao caçula, naquela data. A partir de então, dá-se início a uma verdadeira corrida contra o tempo, para que os irmãos possam ter seu pai de volta ao mundo dos vivos, mesmo que, por um breve instante. Ao se aprofundar na ideia de como a identidade de cada um é construída pelas pessoas quem se ama ou, apenas supõe conhecer, o longa não poupa o mais alheio à história de uma cutucada, pois investe no psique de cada espectador – seja ele criança, adolescente ou adulto. As notas emocionais, que não se rendem à comédia para fazer criança rir, transportam para a tela uma fantasia reflexiva e notoriamente inteligente, em função da qual, muitos adultos encontrarão o sorriso perdido em sua trajetória de vida e, seus mini acompanhantes terão muito o que perguntar.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Em Busca do Par Perfeito - A Comédia Musical



O espetáculo detém um evidente potencial para formar plateias dispostas a conhecer o diferente

A sociedade nazifacista e os religiosos retrógrados se recusam a compreender e têm muita dificuldade em aceitar a diversidade. De fato, acreditam que meninos vestem azul e meninas vestem rosa e, com isso, tentam programar os menos esclarecidos sobre sexualidade. De um modo geral, indivíduos com padrões comportamentais sexuais diferentes dos arautos da ‘famíglia’ de bem e adeptas aos bons costumes, não conseguem se firmar com facilidade, muitas vezes, nem mesmo, dentro do seu contexto familiar. 

Na esfera sócio comportamental, o espetáculo “Em Busca do Par Perfeito - A Comédia Musical” conta a história de um rapaz que luta contra o preconceito de uma sociedade intolerante, para assumir sua vocação artística e a sua sexualidade.

Percebe-se que, pelo potencial do desempenho da trupe composta por Alexandre Oliveira, Driko Lima, Gabi Freitas, Letycia Carvalho, Luciana Laura e Sidney Ortega, o somatório de excessiva alegria e de rasa análise funcional sobre um assunto tão delicado e necessário, poderia evoluir com uma pegada diferenciada e mais contemporânea. Lançando mão do humor de caráter popular, Brunno Rodrigues, além compor o elenco do espetáculo, também assina a direção que se mostra meio que simplória, ao lançar mão de recursos que fazem parte de um passado, como jargões e falas malandras que não têm encontrado eco na construção do humor consumido atualmente. A inexplicável falta de ousadia da coreografia de Amanda Paes também desliga o espectador do comportamental dos personagens, limitando o seu potencial e organicidade – apesar da evidente capacidade de desempenho do elenco. O desenho de luz de Brunno apresenta características atrativas para a impressão da perspectiva dos personagens, configurando elementos cenográficos imaginários. Porém, o zelo para com bambolinas e coxias deve ser preservado como parte integrante do cenário, para que não sejam confundidos com elementos passíveis de descaso por parte da direção.


Apesar de todas as dificuldades encontradas para atingir a meta dos espetáculos teatrais, em especial, manter a resistência in natura contida na proposta de “Em Busca do Par Perfeito - A Comédia Musical”, o espetáculo detém um evidente potencial para formar plateias dispostas a conhecer o diferente, de forma didática e enquadrada no modelo comportamental dos grupos sociais dominantes. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Uma Vida Oculta



Cabe ao espectador estabelecer seus critérios para compreender, julgar e questionar, a essência da fé apresentada pelo longa


Antes mesmo de entrar no mérito do argumento e do roteiro de “Uma Vida Oculta”, vale a pena chamar atenção para a qualidade do longa escrito e dirigido por Terrence Malick, no que se refere à fotografia e à trilha sonora musical, que ocorre em raríssimos momentos, quando lhe é permitida sobrepujar toda uma preciosa sorte de ruídos de fundo, responsáveis por complementar a leitura visual de quase cem por cento das cenas. A narrativa é cicia e com potencial de embalar o espectador em profundo estado de reflexão e de relaxamento – não fosse a intensidade do drama que faz a metafísica história, baseada em fatos, acontecer durante quase cento e oitenta minutos de projeção.

A paleta de cores do drama linear vivido pelo camponês Franz Jagerstatter (August Diehl), em uma pequena idílica vila alpina na Áustria, no início dos anos 1940, reflete a sua obsessiva postura ideológica ao se recusar a se deixar alistar como combatente junto ao exército nazista alemão, durante a Segunda Guerra Mundial – uma fé ilibada e inabalável que lhe confere forças para rebelar-se contra algo que acredita não ser o correto. Cabe ao espectador estabelecer seus critérios para compreender, julgar e questionar, a essência da fé apresentada pelo longa.

A figura de Adolph Hitler é introduzida em breve cenas em preto e branco, sem maiores esclarecimentos sobre o seu real significado na conjuntura mundial, a sua intenção enquanto exterminador do povo judeu, e o que representa aos olhos dos moradores da bucólica vila onde vivem Franz e sua família.

O cunho religioso, incrustado na fé divina, embutido no filme de Malick, soa destrutivo e ilusório enquanto, diante da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, a existência de Deus não é questionada por Franz, que se mantém disposto a abrir mão de sua vida e deixar sua esposa sem marido, e seus filhos sem pai – a despeito da falta de definição realista quando da abordagem dos assuntos alusivos ao Senhor Todo Poderoso, mas de forma onírica, beirando ao pesadelo angustiante.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Festa, A Comédia



A mobilização de muita gente boa para contar a história de um menino chamado Miguel


Sob o bisturi de uma avaliação crítica preliminar de um espetáculo com processo criativo flexionado em quadros linkados entre si, “Festa - A Comédia” aposta todas as suas cartas ao convocar os seguintes nomes consagrados pelo seu desempenho junto ao teatro e à televisão para desenvolverem cinco esquetes: Alessandro Marson, Daniele Valente, Heloísa Périssé, Sill Esteves, Vincent Villari e Walcyr Carrasco. Fruto de um projeto cuja gênesis parte do encontro do diretor teatral Eduardo Figueiredo com o ator Mauricio Machado, o texto do espetáculo conta com um time de autores – amigos com quem já havia trabalhado. O resultado de tudo isso é a mobilização de muita gente boa para contar a história de um menino chamado Miguel, que detesta comemorar o seu aniversário. No caso específico da apresentação solo de Maurício Machado, a comemoração dos onze anos de idade de Miguelzinho.

Segue-se a ordem de apresentação dos monólogos e respectivos personagens, começando por “A mãe”, assinado por Daniela Valente responsável pelo discurso da ex-faxineira de um clube de funk de pilares, que enriquece, da noite para o dia, após ganhar na mega sena. Dona Irene, adepta às intervenções cirúrgico plásticas, é uma mulher bipolar, viciada em remédios tarja preta, sofre do impulso pela ostentação junto a seus amigos e familiares, e tenta satisfazê-lo sob o pretexto de comemorar o aniversário de seu filho – como uma supermãe, de acordo com seu próprio julgamento – contratando “ O Animador” – esquete de autoria de Alessandro Marson, que desenvolve o personagem com vocação para artista, porém, destrambelhado, sem talento e sem a menor vocação para lidar com crianças, para trabalhar como palhaço na festa de Miguel. “A Tia“, cuja ranhetice é exposta por Vincent Villari, apresentando, ao público, a insuportável mulher responsável pela indicação do animador que conheceu em um velório. Apesar de sua morbidez, a tia de Miguel ainda se dá ao luxo de dar em cima de uma mulher contratada para trabalhar na festa do sobrinho – “A Moça da carrocinha de cachorro quente”, cuja vulgaridade tomou todas as formas concebíveis por Heloísa Périssé e Sill Esteves. Coincidentemente, a profissional é amante do pai do aniversariante, e não poderia ser chamada por um nome menos sugestivo – Suellen Shellen. Dessa forma, acontece a festa de “Miguel, o aniversariante”, cujo esquete é de autoria de Walcyr Carrasco, encerrando o espetáculo com uma bela surpresa para os pais e os convidados, ao fim da festa.

O distanciamento contido na abstrata direção de Eduardo Figueiredo não subverte o gênero comédia, tampouco, o reinventa, ao invocar facticidade e vaidade artística. O processo de aclaramento dos personagens parece ter critérios conturbados em sua transformação e construção, considerando figurino e cenário, com ímpeto vanguardista assinados por Márcio Vinicius. Cumprindo com o objetivo de fazer o espectador relaxar, o visagismo de Anderson Bueno dilata a compreensão dos textos e contribui para com o direcionamento do gênero anunciado como comédia. A feição da direção musical de Guga Stroeter e Matias Capovilla, por alguns momentos, provoca estagnação e enclausuramento intersubjetivos, que potencializa a experiência e dá sentido às transformações realizadas pelo ator Maurício Machado que, pelo seu processo criativo, tende à interpretação com resistência racional à aceitação de dados perturbadores contidos em cada cena do espetáculo. O esforço incisivo de Paulo Denizot, a partir de seu desenho de luz, não permite que o espectador abdique da realidade delineada pelos personagens. A afirmação pontuada pelo caminho opressor, na falta de rumo e nas distorções sociais dos participantes do aniversário, é legitimada pela direção de movimentos de Janaína Marlene.

A emancipação teórica enquadrada nas ações das histórias apresentadas em “Festa - A Comédia” ganha especial atenção ao invocar questões éticas avassaladoras, capazes de desestruturar o convívio familiar, quando imersas em vozes conservadoras, avessas a debate sobre a dignidade humana.

O Chamado da Floresta



Bela e lendária aventura


Califórnia, 1890, em plena corrida do ouro – Buck, um cão de estimação é subtraído de seu dono e de seu lar na Califórnia, e é levado para uma localidade desértica gelada, junto ao exótico e selvagem rio Yukon, no Alasca, para ser vendido como cão de trenó. Durante a sua jornada, longe de seu lar, Buck passa de dono para dono, até descobrir, por si só, que seu destino final não é junto aos humanos, mas com os animais de sua espécie e de outras que habitam as florestas de coníferas daquela região.

A bela e lendária aventura, que discorre sobre a ganância humana e a avassaladora força do instinto animal, é mais uma adaptação cinematográfica do clássico romance, do início do século XX, intitulada “O Chamado da Floresta” assinado pelo autor, jornalista e ativista social norte-americano, Jack London. O longa é direcionado ao público de todas as idades, a despeito de que os carismáticos e convincentes animais elencados sejam frutos da avançada tecnologia da computação gráfica.

A direção de Chris Sanders oferece pura emoção, garantindo ao espectador, apaixonar-se, instantaneamente, pela amizade entre o cão e seus companheiros humanos – interpretados por Omar Sy e Harrison Ford – em meio a uma paisagem capaz de provocar, no espectador adulto, um sentimento nostálgico de uma infância que ainda pulsa no coração.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O Marido do Daniel




Uma literatura ‘Queer’

Sem entrar no mérito, muito menos discorrer sobre as semelhanças e diferenças na dramaturgia e encenação daquilo que se entende por comédia de costumes – cuja leitura da análise tomaria demasiado tempo do espectador comum, pressionado entre informar-se sobre a arte de fazer rir e a de fazer chorar, e a escolha de um espetáculo para preencher seu tempo dedicado ao lazer sob a forma de cultura – percebem-se, no texto do dramaturgo norte americano Michael McKeever - “Daniel’s Husband”, breve momento inicial que o classifica como uma comédia doméstica, flexionada em uma literatura ‘Queer’ – justificando uma definição de gênero teatral mais adequada. Contudo, os alvos para os quais o leitor ou espectador da obra é direcionado – como questões passíveis de reflexão individual ou coletiva, e de confronto com experiências próprias ou de terceiros – ficam a cargo da legitimidade, da aceitação e da credibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo e de assuntos que envolvem direito de família. Ou seja, um drama cujo debate ainda é um tabu e que contempla conflitos, cujas estatísticas ainda apresentam índices muito aquém das ocorrências de fato.


Ao traduzir a dramaturgia de McKeever, José Pedro Peter promove o lançamento de “O Marido do Daniel”, iniciando o autor do texto original no palcos brasileiros, sob a direção de Gilberto Gawronski, que confere, ao núcleo dos personagens, uma roupagem cênica com peso menos cômico e mais dramático, diante da relevância dos temas abordados – a despeito de qualquer nuance de humor sugerida pelos personagens, definida pelo texto ou pela direção do espetáculo, que parece apostar na melancolia de uma situação familiar sem floreios idiossincráticos.

Murilo (Bruno Cabrerizo) é um romancista conceituado no universo gay, que não acredita nem no casamento como instituição civil, nem no matrimônio como sacramento religioso, e que mantém, há sete anos, um relacionamento estável com Daniel (Ciro Sales) que, por sua vez, reflete a sua vocação como arquiteto na casa projetada por ele mesmo, onde mora com Murilo, com quem pretende, um dia, se casar. Lydia (Dedina Bernardelli) é a mãe de Daniel – uma mulher que age como uma força da natureza, capaz de destruir tudo que estiver à sua frente, alimentada por seu egoísmo limitador, mas nunca incompreensível ao olhar de quem deseja sempre o melhor para sua prole. Não obstante, Daniel guarda sérias restrições ao comportamento da mãe, em especial, os sentimentos da progenitora com relação ao seu falecido pai – um promissor artista plástico, cuja uma de suas obras, o arquiteto expõe em sua sala.

A história tem início numa reunião intimista na sala de estar da casa de Daniel, para qual o amigo de meia idade do casal – também agente literário de Murilo – Bartô (Alexandre Lino) – comparece acompanhado por Fred (José Pedro Peter) – um jovem de seus vinte e poucos anos de idade que trabalha na área da saúde – com quem aparenta dividir uma relação recente e sem maiores compromissos. Sem saber das pretensões de Daniel sobre um futuro casamento com Murilo e da aversão deste ao casamento, Fred deflagra uma discussão sobre o assunto, ainda muito mal resolvido pelo casal anfitrião.

O desempenho dos personagens Daniel, Murilo e Lydia são alimentados pela força atuante e pela convicção dos seus intérpretes, que se aprofundam no enredo crucial, com amigável realismo e algumas falas divertidas. Não obstante, Peter conduz com serenidade a dosada relevância de seu personagem, como o estopim que reacende o conflituoso assunto que divide a condição de expectativa por parte de Daniel e o sentimento de aversão por parte de Murilo. O tom definido pela comédia de costumes – visivelmente inflexionado por uma reviravolta na história, conforme divulgação oficial do espetáculo – se deve à habilidade artística de Alexandre Lino, ao incorporar, com especial fidedignidade, o personagem Bartô – o hedonista de meia idade, repleto de trejeitos, caras e bocas, que não esconde a sua preferência por homens cerca de duas décadas mais jovem.

A sala da casa de Daniel é concebida, pela cenógrafa Clívia Cohen, a partir de um leiaute condensado, apesar de, pretensiosamente minimalista – “representando a casa de um arquiteto”, conforme sugerido pela produção do espetáculo, contemplando uma mesa de apoio lateral de tímidas proporções – sobre a qual repousa um toca discos portátil para vinil e uma luminária – uma mesa de centro e um sofá – que se fragmenta quando se instaura a adversidade em meio ao trio familiar. Na quarta parede, uma moldura vazada que representa uma obra de arte de autoria do falecido pai de Daniel – admirador do pintor Iberê Camargo – através da qual, por muitas vezes, os personagens se mostram permeáveis às leituras de suas personalidades por parte dos espectadores. Último plano à frente do fundo infinito negro, uma outra moldura vazada, de proporções bem menores que as da obra de arte do pai de Daniel, se comporta, em alguns momentos, como um retrato de parede de um feliz casal formado por um arquiteto e um escritor e, noutros, um retrato de parede de um arquiteto que se sente ameaçado pela falta de um marido que também o deseje como tal. Apesar dos incômodos que a instalação possa causar ao público mais exigente quanto à estética exigida pelo texto, justifica-se a composição visando à criação de um “ambiente para que o texto flua da maneira mais simples possível”.

As circunstâncias extremas opostas, que se apresentam em diferentes estágios da história, conta com o desenho de luz de Felício Mafra, que oscila entre a incidência de focos dramáticos pontuais, contornados pela penumbra e pela ausência total de luz, e as superexposição das superfícies brancas dos elementos cenográficos de Cohen, pela incidência da luz frontal – um possível recurso intencional do luminotécnico visando à intensificação de determinadas cenas. Humberto Correia é preciso na concepção do figurino para todos os personagens, com destaque para o detalhe do casaco lançado nas costas, com mangas em nó na altura do pescoço, segundo estilo bem típico dos anos 1980, perfeito para o papel desempenhado por Lino.

“O Marido de Daniel”, num primeiro momento, pode induzir o espectador ao erro de escolha de uma peça a partir de seu enunciado, tendo em vista a superficialidade da informação transmitida pelo título, sugerindo, simplesmente, uma relação entre dois homens em um contexto cômico, longe da abordagem sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo – apesar de Daniel e Murilo não serem casados de fato. Quanto à ‘reviravolta’ anunciada, traduzida do inglês ’turn of events’ e ‘unexpected turn’ presentes nas divulgações dos espetáculos off-Broadway, funciona como divisor de águas para justificar o segmento da história que, de fato, classifica o espetáculo como um drama, agravado pelos momentos de conflito presentes nos minutos que prologam a anunciada comédia de costumes. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O Preço da Verdade



Uma assustadora realidade


Uma história de horror, perturbadora e pertinente, sobre a má conduta corporativa da segunda maior empresa química do mundo – a norte-americana DuPont – que envenenou a cidade de Parkersburg, localizada no estado norte-americano da Virgínia Ocidental por décadas, é o fio condutor do longa “O Preço da Verdade”.  Conta a história da batalha de quinze anos de um advogado de Cincinnati – Robert Bilott (Mark Ruffalo) para fazer valer a justiça e obrigar a ré ressarcir todas as vítimas de sua conduta genocida. Conforme artigo da New York Times Magazine, publicado em 2016, o advogado Robert Bilott se tornou o pior pesadelo da Du Pont.

Todd Haynes – o diretor independente, roteirista e produtor cinematográfico americano – ousa em sua direção, ao fazer de sua obra uma denúncia contra as agressões das grandes empresas contra o meio ambiente, detalhando o terror pelo qual passa um fazendeiro, cujas terras se transformam em um cemitério de gado, anos após anos. Na vizinhança, pessoas adoecem por longos anos, durante os quais, a justiça se mantém inerte diante do lançamento de rejeitos químicos no solo e, consequentemente, nos recursos hídricos da Virgínia Ocidental. No caso em questão, o produto químico tóxico usado na fabricação do Teflon – o  fluorocarbono PFOA,  cuja exposição aos seres humanos é provavelmente associada a ocorrência de câncer renal, câncer testicular, doenças da tireoide, altas taxas de colesterol e pré-eclâmpsia. 

Longe de ser um filme com final feliz, o longa sentencia o crime contra o planeta de maneira insolúvel, já que, em escala mundial, 99% de todos os seres vivos já tenham a sua cota de contaminação confirmada por estudiosos, através de atos como tomar banho, cozinhar e beber água, que servem como portas de entradas invisíveis.

“O Preço da Verdade” aponta o dedo para as empresas que funcionam de maneira criminosa e consciente de tais atos, e permitem que pessoas e animais sofram com a água que bebem e o ar que respiram. Esse quadro, cada vez mais atual, é que faz o filme uma assustadora realidade que, pelo que tudo indica, encontra-se longe de ser revertida.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Víspora



Conteúdo para reflexão, em momento muito oportuno, no qual o destino da cultura no país é embarreirado por incertezas, de forma retrógrada e irreparável


Como se em meio a um ato cirúrgico, um confronto de pontos de vista disseca a essência daquilo que se entende por teatro e as perspectivas reservadas, num futuro próximo, para a produção artístico-cultural.

Tudo acontece em um grande recinto onde outrora fora uma sala de espetáculos teatrais, transformada em um grande salão de bingo – onde cantador, partner e apostadores se confundem com elenco e público e lotam a casa de apostas, que se torna palco único do espetáculo “Víspora”.

A dinâmica de palco, se não cem por cento inusitada, é consagrada pelo ineditismo da participação da plateia, enquanto figuração ativa, pelo frenético empenho da direção de Paula Vilela que, num primeiro momento - quando pode transparecer insuflar uma carga de agressividade e de intransigência -  se mostra, ao mesmo tempo, apaziguadora, ao assumir o humor como ponto nevrálgico do drama contido no texto de Vilela e Juuar, de maneira lírica, simbólica e pretensiosamente rebelde.

A acidez presente no discurso dos personagens vividos por Cláudia Barbot, Luiz Furlanetto, Rose Abdallah, Philipp Lavra, durante as partidas de víspora, injeta certa dose de descontrole no espetáculo, fazendo com que o espectador se perca entre atentar para o discurso de cada um dos personagens e seguir o cantador do Bingo – preenchendo as suas cartelas a cada sorteio de um número da sorte, cantado pelo personagem interpretado por Samuel Toledo –  e a cada prêmio entregue aos jogadores sortudos, pela partner incorporada por Paula Vilela.

A ausência da contemporaneidade de um futuro não tão distante mas, precisamente, pré-datado em 2022, é retratado pelo projeto cenográfico assinado por Julia Deccache que, de tão voluntariamente óbvio, discursa sobre o deserto cultural de um país onde ninguém escuta um ao outro – portanto, sem estruturar opiniões próprias. Ao priorizar a banalização comportamental dos personagens,  Ticiana Passos concebe um figurino que retrata a real dimensão da mediocridade que coloca em xeque a indignação, a idealização de sonhos e o desinteresse pelos discursos prontos. A ciranda formada pelo amor e pelo egoísmo é envolvida pela trilha sonora de Gu Siqueira, em conjunto com o desenho de luz de João Gioia, que transita entre a superexposição e a subexposição dos personagens e dos elementos cenográficos à luz, em franca cadência com os momentos que vão da intensa introspecção e alusões às trevas, aos rompantes de exacerbada ganância e de manifestação de prazer diante de conquistas.

A essência da obra do médico, dramaturgo e escritor russo, Tchekhov – ‘A Gaivota’ – insemina  o espetáculo “Víspora”, oferecendo, ao público teatral, conteúdo para reflexão, em momento muito oportuno, no qual o destino da cultura no país é embarreirado por incertezas, de forma retrógrada e irreparável. “Víspora” revela o esforço dos personagens de viverem suas vidas sem qualquer esperança de conseguirem mudá-las e, muito menos, aceitá-las como se vivessem uma comédia, mas constatando sua existência como algo inexoravelmente frustrante – uma versão na qual induz entender o espectador como o responsável pela morte da ave, sem atentar, nas profundezas de sua ignorância que, no mundo, haverá uma fascinante criatura a menos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Crimes Delicados




Sadismo precedido pela violência

A perversidade ao extremo, por mero prazer, torna-se diferencial na prática de atos degenerados de um casal que acredita estar aderindo à ‘moda’ da infestação de psicopatia, que acomete a elite da qual faz parte.


Devidamente focado na compulsão pela tortura, pelo voyeurismo e na apática motivação para a prática de ambos, o texto de José Antônio de Souza assume o controle da subversão e diversifica os seus desvios morais, em conjunto com a direção sanguinária e violenta de Marcus Alvisi, que revela, com requintes de frieza, a alienação presente em cada espectador, que gargalha na maioria das cena do espetáculo teatral  “Crimes Delicados”.

O sadismo precedido pela violência, quase ritualística, curiosamente, poupa o espectador de ser impactado inesperadamente, graças à comunhão de desempenhos genuinamente hilários, por parte do elenco composto por André Junqueira, Daniel Dantas e Well Aguiar – uma trupe que, incansavelmente, busca parâmetros justificáveis para os atos de seus personagens, nocivamente tragicômicos. A tentativa de silenciar a palavra com a introdução de uma dose significativa de expressões faciais pantomímicas é impedida pela rigorosa preparação vocal de Rose Gonçalves que, como em um crime perfeito, atira o texto que propõe aterrorizar o espectador mas, somente, atravessa o umbral da inexistência do crime perfeito. Os atos extremos dos protagonistas são conduzidos pela direção de movimento de Luciana Bicalho, que desvenda, a cada passo, o ato de matar e a necessidade do casal ser considerado socialmente, através do atentado contra a vida de uma empregada. O ciclo intenso – ao mesmo tempo, fora de controle sob o aspecto da comicidade – pode ser diagnosticado pelo desenho de luz de Carlos Lafert, que atribui um mecanismo clássico de aproximação plateia-artista que interliga a estrutura límbica de todos os envolvidos. A precisa definição das classes sociais é imediatamente percebida pelo figurino desenhado por Carol Gama, contemplando patologia e humor simultaneamente. O medo e o combate textual se estendem ao som da trilha sonora de Alvisi e Tauã de Lorena, que antecede sustos e anunciam surpresas. O Transtorno da Personalidade Antissocial dos protagonistas assume seu contorno extremo com o visagismo caricata de Renata Imbriani, Lorena Rocha e Paula Sholl.

A linguagem utilizada no espetáculo “Crimes Delicados” tensiona a cumplicidade do espectador diante da violência e da perversão e, dessa maneira, estrutura, de forma deliciosamente absurda, um quadro assustador de uma sociedade elitizada anormal e sem qualquer respeito para com as minorias.