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1964: O que ainda resta a dizer? De Luciene Carris - Quando o passado bate à porta e o Brasil finge que não está em casa

O esquecimento é um dos artistas mais habilidosos da experiência humana. Trabalha em silêncio, troca os móveis de lugar, cobre retratos com tecidos elegantes e convence os moradores de uma casa antiga de que determinadas portas jamais existiram. Quando alguém encontra uma chave esquecida em uma gaveta e demonstra o desejo de abrir um desses quartos abandonados, surge imediatamente o fiscal da tranquilidade alheia, aquele personagem tão comum nas sociedades que carregam feridas mal cicatrizadas, perguntando com uma serenidade quase cômica: “Mas ainda vamos mexer nisso?”. Como se a poeira acumulada sobre uma ferida tivesse poderes de curá-la.


É precisamente desse incômodo que nasce 1964: O que ainda resta a dizer?, uma coletânea que reúne reflexões de 11 autores, organizada por Luciene Carris. A obra caminha em direção aos espaços onde muitos prefeririam colocar placas de “não perturbe”, não por uma obsessão arqueológica pelo passado, mas pela compreensão compartilhada entre seus autores de que os corredores escuros da história possuem o desagradável costume de se prolongar até os cômodos do presente.


A grande inteligência da coletânea está em compreender que a memória coletiva não funciona como uma biblioteca administrada por bibliotecários meticulosos que catalogam todos os acontecimentos com a mesma atenção e honestidade. A memória de uma sociedade se parece muito mais com um palco após o encerramento de uma peça: existem cenários desmontados às pressas, figurinos guardados em locais estratégicos, objetos esquecidos nos bastidores e uma equipe inteira tentando decidir quais cenas merecem entrar na próxima apresentação da história.


Essa disputa pela lembrança revela um traço profundamente humano: ninguém gosta de se reconhecer como protagonista de seus próprios equívocos. Indivíduos e nações possuem um talento quase mágico para trocar o espelho pela maquiagem. O primeiro exige confronto; a segunda oferece conforto. Por isso, determinados períodos históricos recebem novas camadas de verniz até que a madeira apodrecida sob a pintura se torne um assunto inconveniente demais para ser mencionado durante o jantar.


Ao longo dos diferentes ensaios, os autores desmontam esse teatro da conveniência com a paciência de quem acende as luzes de um palco depois do espetáculo terminar. A iluminação revela aquilo que o cenário cuidadosamente tentou esconder: perseguições políticas, censura, tortura, desaparecimentos e vidas atravessadas por decisões tomadas por um Estado que transformou a violência em instrumento de governo.


O aspecto mais provocador da leitura está na análise de um comportamento bastante familiar: a pressa com que muitas pessoas desejam virar a página de um livro que sequer tiveram coragem de ler completamente. Existe uma ansiedade quase infantil pela ideia de encerramento, como a criança que fecha os olhos durante um filme assustador acreditando que o monstro, por delicadeza, também deixará de existir.


Essa postura produz uma das ironias mais curiosas do debate histórico. Algumas pessoas defendem a necessidade de seguir adiante, mas caminham carregando uma mala fechada da qual se recusam a retirar o conteúdo. O peso continua presente. Apenas escolheram não olhar aquilo que está sendo transportado.


1964: O que ainda resta a dizer?

Os diferentes textos demonstram que as batalhas pela narrativa do passado possuem consequências muito concretas no presente. Controlar a memória de um país equivale a escolher quais fantasmas receberão um nome e quais serão condenados a permanecer como sombras sem identidade. A história, quando manipulada, transforma-se em um espelho de parque de diversões: distorce as proporções, alonga certas figuras, diminui outras e entrega ao observador uma imagem confortável, embora profundamente deformada.


Um dos grandes méritos da organização de Luciene Carris está em reunir perspectivas que rejeitam uma superstição social bastante popular: a crença de que o calendário possui capacidades terapêuticas próprias. Os anos passam com a pontualidade de um funcionário exemplar. Entregam novos números, novas celebrações, novos compromissos e novas desculpas para evitar conversas desconfortáveis. Entretanto, o tempo não realiza cirurgias na consciência de uma sociedade. Ele apenas oferece o relógio; o trabalho de enfrentar a própria imagem continua sendo responsabilidade dos indivíduos.


Ao revisitar 1964 e seus desdobramentos, os autores não convidam o leitor para uma excursão turística por ruínas históricas, onde se observa o passado à distância, tira-se uma fotografia intelectual e retorna-se para casa com a sensação agradável de quem consumiu cultura. A leitura exige algo menos confortável: obriga o leitor a entrar no cenário, tocar os objetos, ouvir as vozes que foram silenciadas e perceber que muitas estruturas aparentemente derrubadas continuam projetando suas sombras sobre o chão do presente.


A força da coletânea está justamente na capacidade de transformar a memória em uma experiência de responsabilidade, e não apenas de contemplação. O leitor deixa de ocupar o lugar confortável daquele visitante que caminha por um museu observando placas informativas e passa a assumir uma posição menos tranquila: a de alguém que precisa reconhecer como determinadas escolhas políticas, determinados discursos e determinados silêncios continuam encontrando espaço na vida pública.


Existe algo quase cômico, embora profundamente preocupante, na insistência humana em acreditar que os erros históricos funcionam como aplicativos antigos que podem ser simplesmente desinstalados do sistema. A experiência demonstra o contrário. Ideias autoritárias se comportam mais como sementes esquecidas em uma terra aparentemente seca: permanecem invisíveis durante muito tempo, aguardando apenas as condições adequadas para voltar a germinar.


1964: O que ainda resta a dizer? incomoda justamente porque recusa o conforto das respostas rápidas. A diversidade de vozes reunidas por Luciene Carris convida o leitor a abandonar a preguiça intelectual que prefere o silêncio organizado à discussão desordenada, o esquecimento elegante à lembrança difícil, a maquiagem da história ao espelho sem filtros.


Algumas páginas possuem a função de entreter. Outras oferecem conhecimento. As mais necessárias, porém, realizam uma tarefa menos agradável: tiram o leitor da cadeira, entregam perguntas que não podem ser devolvidas e deixam uma pequena desordem na sala de nossas certezas. Esta coletânea pertence a essa última categoria, porque compreende que uma democracia incapaz de investigar suas próprias cicatrizes corre o risco de confundir a ausência momentânea de dor com uma verdadeira recuperação.



1964: O que ainda resta a dizer? De Luciene Carris - Quando o passado bate à porta e o Brasil finge que não está em casa


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