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A Miss: Excesso, Autoridade e a Fragilidade da Redenção

Uma comédia que provoca reação imediata, mas deixa lacunas quando se busca densidade e coerência humana

A Miss: Excesso, Autoridade e a Fragilidade da Redenção

Dirigido por Daniel Porto, A Miss retoma um arquétipo recorrente da comédia popular brasileira: a mãe expansiva que confunde amor com imposição. A premissa é simples e promissora. Iêda, dona de salão de beleza, decide que a filha precisa se tornar miss para realizar um sonho que, na verdade, é dela. O conflito central nasce desse deslocamento de desejo. O problema é que o filme opta por explorar essa tensão quase exclusivamente por meio da histeria.


Helga Nemetik constrói Iêda com energia constante e entrega física evidente. Sua presença domina todas as cenas. No entanto, a personagem opera praticamente em um único registro emocional. Ela grita, ameaça, constrange e insiste. A repetição dessa dinâmica substitui o desenvolvimento dramático. Em vez de progressão, há intensificação. O riso é buscado pelo acúmulo de explosões, não pela complexidade das situações.


Quando o roteiro introduz um flashback para justificar o comportamento autoritário da protagonista, a solução soa previsível. A revelação de uma infância traumática tenta reorganizar a percepção do espectador. O sofrimento passado passa a funcionar como explicação moral para o presente. Com isso, a narrativa desloca o foco da dor dos filhos para a dor da mãe. A reconciliação ocorre de forma rápida e pouco elaborada. O perdão parece encerrar o conflito sem realmente transformá-lo.


Martha, interpretada por Maitê Padilha, é construída como extensão do projeto narcísico materno. A jovem não demonstra interesse em concursos de beleza, mas raramente expressa suas próprias motivações ou conflitos internos. Sua trajetória é predominantemente reativa. Quando se liberta da obrigação de competir, o gesto não soa como conquista pessoal plenamente construída. Parece, antes, uma concessão tardia da autoridade que a oprimia.


Alan, vivido por Pedro David, ocupa posição ainda mais frágil na estrutura narrativa. Inserido nos concursos como substituto da irmã, ele poderia representar uma oportunidade de discussão sobre identidade de gênero e performance social. Performance, aqui, entendida como a maneira pela qual o indivíduo expressa publicamente traços associados a masculino e feminino. No entanto, o filme reduz essa possibilidade à comicidade da troca de papéis. A identidade é tratada como acessório. O debate potencial é substituído por situações farsescas que simplificam questões complexas.


Atena, personagem de Alexandre Lino, reforça essa lógica. Cabeleireiro leal e sempre disponível, ele funciona como apoio cômico da protagonista. Sua sexualidade é apresentada como elemento curioso, mas não é aprofundada. Falta-lhe trajetória própria. Ele gravita ao redor de Iêda, o que reforça a centralidade absoluta da mãe e empobrece o conjunto dramático.


A principal fragilidade de A Miss não está apenas no exagero, mas na ausência de contrapontos consistentes. Não há um personagem que confronte Iêda com igual força dramática. Não há uma consequência que realmente desestabilize sua posição de poder. Mesmo após a suposta redenção, a estrutura familiar permanece organizada em torno dela. O autoritarismo é suavizado, mas não questionado de modo estrutural.


O filme poderia explorar de maneira mais profunda a tensão entre autenticidade e expectativa social. Poderia utilizar os concursos de beleza como metáfora para a busca incessante por validação externa, mostrando como essa lógica afeta tanto mães quanto filhos. Poderia também desenvolver melhor a subjetividade dos jovens, oferecendo conflitos internos mais claros e progressões emocionais mais graduais.


Sob a direção de Daniel Porto e sustentado pela intensidade performática de Helga Nemetik, A Miss revela um retrato reconhecível de dinâmicas familiares marcadas por controle e projeção. No entanto, ao privilegiar o ruído em detrimento da construção dramática, o longa opta pela superfície. O resultado é uma comédia que provoca reação imediata, mas deixa lacunas quando se busca densidade e coerência humana.


Miss

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