Davi Cartaxo, “Templo”: O Culto à Pressa e o Valor da Demora
- circuitogeral
- há 17 horas
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Vivemos um tempo em que tudo precisa acontecer depressa. Sentimos depressa, esquecemos depressa, atravessamos experiências antes mesmo de compreender o que elas deixaram em nós. Consolidou-se uma espécie de culto à produtividade emocional: superar, recomeçar, reinventar-se. Como se amadurecer fosse apenas trocar de pele, quando, na verdade, quase sempre significa aprender a suportar a permanência. Não apenas a permanência da dor, mas também da dúvida, do silêncio e das perguntas que se recusam a oferecer respostas imediatas. TEMPLO nasce justamente dessa recusa em transformar a existência numa sucessão de atalhos.
Davi Cartaxo parece compreender que identidade não é um retrato pendurado na parede, desses que prometem conservar um rosto para sempre. Ela se parece mais com um espelho d'água. O menor vento altera a superfície, multiplica reflexos, embaralha contornos. Ainda assim, a água continua sendo a mesma. Talvez seja essa uma das formas mais discretas de amadurecer: aceitar que mudar de desenho não significa abandonar a própria essência.
Também impressiona a maneira como a obra transforma símbolos simples em experiências universais. O pôr do sol deixa de ser apenas uma imagem bonita para tornar-se um lembrete delicado de que alguns finais não encerram ciclos; apenas modificam o modo como enxergamos aquilo que permanece. Quando a claridade diminui, detalhes antes invisíveis finalmente encontram espaço para existir. A esperança, então, deixa de ocupar o horizonte iluminado e passa a habitar lugares mais silenciosos, quase imperceptíveis. Não porque tenha enfraquecido, mas porque certas convicções preferem crescer longe do excesso de luz.

Musicalmente, a combinação entre indie rock, nova MPB, nu-disco e pop/rock acompanha essa perspectiva sem soar como um exercício de estilo. Os arranjos se movimentam com naturalidade, sem a ansiedade de provar relevância a cada instante. É uma escolha que parece compreender algo raro: nem toda intensidade depende de velocidade, e algumas emoções só revelam sua verdadeira dimensão quando encontram tempo para respirar.
A hiperconectividade multiplicou nossas formas de contato, mas reduziu nossa disponibilidade para aquilo que não chega em forma de notificação. O silêncio passou a ser confundido com ausência, quando muitas vezes é apenas o intervalo necessário para que certas experiências revelem seu significado. O outro nem sempre se manifesta pela voz. Às vezes aparece numa pausa, num gesto incompleto, numa palavra que demora a surgir porque ainda está aprendendo a existir.
O título revela sua força aos poucos. O templo sugerido por Davi Cartaxo não promete salvação nem certezas. Não tem paredes, não exige rituais e tampouco separa o sagrado da vida comum. É erguido diariamente com materiais que costumam ser considerados frágeis: perdas, afetos, despedidas, reencontros, fracassos, pequenas alegrias e perguntas que insistem em sobreviver ao tempo. Talvez por isso nunca esteja concluído. O ser humano também não está. Vive em reforma permanente, ainda que passe boa parte da vida tentando convencer a si mesmo de que finalmente chegou a algum lugar.
Num mundo obcecado pela chegada, TEMPLO recorda que existir talvez se pareça menos com alcançar um destino do que com aprender a reconhecer as transformações que acontecem enquanto seguimos caminhando. As mudanças mais profundas raramente fazem barulho. Elas se instalam com a discrição de quem rearranja uma casa durante a madrugada. Quando amanhece, tudo continua familiar, mas já não ocupamos exatamente o mesmo lugar dentro de nós.
Davi Cartaxo, “Templo”: O Culto à Pressa e o Valor da Demora
