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Exposição "Corpo Gravado" Arte que não deixa ninguém pisar leve

O corpo grava o tempo no material, e o material devolve essas marcas como obra

Exposição "Corpo Gravado"

Exposição "Corpo Gravado"

Arte que não deixa ninguém pisar leve


Corpo Gravado se apresenta como uma exposição que não esconde suas intenções. Há, desde o início, um pedido tácito de atenção e de leitura profunda. Betina Guelmann transforma o linóleo sobre o qual dançou durante 15 anos em matéria artística, deslocando o chão do lugar de suporte para o de protagonista. O gesto é legítimo e imediatamente compreensível. Talvez compreensível demais.


A operação conceitual é clara: o corpo grava o tempo no material, e o material devolve essas marcas como obra. Trata-se de uma ideia forte, quase autoexplicativa, o que pode ser tanto uma virtude quanto um limite. O risco não está na proposta, mas na dificuldade de fazê-la avançar para além de sua formulação inicial. Em alguns momentos, a exposição parece permanecer orbitando a própria ideia, sem tensioná-la o suficiente.


Formalmente, Betina adota uma abordagem contida. Cortes, dobras, costuras e colagens revelam um trabalho manual paciente, sem virtuosismo ostensivo. Não há espetáculo nem soluções fáceis. Essa recusa do efeito imediato é coerente com o discurso da artista, mas também gera uma certa uniformidade visual. O linóleo resiste, dobra-se com dificuldade, impõe limites. Quando essa resistência aparece de forma mais explícita, a obra ganha densidade. Quando é excessivamente domesticada, perde força.


A variedade de suportes, que inclui objetos, esculturas, vídeos e instalações, sugere uma busca por expansão, mas nem sempre resulta em diferenças substantivas de pensamento plástico. Algumas obras reiteram a mesma chave interpretativa, insistindo na ideia de memória inscrita no material. O sentido se estabelece rapidamente e, em certos casos, se esgota antes que a experiência visual se renove.


A curadoria de Adriana Nakamuta é cuidadosa e consistente, talvez até demais. O discurso de consolidação de trajetória organiza a leitura da exposição, mas também suaviza seus conflitos. Em vez de expor fragilidades e tensões do processo, o texto curatorial tende a proteger a obra, quando ela poderia se beneficiar de mais fricção crítica.


O espaço do Largo das Artes contribui para uma experiência acolhedora. A relação com a arquitetura, a luz natural e a circulação do público é bem resolvida. No entanto, o vocabulário da pausa, da desaceleração e do gesto político sutil já se tornou recorrente no circuito contemporâneo. Aqui, ele funciona mais como moldura conceitual do que como força de confronto com o entorno urbano.


Os melhores momentos da exposição surgem quando o material parece escapar ao controle da artista. Quando o linóleo se mostra marcado, cansado, quase instável. Nesses trabalhos, o corpo não aparece como memória idealizada, mas como desgaste, repetição e esforço. É aí que a pesquisa se aproxima da dança em sua dimensão mais concreta e menos simbólica.


No conjunto, Corpo Gravado é uma estreia consistente, sensível e intelectualmente honesta. Revela uma artista com escuta material apurada e consciência histórica de seu percurso. Ainda assim, trata-se de uma exposição que respeita demais a própria origem. Falta um gesto mais arriscado, capaz de colocar essa memória em crise. O próximo passo de Betina Guelmann talvez seja menos afirmar o que já sabe e mais testar até onde esse corpo, agora visual, pode realmente ser tensionado.


Fred

SERVIÇO

Exposição de arte contemporânea

Título: "Corpo Gravado"

Artista: Betina Guelmann

Curadoria: Adriana Nakamuta

Enceramento: 17 de janeiro de 2026

Local: Largo das Artes

Funcionamento: de terça a sábado, das 10h às 13h e das 14h às 17h

Endereço: Rua Luís de Camões, nº 02, Centro - Rio de Janeiro - RJ

Entrada gratuita


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