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Filosofia a Cada Passo, Beto Colombo: Nietzsche Deve Estar se Revirando na Mochila

há 28 minutos
3 min de leitura

Em tempos de ansiedade, esgotamento e obsessão por produtividade, Beto Colombo chega com uma solução aparentemente revolucionária: caminhar. Em Filosofia a Cada Passo, o filósofo clínico, escritor e empreendedor transforma milhares de quilômetros percorridos em peregrinações numa espécie de manual para quem perdeu a intimidade com o próprio tempo. A premissa é simpática, mas a execução flerta perigosamente com o discurso motivacional disfarçado de profundidade.


A ideia de que caminhar permite pensar, desacelerar e recuperar a conexão com o corpo está longe de ser original. O problema começa quando uma experiência pessoal passa a ser apresentada como uma espécie de revelação existencial. Santiago, Trilha Inca, Caminho da Fé e outras rotas aparecem como cenários de iluminação, enquanto Nietzsche, Kierkegaard, Espinosa, Byung-Chul Han e Camus são convocados para dar pedigree intelectual a reflexões que, pelo material de divulgação, parecem muito mais próximas da autoajuda do que de um enfrentamento filosófico consistente.


Existe uma diferença considerável entre citar grandes pensadores e realmente colocar suas ideias em conflito com a realidade. A filosofia não é um acessório sofisticado para decorar experiências pessoais, tampouco uma coleção de frases inspiradoras para acompanhar fotografias de paisagens. Exige rigor, contradição, desconforto e, sobretudo, coragem para não transformar toda experiência humana em uma lição edificante.


O discurso de Colombo sobre abandonar expectativas, desapegar-se de identidades e reencontrar a própria essência parece saído de uma prateleira bastante conhecida do mercado editorial contemporâneo. Troca-se a fórmula do sucesso pela fórmula do autoconhecimento, a agenda lotada pela trilha, o escritório pela natureza. A embalagem muda, mas permanece a velha promessa de que alguns ajustes de comportamento podem nos reconciliar com uma existência que insiste em ser muito mais complicada do que qualquer receita.


Também chama atenção a maneira como a obra parece individualizar um problema profundamente coletivo. O esgotamento contemporâneo não nasceu porque as pessoas desaprenderam a caminhar. Está relacionado a condições de trabalho, desigualdade, precarização, cobranças econômicas e estruturas sociais que transformam até o descanso em mais uma tarefa a cumprir. Recomendar passos conscientes a quem vive esmagado por essas circunstâncias pode soar reconfortante, mas corre o risco de converter um problema político e social em deficiência individual de percepção.


Filosofia a Cada Passo, Beto Colombo

A própria ideia de que o corpo guarda uma sabedoria esquecida merece mais do que uma frase de efeito. O corpo também sente fome, dor, limitações, envelhecimento e exaustão. Caminhar pode ser libertador para uns, inacessível para outros e absolutamente insuficiente para quem precisa de condições materiais dignas para viver. A experiência da peregrinação não pode ser vendida como uma espécie de atalho universal para a iluminação.


O livro parece apostar na sedução de uma filosofia palatável, organizada para caber na rotina de quem deseja consumir profundidade sem necessariamente enfrentar a complexidade do pensamento. E esse é um risco considerável: transformar a filosofia em produto de bem-estar, os filósofos em fornecedores de frases e a existência em uma jornada de desenvolvimento pessoal permanentemente disponível para consumo.


Caminhar é ótimo. Desacelerar também. Mas nenhuma trilha, por mais bonita que seja, garante lucidez, maturidade ou sabedoria. É possível atravessar continentes e continuar prisioneiro das próprias certezas. É possível percorrer milhares de quilômetros sem sair do lugar intelectualmente.


Filosofia a Cada Passo apresenta uma proposta atraente, especialmente para leitores que procuram uma relação mais cotidiana com o pensamento filosófico. Contudo, a distância entre uma experiência inspiradora e uma reflexão realmente transformadora é enorme. A filosofia merece mais do que servir de legenda para uma caminhada. Merece perguntas que incomodem, ideias que desestabilizem e respostas que não venham embrulhadas em otimismo.


Porque, convenhamos, o mundo já está suficientemente cheio de gente vendendo fórmulas para encontrar a si mesma. O que anda faltando é disposição para questionar por que tanta gente está perdida. E, para essa pergunta, caminhar alguns quilômetros não basta.


Filosofia a Cada Passo, Beto Colombo: Nietzsche Deve Estar se Revirando na Mochila


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