Grupo Corpo “21” & “Piracema”: A harmonia que oprime, a correnteza que expõe
- circuitogeral

- há 2 dias
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Assistir a “21” e “Piracema” do Grupo Corpo provoca uma sensação desconfortável para quem observa a dança não apenas como expressão estética, mas como território de tensão, disputa e sobrevivência emocional. Existe algo profundamente perturbador na maneira como os corpos atravessam o palco: eles não parecem apenas dançar. Parecem negociar permanência, pertencimento e poder o tempo inteiro.
Em “21”, Rodrigo Pederneiras constrói uma engrenagem coreográfica tão precisa que a beleza deixa de ser acolhedora e passa a causar estranhamento. O espetáculo inteiro funciona como um sistema de organização absoluta. Cada linha formada pelos bailarinos, cada deslocamento milimetricamente sincronizado, cada repetição rítmica produz a sensação de que existe uma inteligência invisível controlando tudo sem permitir desvios.
Não se trata apenas de técnica refinada. Trata-se de domínio.
O mais inquietante em “21” talvez seja exatamente isso: os corpos parecem aceitar essa lógica de maneira quase natural. Não existe rebeldia explícita, não existe ruptura dramática, não existe explosão emocional evidente. O espetáculo cria uma atmosfera em que o controle se torna sedutor. E isso produz um efeito psicológico poderoso sobre quem assiste.
A repetição dos movimentos, associada à estrutura matemática da trilha do Uakti, cria um estado quase hipnótico. O olhar do espectador começa lentamente a abandonar a individualidade dos bailarinos para enxergar apenas o organismo coletivo. Aos poucos, já não importa quem executa o movimento — importa apenas que o fluxo permaneça intacto.
E existe algo profundamente humano nesse apagamento.
Porque a obra parece tocar uma necessidade ancestral de pertencimento. A coreografia oferece ao público a fantasia da ordem perfeita: um mundo em que todos os corpos encontram seu lugar exato dentro de uma estrutura maior, sem ruído, sem conflito aparente, sem instabilidade emocional visível. O espetáculo seduz justamente por transformar disciplina em beleza e submissão em harmonia visual.
Os bailarinos movem-se como se compartilhassem uma única consciência. O indivíduo desaparece em favor do conjunto. E embora isso produza imagens deslumbrantes, também gera desconforto. A perfeição contínua começa a parecer opressiva. O sincronismo excessivo faz surgir uma pergunta silenciosa: quanto da identidade humana precisa ser sacrificada para que exista tanta ordem?
Rodrigo Pederneiras compreende com enorme sofisticação que o fascínio coletivo nasce muitas vezes da sensação de segurança produzida pela organização absoluta. Em “21”, ninguém parece perdido. Ninguém hesita. Ninguém falha. E talvez justamente por isso o espetáculo provoque tensão emocional tão intensa. Porque o ser humano real falha o tempo inteiro.
O palco oferece uma fantasia impossível de estabilidade.
Já “Piracema” rompe esse estado de controle quase arquitetônico e mergulha numa experiência muito mais emocional, instável e visceral. A presença criativa de Cassi Abranches modifica radicalmente a temperatura da cena. Se em “21” os corpos pareciam obedecer a uma lógica invisível de contenção, em “Piracema” eles parecem atravessados por urgência, desgaste e necessidade afetiva.
A metáfora dos peixes subindo contra a corrente transforma-se rapidamente numa imagem brutal da experiência humana contemporânea. Os bailarinos avançam como criaturas exaustas tentando sobreviver ao fluxo incessante da existência. Os agrupamentos se formam e se desfazem constantemente, como relações humanas sustentadas mais pelo medo da solidão do que pela verdadeira estabilidade emocional.
Existe uma dimensão quase desesperada na movimentação.
Os corpos se procuram o tempo inteiro. Encostam-se, arrastam-se, apoiam-se uns nos outros como se o contato físico pudesse impedir algum tipo de colapso invisível. Mas nada permanece estável por muito tempo. Toda aproximação logo se desfaz. Toda formação coletiva ameaça ruir.
E é justamente aí que o espetáculo encontra sua força mais devastadora.
Porque “Piracema” abandona a ilusão de perfeição oferecida por “21” e expõe aquilo que existe por baixo de qualquer organização social ou afetiva: vulnerabilidade. A coreografia inteira parece construída sobre a percepção de que viver exige continuar em movimento mesmo quando já não existe garantia de recompensa, repouso ou pertencimento verdadeiro.
Enquanto Rodrigo desenha sistemas de controle sofisticados através da repetição e da geometria, Cassi expõe o desgaste emocional produzido pela necessidade contínua de adaptação. Os bailarinos já não parecem protegidos por uma estrutura perfeita. Parecem sobreviventes tentando permanecer juntos apesar do cansaço.
A trilha sonora intensifica ainda mais essa sensação de travessia emocional permanente. O espetáculo pulsa como organismo instável, como fluxo que nunca encontra repouso definitivo. Os corpos tornam-se mais humanos justamente porque perdem a aparência de perfeição absoluta.
Existe algo profundamente melancólico nisso.
Porque “Piracema” sugere que toda experiência coletiva carrega inevitavelmente uma solidão subterrânea. Mesmo nos momentos de contato intenso, cada corpo continua atravessando sua própria correnteza interna. O grupo oferece apoio temporário, nunca salvação completa.
Ao observar os dois espetáculos em conjunto, surge um contraste quase cruel.
“21” oferece ao espectador o fascínio da ordem perfeita. “Piracema” desmonta essa fantasia ao revelar que nenhum organismo humano permanece estável para sempre. Um espetáculo controla o caos através da estrutura; o outro aceita que o caos jamais desaparece completamente.
E talvez seja exatamente essa tensão que torna o Grupo Corpo tão poderoso.
A companhia compreende algo raro sobre o comportamento humano: o corpo nunca mente completamente. Antes da linguagem racional, antes das convenções sociais, antes das máscaras cuidadosamente construídas para sustentar equilíbrio emocional, o movimento revela exaustão, desejo de pertencimento, necessidade de reconhecimento, medo da exclusão e tentativa permanente de sobrevivência afetiva.
Em cena, os bailarinos não representam apenas ideias abstratas sobre dança contemporânea. Representam impulsos humanos profundos que normalmente permanecem escondidos sob a superfície organizada da vida cotidiana.
Por isso os espetáculos permanecem reverberando muito depois do fim.
Porque o que inquieta não é apenas a beleza técnica. É o reconhecimento silencioso de que aqueles corpos, organizados ou fragmentados, disciplinados ou vulneráveis, continuam refletindo aquilo que toda coletividade tenta esconder: a luta incessante entre controle e desamparo.
Grupo Corpo “21” & “Piracema”: A harmonia que oprime, a correnteza que expõe




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