“A Modernidade Caiu na Rede: A arte, a cultura e a economia no mundo da Inteligência Artificial”, de Armando Avena: A Sociedade entregou a alma ao algoritmo em troca de notificações
- circuitogeral

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A Modernidade Caiu na Rede não é um livro confortável. Ainda bem. Livro confortável, atualmente, serve mais como almofada intelectual para influencer de LinkedIn do que como literatura crítica. Armando Avena surge como alguém disposto a interromper a festa digital justamente no momento em que todos fingem felicidade enquanto entregam voluntariamente a própria consciência para meia dúzia de bilionários do Vale do Silício em troca de filtros bonitos, validação instantânea e a sensação artificial de pertencimento.
A pergunta que atravessa a obra é simples e, exatamente por isso, profundamente perturbadora: em que momento a humanidade aceitou que empresas privadas se apropriassem de séculos de conhecimento coletivo para transformá-los em mercadoria? A sensação é semelhante à de passar décadas construindo uma imensa biblioteca pública e, de repente, descobrir que alguém trocou as fechaduras, instalou catracas na entrada e passou a decidir quais livros merecem existir e quais devem desaparecer no fundo escuro do algoritmo.
Avena escreve como quem observa um incêndio em praça pública enquanto metade da plateia grava vídeos das chamas para publicar nas redes sociais acompanhadas de emojis sorridentes. Seu diagnóstico da modernidade digital não vem embrulhado naquele otimismo plastificado típico dos sacerdotes corporativos da tecnologia, sempre prontos para vender “inovação” como quem vende suplemento milagroso em propaganda de madrugada. Nada da velha conversa segundo a qual a inteligência artificial veio para democratizar o conhecimento. Democratizar o quê, exatamente? A ansiedade coletiva? A vigilância permanente? A substituição gradual da experiência humana por respostas instantâneas produzidas por algoritmos que conhecem nossos impulsos melhor do que nós mesmos?
Quando Avena afirma que a modernidade “caiu na rede”, a frase não soa como simples metáfora elegante. Soa como laudo pericial. Baudelaire observava multidões caminhando pelos bulevares de Paris. Marx analisava operários sendo esmagados pelas engrenagens industriais do século XIX. Hoje, o cidadão médio desperta e enfia o rosto em uma tela antes mesmo de organizar os próprios pensamentos. A fábrica contemporânea já não possui chaminés, fuligem ou sirenes. Ela emite notificações, vibra no bolso e exige atenção contínua vinte e quatro horas por dia. O chicote virou algoritmo. O relógio de ponto agora mora dentro do celular. A produtividade deixou de ser uma obrigação profissional para se transformar em estado psicológico permanente.
Existe um ponto especialmente inteligente na crítica de Avena: ele não transforma a inteligência artificial em vilã caricatural de filme ruim. O problema nunca foi a máquina em si. Uma faca pode cortar pão ou garganta. Tudo depende da mão que a segura e dos interesses que orientam seu uso. O que o livro denuncia é algo muito mais indigesto: quem controla essas tecnologias controla também comportamento, desejo, linguagem, memória e até indignação. A IA tornou-se uma espécie de sacerdote eletrônico do século XXI. Escuta tudo, registra tudo, interpreta tudo e transforma cada fragmento da experiência humana em dado negociável. O confessionário religioso deu lugar aos termos de uso que ninguém lê.

O livro desmonta também essa fantasia infantil de neutralidade tecnológica. As big techs gostam de se apresentar como bibliotecárias simpáticas organizando informação para facilitar a vida da humanidade. Avena revela outra coisa: plataformas digitais operam como cassinos cognitivos projetados para capturar atenção da mesma forma que caça-níqueis capturam jogadores compulsivos. Cada clique alimenta um sistema cuidadosamente desenhado para transformar distração em lucro. O usuário acredita estar exercendo liberdade enquanto algoritmos empurram conteúdos personalizados com a eficiência silenciosa de garçons treinados para manter clientes consumindo sem perceber quanto já gastaram.
Avena compreende que o problema não se limita à economia digital. Existe uma transformação profunda da própria experiência humana. As redes sociais converteram opinião em performance, intimidade em vitrine e indignação em espetáculo. O sujeito contemporâneo tornou-se uma criatura curiosa: ao mesmo tempo consumidor, mercadoria e garoto-propaganda de si próprio. Vive promovendo a própria imagem como camelô emocional tentando vender versões editadas da própria existência.
Uma das provocações mais fortes do livro aparece justamente quando o autor aborda o risco da morte da autoria. Não uma morte dramática, cinematográfica ou apocalíptica. Nada tão teatral. Trata-se de uma morte burocrática, silenciosa, quase administrativa. Como substituir lentamente chefs de cozinha por miojo gourmetizado e convencer o público de que sabor industrializado possui a mesma complexidade de uma receita construída ao longo de gerações. A arte começa a ser produzida em escala industrial por máquinas que escrevem poemas, compõem músicas, criam pinturas e simulam emoções humanas com eficiência assustadora. O resultado impressiona tecnicamente, mas muitas vezes possui a profundidade emocional de uma sala de espera corporativa iluminada por luz branca e frases motivacionais coladas na parede.
E talvez esteja aí uma das tragédias centrais do nosso tempo: nunca se produziu tanta informação e nunca se pensou tão superficialmente. Nunca existiu tanta conexão e, paradoxalmente, tanta solidão emocional. O excesso de estímulo digital funciona como uma chuva constante sobre o pensamento crítico. Não destrói imediatamente. Apenas desgasta lentamente, corroendo concentração, memória e capacidade de contemplação. A mente contemporânea parece viver em estado de rolagem infinita, incapaz de permanecer tempo suficiente em uma ideia sem sentir necessidade de buscar outro estímulo.
O mérito de Armando Avena está justamente em recusar essa passividade coletiva travestida de modernidade inevitável. Ele escreve como alguém que ainda acredita que pensamento crítico não deve ser terceirizado para máquina nenhuma. Em uma época na qual muita gente aceita respostas prontas com a mesma devoção automática de quem compartilha frases motivacionais sem sequer terminar de lê-las, essa postura já parece quase subversiva.
A Modernidade Caiu na Rede não oferece conforto intelectual. Oferece incômodo, desconforto e atrito. Talvez esse seja seu maior mérito. Literatura que apenas confirma certezas funciona como espelho de elevador: serve apenas para ajustar aparência antes do retorno automático ao cotidiano vazio. Avena prefere outra função para a escrita. Prefere puxar o fio da tomada enquanto o mundo continua dançando hipnotizado diante das próprias telas, acreditando ingenuamente que liberdade e dependência digital podem ocupar o mesmo espaço sem consequências.
“A Modernidade Caiu na Rede: A arte, a cultura e a economia no mundo da Inteligência Artificial”, de Armando Avena: A Sociedade entregou a alma ao algoritmo em troca de notificações




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