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“O Talentoso Ripley”: A encenação de uma identidade em permanente estado de invenção

A adaptação teatral de O Talentoso Ripley, dirigida por Hugo Bonèmer e Kamilla Rufino, encontra sua principal qualidade na recusa de transformar o clássico de Patricia Highsmith em um simples thriller de palco. Embora a trama seja atravessada por mentiras, assassinatos e sucessivas trocas de identidade, o interesse da encenação está concentrado em outro aspecto: a fabricação de uma imagem capaz de garantir acesso a espaços, afetos e privilégios que parecem inalcançáveis.


A versão de Phyllis Nagy, apresentada pela primeira vez em português, favorece essa leitura ao deslocar o eixo narrativo para o ponto de vista de Tom Ripley. A história passa a ser construída a partir da percepção do protagonista, e esse recurso produz um efeito decisivo. O público não acompanha os acontecimentos como um observador externo, mas como alguém submetido ao filtro de uma consciência que reorganiza fatos, omite informações e reformula experiências de acordo com suas necessidades.


Esse procedimento dramatúrgico encontra correspondência na encenação concebida por Hugo Bonèmer e Kamilla Rufino. Em vez de buscar uma reconstrução naturalista dos ambientes frequentados por Ripley, o trabalho aposta em uma linguagem marcada por deslocamentos constantes. As transições entre personagens, os diferentes registros de interpretação e a fragmentação espacial produzem uma atmosfera que reproduz a instabilidade do próprio protagonista.


Tom Ripley surge menos como um criminoso calculista e mais como alguém empenhado em compreender os mecanismos que regulam a circulação social. Seu olhar está permanentemente voltado para aqueles que ocupam posições de prestígio. Observa seus hábitos, seus modos de falar, seus gestos e suas formas de sociabilidade. A fraude nasce dessa observação contínua. Antes de falsificar assinaturas ou assumir identidades, Ripley aprende a reproduzir comportamentos.


Essa dimensão ganha força na interpretação de Hugo Bonèmer. Sua atuação evita a figura tradicional do psicopata frio e inabalável, frequentemente associada ao personagem. Em cena, emerge uma presença mais contraditória. Existe cálculo, mas também ansiedade. Existe manipulação, mas também vulnerabilidade. O ator constrói um Ripley cuja inteligência social parece derivar menos da autoconfiança do que da necessidade permanente de adaptação.


Essa escolha amplia significativamente a complexidade da narrativa. As ações do protagonista permanecem moralmente indefensáveis, mas o percurso emocional que as antecede torna-se mais visível. O desejo de pertencimento não surge como justificativa para seus atos, mas como uma força dramática capaz de explicar a persistência de sua busca.


O trabalho do elenco reforça essa perspectiva. Cassio Pandolfh, Francisco Paz, Guilhermina Libanio, João Fernandes, Laura Gabriela e Tom Nader assumem múltiplos personagens ao longo da apresentação, recurso previsto pela dramaturgia de Nagy e explorado com inteligência pela encenação. As trocas constantes não funcionam apenas como solução prática. Elas contribuem diretamente para o tema central da obra. Em um universo onde todos parecem representar papéis sociais específicos, a circulação dos intérpretes entre diferentes figuras evidencia o caráter performativo das relações humanas.


Entre os elementos mais interessantes da adaptação está o fortalecimento das personagens femininas. Nagy amplia sua participação e lhes concede maior densidade dramática. A decisão altera significativamente o equilíbrio das forças presentes na narrativa. Marge, Sophia, Emily e Tia Dottie deixam de existir apenas em função do percurso masculino e passam a interferir de maneira mais decisiva na dinâmica dramática. Essa ampliação produz tensões que não estão presentes com a mesma intensidade em adaptações anteriores da obra.


No campo visual, o espetáculo apresenta algumas de suas soluções mais expressivas. A cenografia assinada por Hugo Bonèmer evita reproduções literais dos ambientes italianos associados ao imaginário de Ripley. Em seu lugar, constrói um espaço marcado por elementos simbólicos capazes de traduzir estados emocionais e movimentos psicológicos.


O Talentoso Ripley

Os sacos de água suspensos sobre o palco sintetizam essa proposta. O recurso possui forte impacto visual e organiza parte importante da experiência do espectador. A imagem combina sofisticação e ameaça sem recorrer a explicações evidentes. A presença constante dessas estruturas cria uma sensação de instabilidade que atravessa toda a apresentação. O cenário deixa de ser apenas um suporte para a ação e passa a atuar como um componente dramatúrgico ativo.


A iluminação de Renato Machado potencializa esse efeito ao explorar contrastes, zonas de sombra e mudanças de atmosfera que acompanham as transformações do protagonista. Em vários momentos, a luz parece revelar menos os acontecimentos do que o estado subjetivo de quem os vivencia. O resultado é uma composição visual coerente com a lógica narrativa adotada pela montagem.


Os figurinos concebidos por Sergio Medina Paranhos e Joe Nicolay colaboram para a construção desse universo sem disputar protagonismo com os demais elementos da cena. O trabalho privilegia a caracterização das diferentes figuras que atravessam a história e contribui para a clareza das múltiplas transformações exigidas pelo dispositivo dramatúrgico.


A trilha sonora original criada por Tauã de Lorena em parceria com Laura Gabriela desempenha função semelhante. Em vez de operar como comentário emocional explícito, desenvolve variações a partir de estruturas melódicas recorrentes. Essa repetição produz familiaridade e estabelece uma unidade sensorial que acompanha a progressiva deterioração das fronteiras entre verdade, memória e invenção.


Outro mérito da encenação está na capacidade de articular referências diversas sem perder consistência. Elementos associados ao suspense clássico convivem com procedimentos mais próximos do realismo fantástico e da teatralidade assumida. A alternância entre esses registros impede que a narrativa se acomode em uma única chave de leitura. O público é constantemente deslocado entre situações de humor, tensão, estranhamento e observação psicológica.


Esse movimento se revela particularmente eficaz porque acompanha a própria estrutura do personagem central. Ripley vive em estado permanente de adaptação. Sua identidade não funciona como algo estável, mas como uma construção em processo contínuo. A encenação traduz essa característica por meio da linguagem teatral, evitando transformar conceitos complexos em explicações didáticas.


A produção também encontra relevância ao aproximar a trajetória do protagonista de questões contemporâneas relacionadas à construção da imagem pública. Embora a narrativa tenha sido escrita em outro contexto histórico, a obsessão por reconhecimento social, validação e reinvenção pessoal encontra ressonâncias evidentes no presente. O texto não força paralelos simplistas, mas permite que essas associações surjam organicamente a partir da experiência da plateia.


O resultado é uma adaptação que encontra equilíbrio entre fidelidade ao material de origem e autonomia artística. Em vez de reproduzir versões já conhecidas da história, Hugo Bonèmer e Kamilla Rufino investem em uma leitura centrada nos mecanismos de observação, imitação e construção identitária que definem o personagem.


Mais do que acompanhar a ascensão de um impostor, o público presencia o processo pelo qual alguém aprende a transformar a própria existência em representação. Essa perspectiva orienta as escolhas dramatúrgicas, as soluções visuais e o trabalho dos atores, produzindo uma encenação coesa, formalmente ambiciosa e atenta às múltiplas camadas de uma das figuras mais inquietantes da literatura do século XX.


“O Talentoso Ripley”: A encenação de uma identidade em permanente estado de invenção


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