“Obsessão” Mostra como o machismo sempre flertou com o terror
- circuitogeral

- há 8 minutos
- 4 min de leitura
“Obsessão” é aquele tipo de filme que começa parecendo uma comédia romântica sobre gente emocionalmente esquisita e termina como um colapso psicológico embalado por trauma, carência afetiva e absoluta recusa masculina em fazer terapia. E existe algo profundamente assustador em um homem inseguro que, em vez de amadurecer emocionalmente, ganha acesso à magia.
A premissa é deliciosa de tão absurda. Bear (Michael Johnston) trabalha em uma loja de discos, é apaixonado pela colega Nikki (Inde Navarrette), e simplesmente não consegue executar a tarefa mais elementar da vida adulta: conversar como um ser humano funcional. Em vez disso, decide brincar com um artefato amaldiçoado chamado “Salgueiro de Um Desejo” e pede que Nikki o ame mais do que qualquer outra coisa no mundo. Aparentemente, enfrentar a possibilidade de rejeição parecia mais insuportável do que alterar violentamente a realidade.
E é justamente aí que o filme encontra sua camada mais desconfortável. A narrativa entende que certas fantasias românticas masculinas, frequentemente tratadas como fofas ou comoventes pela cultura pop, são absolutamente aterrorizantes quando examinadas de perto. Existe uma tradição inteira de homens ensinados a acreditar que devoção feminina irrestrita é prova máxima de amor. O problema começa quando essa fantasia exige que a mulher abra mão da própria identidade para existir exclusivamente em função deles.
Nikki não se transforma em um monstro tradicional. O horror é muito mais perverso do que isso. Ela vira aquilo que muitos homens, silenciosamente, consideram a parceira perfeita: alguém disponível o tempo inteiro, emocionalmente dependente, incapaz de existir fora da órbita masculina. Uma espécie de golden retriever afetivo possuído por forças demoníacas e patriarcais ao mesmo tempo.
A inteligência do filme aparece justamente na maneira como Bear é construído. Ele não é um psicopata caricatural nem um vilão operístico de terror sobrenatural. É o famoso “cara legal”. O homem tímido, inseguro, emocionalmente travado, que acredita merecer amor simplesmente porque sofre em silêncio e cultiva frustrações de maneira melancólica. A narrativa compreende perfeitamente o perigo desse tipo de masculinidade passiva. Bear não suporta a rejeição porque criou, dentro da própria cabeça, uma versão idealizada de Nikki que nunca correspondeu à pessoa real.
Isso faz com que “Obsessão” dialogue diretamente com o machismo estrutural sem cair naquele tom insuportável de palestra universitária às duas da tarde, acompanhada de projetor quebrado e café frio. O terror funciona porque reconhecemos nesses comportamentos algo assustadoramente familiar. Ciúme tratado como prova de amor. Insistência vista como romantismo. Dependência emocional confundida com intensidade afetiva. Durante décadas, a cultura vendeu obsessão masculina como demonstração apaixonada de entrega. O filme desmonta essa fantasia com prazer quase cruel.

A direção de Curry Barker também entende uma verdade que muito terror contemporâneo parece esquecer: monstros são mais perturbadores quando representam desejos humanos reais. E talvez não exista nada mais assustador do que alguém que prefere controlar você a correr o risco de não ser amado.
A atuação de Inde Navarrette é, sem exagero, a grande força emocional do filme. Nos primeiros momentos, Nikki surge como alguém viva, inteligente, espirituosa, dona da própria energia. Depois da maldição, tudo muda. A postura corporal encolhe. O olhar perde presença. A voz passa a carregar uma ansiedade sufocante. Parece que estamos vendo uma pessoa desaparecer lentamente enquanto continua fisicamente diante da câmera.
E o mais perturbador é perceber que a monstruosidade da personagem não vem apenas do elemento sobrenatural. Surge também da familiaridade. Existem relações reais profundamente parecidas com aquilo. Mulheres que abandonam desejos, autonomia e personalidade para atender às demandas emocionais de homens inseguros. O filme apenas transforma essa dinâmica em horror explícito, iluminado por sombras expressionistas e sintetizadores sinistros dignos de um pesadelo oitentista.
Visualmente, a direção acerta muito na criação de atmosfera. A casa de Bear vai deixando de parecer apenas o apartamento bagunçado de um jovem melancólico e começa a adquirir energia de cárcere emocional misturado com portal demoníaco improvisado. Uma estética entre “indie cult decadente” e “local que certamente apareceria em um documentário criminal da Netflix”.
Existe também coragem na maneira como o roteiro manipula nossa relação com Bear. Em alguns momentos, sentimos pena dele. E isso produz um desconforto genuíno, porque o filme sabe exatamente o que está fazendo. A sociedade possui enorme facilidade em relativizar comportamentos masculinos tóxicos quando eles aparecem embalados em insegurança, timidez e aparência de sofrimento emocional. Homens emocionalmente incompetentes costumam receber compaixão onde mulheres receberiam medo.
A crítica à masculinidade frágil funciona justamente porque Bear jamais se percebe como agressor. Ele se vê como vítima da própria solidão. Como alguém injustiçado pelo mundo e pelo amor. E talvez resida aí o aspecto mais assustador de “Obsessão”: a violência nasce menos do ódio explícito do que da incapacidade masculina de aceitar que afeto não é recompensa moral por sofrimento silencioso.
O filme entende algo que muito romance contemporâneo ainda se recusa a admitir. Amar alguém não significa possuir essa pessoa. No instante em que o amor exige submissão, apagamento ou perda de liberdade, ele deixa de ser afeto e passa a funcionar como dominação emocional. “Obsessão” transforma essa ideia em terror psicológico com uma crueldade admiravelmente desconfortável.
“Obsessão” Mostra como o machismo sempre flertou com o terror



Comentários