PAI: Assistir ou suportar?
- circuitogeral

- há 9 horas
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Há espetáculos que pedem silêncio ao final. Não o silêncio constrangido de quem não compreendeu, mas um silêncio denso, carregado, quase íntimo, de quem foi atravessado por algo difícil de nomear. “PAI” se insere nesse território raro. Não termina quando as luzes se apagam. Permanece. Insiste. Age como uma lembrança que se infiltra e se instala, mesmo quando já não se está mais diante do palco.
O que se apresenta em cena não é, propriamente, uma história. É a tentativa de um corpo de sobreviver ao que não se dissolve com o tempo. Essa escolha não é apenas estética, é estrutural. Ela rompe com qualquer expectativa de linearidade. Não há progressão dramática tradicional. Não há condução emocional que facilite a recepção. Em vez disso, o que se vê são fragmentos desconexos, imagens interrompidas, gestos que parecem carregar mais peso do que conseguem sustentar.
Sob a direção de Arthur Makaryan, a encenação aposta conscientemente na desorientação. Não se trata de um recurso gratuito. A memória traumática não se organiza em começo, meio e fim. Ela surge em rupturas. Interrompe o presente. Repete situações com pequenas variações. Em um momento específico, por exemplo, um gesto aparentemente banal se prolonga além do esperado, tornando-se incômodo. Em outro, uma pausa se estende até quase romper a continuidade da cena. Essas escolhas não apenas constroem atmosfera, mas reproduzem a lógica instável da lembrança.
Guilherme Logullo, sozinho em cena, sustenta essa estrutura com um trabalho físico rigoroso. Não se trata de interpretação no sentido clássico, mas de exposição controlada. Há um momento em que seu corpo se retrai diante de um estímulo invisível. Não há palavra, não há explicação. Ainda assim, a reação comunica medo, condicionamento, memória. Em outro instante, o olhar se fixa em um ponto vazio, como se algo ali persistisse. Esses detalhes concretos impedem que o espetáculo se perca em abstrações.
Transformar dor em arte é um caminho arriscado. Com frequência, resulta em trabalhos que se fecham sobre si mesmos, mais preocupados com a própria catarse do que com a experiência do espectador. “PAI” evita esse desvio na maior parte do tempo. Isso acontece porque não há tentativa de suavizar o material apresentado. O espetáculo não busca empatia fácil. Também não organiza o sofrimento em uma narrativa reconfortante. Essa recusa em agradar sustenta a sua potência.
A cenografia de Marieta Spada contribui de forma decisiva para essa construção. O espaço não é apenas minimalista. Ele parece incompleto. Há uma sensação de que algo falta, ou de que algo foi retirado. Um objeto deslocado, uma área vazia excessiva, uma delimitação imprecisa do ambiente. Esses elementos criam um campo visual que dialoga diretamente com a ideia de ausência e ruptura.

O figurino de Karen Brusttolin reforça essa proposta ao evitar qualquer elaboração excessiva. Não há tentativa de caracterização elaborada. O corpo permanece exposto em sua vulnerabilidade, sem mediações que suavizem sua presença. Essa escolha desloca o foco para a fisicalidade do intérprete.
A iluminação de Paulo Denizot opera por recortes precisos. Em determinado momento, o rosto do ator permanece parcialmente oculto, criando uma imagem instável, incompleta. Em outro, uma área do palco é subitamente abandonada pela luz, como se deixasse de existir. Essa oscilação entre revelar e esconder cria uma relação direta com o funcionamento da memória.
Já a música de João Paulo Mendonça não conduz a emoção de maneira previsível. Em vez disso, estabelece uma tensão contínua. Há sons que surgem de forma quase imperceptível e crescem até se tornarem incômodos. Em outros momentos, o silêncio se impõe de maneira abrupta. Esse desenho sonoro amplia a sensação de instabilidade.
A figura paterna é tratada sem simplificação. Não há construção de um antagonista evidente. O que se apresenta é mais ambíguo. Um gesto de controle pode ser seguido por um momento de aparente cuidado. Essa oscilação impede qualquer leitura confortável. Ao mesmo tempo em que não absolve, o espetáculo também não reduz a figura do pai a um único registro. Essa complexidade torna a experiência mais exigente para o espectador.
Em alguns trechos, a insistência na fragmentação gera um efeito de repetição. Determinadas estratégias retornam sem variação suficiente, o que pode diminuir o impacto. Há também momentos em que a intensidade se aproxima de uma estilização do sofrimento, especialmente quando o gesto se prolonga sem acrescentar novas camadas de sentido. Ainda assim, esses pontos não comprometem o conjunto, mas revelam os limites de uma proposta que opera constantemente no extremo.
O que permanece ao final não é uma conclusão clara. Também não há uma sensação de fechamento. O que se instala é uma inquietação persistente. Uma pergunta que não se resolve: o que fazemos com aquilo que nos constitui, mas que não escolhemos?
“PAI” não oferece resposta. Não organiza o caos. Não suaviza o impacto. E talvez seja justamente por isso que continua reverberando. Porque, ao recusar o conforto, obriga o espectador a ocupar um lugar menos passivo. Um lugar em que observar já não é suficiente. Um lugar em que, inevitavelmente, algo pessoal começa a emergir.
Serviço:
Data: até 29 de abril de 2026
Horário: 20h
Local: Teatro Gláucio Gill
Endereço: Praça Cardeal Arcoverde, s/nº, Copacabana - Rio de Janeiro, RJ.
Lotação: 104 lugares
Valores: R$30,00 (inteira) R$15,00 (meia-entrada)
PAI: Assistir ou suportar?



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