A liberdade contida de “Uma vida em cores”
- circuitogeral

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Há algo de curioso em “Uma Vida em Cores”: trata-se de uma peça sobre liberdade, mas construída com um cuidado quase cerimonioso, como se temesse levar essa liberdade às últimas consequências.
Rosamaria Murtinho entra em cena aos 93 anos interpretando Iris Apfel. Isso, por si só, já deveria bastar. Há algo incontornável em ver alguém dessa idade em plena atividade, lúcida, ocupando o palco com presença. É uma experiência que dispensa mediações mais óbvias, como trilhas emotivas ou construções simbólicas excessivas. Ainda assim, o espetáculo parece desconfiar dessa força e insiste em explicá-la, reforçá-la, guiá-la.
É nesse excesso que a peça começa a se fragilizar.
A direção de Cacau Hygino aposta em delicadeza, sensibilidade e densidade de significado, e de fato alcança esses objetivos. O problema é que, em vários momentos, essa construção se torna insistente. A sensação é a de uma obra que não confia plenamente no próprio efeito e, por isso, retorna constantemente às mesmas ideias, como se precisasse garantir que foram compreendidas.
A estrutura da entrevista com a jovem jornalista é um recurso eficaz. O contraste é claro e promissor: de um lado, a ansiedade de quem está começando; de outro, a experiência de quem já atravessou o tempo e não se orienta mais pelas mesmas urgências. Esse encontro poderia gerar tensão, fricção, até certo desconforto. No entanto, a peça frequentemente recua desse embate e opta por um terreno mais previsível, onde predomina uma admiração mútua pouco desafiadora.
Falta atrito.

E essa ausência pesa porque Iris Apfel não é apenas uma figura inspiradora. Sua imagem pública se constrói também a partir do excesso, da excentricidade, de escolhas que desafiam o gosto médio e, por vezes, beiram o incômodo. Ao suavizar essas arestas, o espetáculo preserva a admiração, mas reduz a complexidade. O resultado é uma personagem mais assimilável, porém menos interessante.
Paradoxalmente, é quando a peça abandona a tentativa de organizar seu discurso que ela encontra mais força.
Nos momentos em que simplesmente permite que Rosamaria Murtinho esteja em cena, sem a necessidade de justificar ou enquadrar sua presença, algo mais potente emerge. A materialidade do tempo, inscrita no corpo e na voz, produz um efeito que nenhuma elaboração conceitual consegue substituir. Nesse ponto, o teatro deixa de explicar e passa a existir.
E isso basta.
A relação com a neta introduz uma camada afetiva relevante, mas também delicada do ponto de vista dramatúrgico. Há uma emoção quase automática nesse vínculo, que independe de construção. Justamente por isso, surge a questão: até que ponto a peça trabalha esse material e até que ponto apenas se apoia nele? Quando bem integrada, a relação amplia o alcance emocional. Quando não, funciona como um atalho que antecipa o efeito sem necessariamente desenvolvê-lo.
No conjunto, “Uma Vida em Cores” revela uma tensão central entre intenção e realização. A peça deseja afirmar a liberdade como valor, mas mantém um controle rigoroso sobre a forma como essa liberdade se manifesta. Em vez de risco, há contenção; em vez de desvio, há condução.
A ironia é inevitável: a Iris Apfel real provavelmente desorganizaria essa estrutura, alteraria o ritmo, quebraria a previsibilidade. E, ao fazer isso, talvez se aproximasse mais daquilo que a peça tenta celebrar.
Porque, no fim, a liberdade que mais interessa não é a que se declara, mas a que desestabiliza.
Por Paulo Sales
A liberdade contida de “Uma vida em cores”







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