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A noite de abertura do Queremos! : Gabriele Leite & Zeca Veloso - Teatro Carlos Gomes/RJ

A abertura do Queremos! Festival, no Teatro Carlos Gomes, expõe um problema recorrente no circuito cultural contemporâneo: a troca da elaboração estética por uma competência segura, previsível e, no limite, descartável. Não se trata de falta de talento, mas de um uso tímido, quase protocolar, desse potencial.


Gabriele Leite demonstra domínio técnico inquestionável. Sua execução é limpa, controlada e fiel às matrizes que convoca. É justamente aí, porém, que reside a limitação. Ao interpretar repertório associado a Chiquinha Gonzaga, Heitor Villa-Lobos e Garoto, a violonista adota uma abordagem conservadora, privilegiando a correção em detrimento da invenção. Falta deslocamento, tensão e uma leitura crítica do material histórico. O resultado é uma performance cuidadosa, mas previsível, mais próxima de uma reconstituição do que de um gesto artístico contemporâneo.


Essa escolha não deve ser confundida com respeito à tradição. Trata-se, antes, de uma recusa ao risco. E, em arte, recusar o risco compromete diretamente a relevância da obra. Quando não é tensionada, a tradição se reduz a ornamento. E ornamento não sustenta discurso.



No segundo momento da noite, Zeca Veloso revela outra fragilidade: a dificuldade de afirmar uma identidade própria diante de um capital simbólico já consolidado. A presença indireta de Caetano Veloso não é apenas contextual; ela estrutura o espetáculo. Abrir com repertório associado ao pai não estabelece diálogo, mas dependência. O show não consegue ultrapassar esse ponto de partida.


“Boas novas” carece de unidade. A alternância entre composições autorais e repertório alheio não constrói uma narrativa coesa; fragmenta o percurso. Falta uma direção clara, seja estética, seja dramatúrgica, que organize o espetáculo. O que se apresenta é uma sequência de momentos competentes, porém desconectados de um projeto artístico consistente.


A performance cênica, frequentemente descrita como espontânea, revela-se calculada e superficial sob um olhar mais atento. Gestos recorrentes, bordões e movimentações não chegam a configurar uma linguagem própria; funcionam como efeitos imediatos. Sem coerência interna, acabam se reduzindo a adereços.


A chamada big band, que poderia expandir o horizonte sonoro do show, é pouco explorada. Músicos como Lucca Noacco atuam de forma funcional, sem protagonismo ou maior elaboração nos arranjos. A densidade sonora prometida não se concretiza como proposta estética; limita-se a reforçar o que já está dado.



O saldo é um espetáculo tecnicamente sólido, mas artisticamente insuficiente. Falta risco, falta posicionamento, falta conflito. Sem esses elementos, a experiência se esgota no imediato. Não deixa marcas. Não provoca desdobramentos.


A arte que não se arrisca não avança. E o que não avança, inevitavelmente, se repete.



A noite de abertura do Queremos! : Gabriele Leite & Zeca Veloso - Teatro Carlos Gomes/RJ


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