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A Última Ata - espetáculo de terror e metodicamente perverso

Atualizado: 11 de out. de 2023

Estilete bisturi de precisão pronto para dissecar a mente do espectador

resenha: psales e msenna



Um espetáculo de terror e metodicamente perverso que nos remete a um atual tendencioso quadro de atentado contra o Estado Democrático de Direito.


O texto, de autoria do ator, dramaturgo e roteirista norte-americano Tracy Letts, escrito em 2017, projeta-se na plateia como um estilete bisturi de precisão pronto para dissecar a mente do espectador esclarecido politicamente, em busca de suas coerentes linhas de raciocínio, e se instala em meio ao público adepto às mensagens de fácil assimilação e da busca por uma gargalhada custe o que custar, como uma lâmina de guilhotina em queda livre, pronta a separar do corpo de uma mente com função zero a esquerda.


As palavras que materializam o negacionismo histórico são traduzidas cruelmente por José Pedro Peter promovendo uma versão tupiniquim de farsas estadunidenses em meio à fictícia cidade interiorana cognominada Cerejeiras – cenário geográfico do espetáculo ‘A Última Ata”.


Victor Garcia Peralta assume a direção do espetáculo definindo a dramatização segundo um comportamental cívico macabro, digno de reuniões ministeriais a exemplo de fatos atuais familiares a todos os brasileiros esclarecidos e que não fazem parte de rebanhos adoradores de falsos messias e que se qualificam guardiões da família, dos bons costumes e tementes a Deus.


A imersão da plateia na perturbadora mente de Letts é potencializada pela tresloucada atuação do elenco – composto por Alexandre Dantas, Alexandre Varella, Analu Prestes, Ary Coslov, Débora Figueiredo, Dedina Bernardelli, Leonardo Netto, Marcelo Aquino, Mário Borges, Roberto Frota e Thiago Justino – capaz de saciar a plateia com um desempenho que tangencia a ilusão que se faz necessária para a sobrevivência e proteção de muitos dentre os espectadores, que não só desfrutam a dramaturgia exercitada na sala de espetáculos, mas levam consigo a garantia de sua existência na sociedade como seres pensantes e multiplicadores de opinião.


O cenário assinado por Julia Deccache define um plenário com pano de fundo infinito negro, trazendo para um primeiro plano peças de mobiliário sem qualquer compromisso com identidade visual ou padronização – coerentemente com as repartições de municípios com restrições de verba pública - que acomodam seus respectivos usuários. Possivelmente, em comum acordo com Peralta, a cenógrafa explora o potencial da sala de espetáculos e ambos quebram a quarta parede e expande os limites da plenária fazendo dos espectadores figurantes de uma silenciosa não participativa e ineficaz audiência pública, repleta de questionamentos e argumentos pavorosos por parte dos representantes legislativos de Cerejeiras.


Os absurdos fictícios atrelados ao humor ácido de Letts só não se destacam em meio à bem construída solidificação das personagens de caráter impreciso, compostas por figurinos típicos de políticos inabalavelmente amorais, de estilo e gosto duvidosos, assinados conscientemente por Tiago Ribeiro.


A dramaticidade angustiante contida na ficção que retrata a vida como ela está, em meio a armadilhas civilmente genéricas costuradas em discursos intermináveis, é potencializada pelo o desenho de luz de Ana Luzia de Simoni que ilustra a falta de recursos das instalações públicas, denunciando a precariedade das instalações elétricas que o patrimônio que a todos pertence é relegado, sujeitas a oscilações de energia. O quadro deplorável durante a plenária é agravado pela intensa chuva sugerida pela sonoplastia por Andréa Zeni, que remete os espectadores a cenas de filmes de terror, deixando a tribuna refém de goteiras que não teriam sido possíveis serem retratadas e percebidas pelo público, não fosse o pontual efeito luminotécnico cênico.


Contudo, os ares de terror não devem atribuídos exclusivamente aos recursos cênicos, mas à essência do texto de Letts, repleto de ‘boas intenções’ dos mandatários de Cerejeiras, ares esses que se alternam com o terrir provocando toda sorte de reação que invoca constatação e repúdio por parte do espectador.


Ao expor as manhas da ilusão patriótica e provocar a cegueira da verdade, "A Última Ata” enterra, sem dó nem piedade, qualquer tipo de senso crítico sobre o que é melhor para cada um dos espectadores ou para o país em que vivemos, restando, nada mais nada menos, do que achar uma graça piedosa de cada um de nós.

 

Teatro das Artes - Shopping da Gávea

Temporada: até 13 de Novembro de 2022 Horários: Sextas e Sábados às 21h e Domingos às 20h Ingressos: sexta (R$ 80) Sábado e Domingo (R$ 90) Duração: 90 min Classificação Indicativa: 12 anos

 

Texto: Tracy Letts

Tradução: José Pedro Peter

Direção: Victor Garcia Peralta

Elenco: Alexandre Dantas, Alexandre Varella, Analu Prestes, Ary Coslov, Débora Figueiredo, Dedina Bernardelli, Leonardo Netto, Marcelo Aquino, Mario Borges, Roberto Frota e Thiago Justino

Produção artística: José Pedro Peter e Marcéu Pierrotti

Cenário: Julia Deccache

Figurinos: Tiago Ribeiro

Iluminação: Ana Luzia de Simoni

Sonoplastia: Andréa Zeni

Fotos: Cristina Granato

Assessoria de imprensa: Barata Comunicação e Dobbs Scarpa

Direção de produção: CultConsult e Escudero Produções


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