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Manual Prático da Vingança Lucrativa: Sátira elegante sobre herdeiros, ambição e crime corporativo

Ambição estética e desejo de filiação a uma tradição sofisticada de humor macabro

Manual Prático da Vingança Lucrativa: Sátira elegante sobre herdeiros, ambição e crime corporativo

A inspiração em Kind Hearts and Coronets, dirigido por Robert Hamer e conhecido no Brasil como As Oito Vítimas, revela ambição estética e desejo de filiação a uma tradição sofisticada de humor macabro. No entanto, a transposição da aristocracia britânica para uma Nova York contemporânea filmada na Cidade do Cabo cria um efeito curioso de deslocamento. A cidade é visualmente atraente, mas artificial, como se fosse uma réplica cuidadosamente iluminada de si mesma. Essa artificialidade dialoga, ainda que involuntariamente, com o próprio tema do filme: uma elite cuja identidade é construída como performance.


O diretor, que demonstrou tensão moral e senso de urgência em Emily the Criminal, opta aqui por uma abordagem mais estilizada. A premissa é provocativa: transformar a eliminação de herdeiros em estratégia de ascensão social. Contudo, a crítica à elite econômica permanece na superfície. O filme denuncia a vulgaridade moral dos ricos ao mesmo tempo em que os envolve em figurinos elegantes e enquadramentos sedutores, o que enfraquece o impacto satírico.


Glen Powell constrói um protagonista movido menos por loucura e mais por ressentimento calculado. Diferentemente do carisma ambíguo que exibiu em Hit Man - Assassino por Acaso, aqui interpreta um herdeiro que transforma frustração em projeto de carreira. Sua transição para o crime não assume contornos trágicos ou perturbadores; assemelha-se mais a uma decisão corporativa cuidadosamente racionalizada. A frieza do personagem é coerente com a proposta, mas carece de camadas psicológicas que aprofundem sua complexidade.


Margaret Qualley surge como presença magnética e levemente deslocada, como se orbitasse uma produção mais refinada. Sua atuação adiciona elegância e ambiguidade moral, ainda que o roteiro não explore plenamente seu potencial dramático.


Topher Grace compreende o absurdo de seu papel e o executa com precisão contida. Seu personagem funciona como caricatura da elite espiritualizada e financeiramente oportunista, mas evita o exagero gratuito, o que preserva a eficácia cômica.


As comparações com The Menu e Knives Out são inevitáveis, sobretudo pela combinação de sátira social e mortes encadeadas. Ainda assim, Manual Prático da Vingança Lucrativa adota um tom menos corrosivo. A lâmina não corta com violência; opera com ironia moderada. O humor é seco, consciente e por vezes elegante, mas raramente devastador.


O mérito central da obra reside em não romantizar seu protagonista. Ele não é um gênio do mal nem um visionário perverso. É um homem comum que converte frustração em cálculo estratégico. Essa banalização do mal é, talvez, o comentário mais incisivo do filme.


No conjunto, a obra configura uma sátira sobre herdeiros que tratam trauma como capital simbólico. Não é revolucionária, tampouco definitiva dentro do gênero, mas revela controle tonal e consciência estética suficientes para sustentar seu projeto.


Em um cenário cultural no qual riqueza e moralidade frequentemente se confundem com performance, acompanhar um protagonista que transforma homicídio em plano de sucessão corporativa possui um valor cômico inquietante. O filme pode não atingir a sofisticação de seus modelos declarados, mas demonstra ambição, identidade e coerência suficientes para justificar sua existência.


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