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"Folhetim" de César Augusto de Carvalho - Literatura inteligente e prosa contida

Elegante e funcional

Folhetim

Folhetim de César Augusto de Carvalho - Literatura inteligente e prosa contida


Folhetim, de César Augusto de Carvalho, é aquele tipo de livro de prosa limpa, elegante e funcional. Não tem gordura, não tem firula, não tem metáfora pedindo aplauso. É uma escrita que parece ter feito terapia e sabe exatamente o que sente. Funciona? Funciona. Mas, às vezes, dá vontade de sacudir o autor pelos ombros e dizer: “César, meu filho, você pode exagerar um pouquinho. Ninguém vai te multar por isso.”


O ritmo narrativo é um dos grandes trunfos do livro. César escreve como quem editou muito vídeo: entra na cena, corta antes de cansar, sai sem pedir desculpa. É literatura com timing de comédia, aquela que sabe que a pausa certa vale mais do que a piada explicada. Em alguns contos, porém, esse domínio do ritmo é tão preciso que parece ensaiado demais. Falta, aqui e ali, o tropeço constrangedor que vira memória.


Os temas são conhecidos: escritores em crise, sempre eles, decadência, desejo inexplicável, ambientes culturais povoados por gente interessante e insuportável ao mesmo tempo. Ou seja, qualquer festival literário depois do segundo chope. Flipando em Paraty acerta justamente por não romantizar esse universo. O glamour é desmontado com ironia, como quem diz “sim, tem poesia, mas também tem fila, egos inflados e alguém falando alto sobre um livro que claramente não leu”.


Já A Ameaça flerta com o policial e com o delírio autorreferente do escritor que vira refém da própria imaginação. É eficaz, atmosférico, bem conduzido. Ainda assim, caminha perigosamente perto daquele subgênero clássico e saturado: o autor explicando, mais uma vez, como é difícil ser autor. César se salva porque escreve bem, o que não é pouco, mas o clichê ronda o conto como um personagem indeciso parado na esquina, esperando só mais um empurrão para entrar em cena.


As referências estão todas ali, educadamente sentadas na primeira fila. Nada é mal assimilado; tudo funciona. Mas tudo funciona bem demais. É como um aluno brilhante que fez exatamente o que o professor pediu e o professor fica orgulhoso, mas não exatamente surpreso.


O maior mérito de Folhetim talvez seja sua recusa em virar espetáculo. Num mercado que exige impacto, trauma, redenção e hashtag, o livro escolhe falar baixo. Isso é bonito, maduro e raro. Mas também levanta uma pergunta incômoda, que o próprio livro parece evitar. Falar baixo é sempre uma escolha estética ou às vezes é apenas uma forma elegante de não incomodar?


No fim, Folhetim é um livro inteligente, bem escrito e honesto. Não promete mudar a vida do leitor, não tenta parecer mais profundo do que é e não acha que o leitor é burro, o que, convenhamos, já coloca César Augusto de Carvalho acima da média nacional. Falta-lhe talvez um pouco mais de descontrole, um passo em falso consciente, a coragem de falhar feio em vez de acertar bonito.


É uma ótima leitura.


Mas deixa a sensação de que o autor ainda está guardando o melhor argumento e talvez o maior risco para um próximo livro.


LIVRO

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