Nova Salém: Livro 1, de Ketelyn K. De fanfiction a feitiço editorial
- circuitogeral

- 16 de jan.
- 3 min de leitura
É fantasia urbana? Sim. Romance sobrenatural? Também. Mas, acima de tudo, é a prova de que histórias nascidas no caos digital podem atravessar o portal e se sustentar no mundo editorial

“Nova Salém” chega ao mercado com a tranquilidade de quem já sobreviveu ao julgamento popular e, convenhamos, ao mais implacável dos tribunais literários: o Wattpad. Com mais de um milhão de leituras acumuladas, o livro não se apresenta com timidez. Ele entra sem pedir licença, ocupa espaço, exibe capa dura, brindes colecionáveis e ainda deixa no ar um leve cheiro de incenso literário. É fantasia urbana? Sim. Romance sobrenatural? Também. Mas, acima de tudo, é a prova de que histórias nascidas no caos digital podem atravessar o portal e se sustentar no mundo editorial, funcionando tão bem quanto um feitiço finalmente executado fora do grimório.
Ketelyn K. lida com clichês como quem conhece profundamente o risco que eles oferecem. Nada aqui é inocente. Bruxos atormentados, rivalidades familiares, amores proibidos e visões proféticas estão todos presentes, mas rearranjados com cuidado, como peças de um tabuleiro que exige estratégia, não sorte. A autora não reinventa o gênero, e nem tenta. Em vez disso, aposta no reconhecimento. O resultado é familiar, mas nunca preguiçoso, como revisitar uma cidade onde você nunca morou, mas tem a estranha certeza de já ter vivido algo importante.
Prince Evenmort é um protagonista moldado pelo peso do destino e por uma boa dose de exaustão emocional. Seus pesadelos não funcionam como simples recurso narrativo. Eles anunciam. São trailers de tragédias futuras, insistentes como notificações que você sabe que deveria ignorar, mas não consegue. Jei Magnus surge como o centro gravitacional da história. Ele é o rosto recorrente do sonho, o afogamento anunciado, o amor que chega como maré alta: impressiona à distância, domina na aproximação e ameaça quando finalmente envolve. O romance entre os dois não acontece de forma abrupta. Ele se infiltra. Primeiro como dúvida, depois como medo e, por fim, como algo inevitável, semelhante à água gelada que invade os pulmões quando já não há mais caminho de volta.
A ambientação de “Nova Salém” merece destaque. A cidade não serve apenas de cenário; ela participa. Observa, vigia e cobra. Cada lago, cada segredo ancestral e cada sobrenome marcado por rancores antigos reforçam a sensação de que ninguém ali está realmente seguro, nem mesmo o leitor. Avançar pela narrativa é como caminhar por uma rua coberta de neblina, ciente de que algo vai saltar a qualquer momento, mas seguindo em frente porque a curiosidade insiste em ser mais forte do que o instinto de sobrevivência.
“Nova Salém” não pretende ser a grande revolução da literatura fantástica brasileira, e essa consciência é uma de suas maiores qualidades. O livro sabe exatamente o que oferece. Entrega uma história intensa, emocionalmente carregada e com representatividade LGBTQIA+ integrada ao enredo de forma orgânica, sem discurso didático ou apelo oportunista. Há conforto aqui, mas também risco. É o tipo de leitura que acolhe e ameaça na mesma medida, como um feitiço bonito que você sabe que não deveria lançar, mas lança mesmo assim.
No fim, a obra reafirma algo que o mercado ainda reluta em admitir. A literatura contemporânea não nasce apenas em mesas silenciosas ou cafés conceituais. Ela surge em comentários, capítulos semanais, surtos coletivos e leitores apaixonados. “Nova Salém” é a materialização desse percurso: uma história que saiu do digital levemente tonta, consideravelmente mais poderosa e plenamente consciente de que o mundo real também pode ser encantado.








Comentários