Um Jardim para Tchekhov: Entre Reverência e Risco
- circuitogeral

- há 7 horas
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Em certos momentos, o texto parece mais empenhado em honrar a tradição do que em tensioná-la

Um Jardim para Tchekhov: Entre Reverência e Risco
Em Um jardim para Tchekhov, Pedro Brício faz algo que exige coragem, repertório e uma certa tendência ao flerte com o perigo: resolve conversar com Anton Tchekhov como quem chama Dostoiévski para um café e diz “vamos trocar uma ideia”. Não é pouca coisa. É como abrir um restaurante ao lado da casa da sua avó italiana e anunciar que agora você vai ensinar o que é molho.
A referência óbvia, e inevitável, é O Jardim das Cerejeiras. O jardim, ali, não é paisagem bucólica; é um testamento imobiliário emocional. É o equivalente dramático de perder o Wi-Fi no meio da reunião mais importante da sua vida: ninguém morre, mas todo mundo entra em pânico existencial. Brício entende isso. Ele sabe que Tchekhov não escreve sobre acontecimentos; escreve sobre a incapacidade humana de reagir a eles. O drama está na hesitação, no atraso, no “depois eu vejo”.
E aqui começa o ponto delicado. Brício respeita tanto o silêncio tchekhoviano que às vezes parece pedir licença para cada pausa. Há silêncios que são abismos; outros são como elevadores parados entre andares. Você sente que algo devia acontecer, mas só escuta o próprio constrangimento. O minimalismo funciona quando é tensão comprimida. Quando vira apenas contenção estética, lembra prato de alta gastronomia que chega com três folhas estrategicamente dispostas e o garçom dizendo “é uma experiência”. Sim, é. Mas ainda é salada.
O mérito é claro. Não há concessão ao gosto fácil. Nenhuma tentativa de atualizar Tchekhov com piadinhas meta ou piscadelas contemporâneas. Brício não coloca os personagens reclamando do algoritmo nem pedindo delivery emocional. Ele mantém a integridade formal. Isso é raro. E admirável.
Mas admiração não é imunidade crítica.
Porque a ambição aqui é nobre, dialogar com o cânone sem ironizá-lo, porém a ousadia é moderada. É como herdar um casarão histórico e decidir reformar só a pintura. Fica bonito, elegante, coerente. Só que a estrutura continua a mesma. Em certos momentos, o texto parece mais empenhado em honrar a tradição do que em tensioná-la. E tradição sem fricção vira porcelana, valiosa, mas intocável.
Há inteligência. Há repertório. Há controle técnico. O que falta é aquela decisão meio irresponsável que faz a obra sair do lugar comum culto e entrar na zona de risco. Porque Tchekhov não é apenas melancolia; é dinamite emocional camuflada de chá da tarde. Quando essa dinamite não explode, sobra apenas o serviço de chá.
No contexto literário brasileiro, Um jardim para Tchekhov ocupa um lugar curioso. Não é experimental o suficiente para chocar, nem comercial o suficiente para seduzir massas. É literatura de conversa longa, de leitor atento, de gente que gosta de subtexto como quem aprecia vinho seco.
Não é para todos, mas também não quer ser.
E talvez aí esteja sua força e sua limitação. É uma obra madura, consciente, elegante. Mas elegância, sozinha, não faz terremoto. Faz reverência.
Pedro Brício cultiva o jardim com mãos firmes e respeito histórico. O solo é fértil, as flores estão alinhadas, a poda é precisa. Só falta alguém arrancar uma árvore pela raiz para ver se o chão aguenta.
Porque, no fim, a grande pergunta não é se o jardim floresce. É se ele desestabiliza quem o atravessa. Literatura memorável não é aquela que você contempla. É aquela que muda a paisagem interna depois que você vai embora.




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