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Araá: quando a paisagem assume o fogão

Quando o entorno é grandioso, a cozinha corre o risco de se tornar coadjuvante

Araá

Araá: quando a paisagem assume o fogão


No alto do Morro da Urca, o Araá ocupa um dos endereços mais privilegiados do Rio de Janeiro. A vista é tão ampla quanto definitiva: mar, cidade e montanha se impõem antes mesmo do primeiro pedido. É um cenário que seduz instantaneamente e, talvez por isso mesmo, cria uma armadilha comum a restaurantes em locais extraordinários. Quando o entorno é grandioso, a cozinha corre o risco de se tornar coadjuvante.


No Araá, esse risco se confirma.


Desde a chegada, o ambiente resolve quase tudo. A iluminação suave, o desenho do espaço e, sobretudo, a paisagem funcionam como um prólogo eficiente. O problema é que, quando o espetáculo visual se encerra, a comida raramente consegue sustentar o mesmo nível de interesse. A experiência depende mais do que se vê do que do que se prova.


A proposta declarada é clara: celebrar a brasilidade por meio de releituras contemporâneas. O discurso é bem articulado, recheado de referências afetivas e ingredientes nacionais. Falta, porém, tradução no prato. Ideia não substitui tempero, e conceito não garante sabor.


Araá

O Ceviche da Amazônia sintetiza bem essa distância entre intenção e resultado. O tucupi, anunciado como elemento central, surge tímido, diluído, sem acidez nem profundidade suficientes para estruturar o prato. O peixe, correto na textura, carece de frescor expressivo e não se conecta com os demais elementos. No paladar, tudo parece disperso, como se cada componente falasse uma língua diferente. O prato não é ruim, mas é protocolar. Encanta mais pela narrativa do que pela execução.


O mesmo padrão se repete em preparações mais familiares, como o picadinho de mignon e o bobó de camarão. São pratos tecnicamente seguros, reconhecíveis, confortáveis. O problema é justamente esse. As releituras não arriscam, não tensionam a memória, não oferecem fricção criativa. Falta aquele desconforto mínimo que justifica o rótulo de contemporâneo. O resultado é um conforto caro, que respeita o passado, mas não o reinventa.


Araá

Há uma sensação persistente de cautela excessiva. O Araá cozinha como quem teme desagradar. Em gastronomia autoral, esse medo costuma cobrar um preço alto. O sabor perde personalidade, a experiência perde identidade.

A política de preços deixa claro o posicionamento premium da casa. Ainda assim, a pergunta se impõe de forma quase inevitável: paga-se pela técnica ou pelo endereço? A resposta parece pender mais para a geografia do que para o rigor culinário. O valor da conta dialoga mais com o teleférico do que com a complexidade dos pratos.


A coquetelaria acompanha esse mesmo espírito. Correta, limpa, funcional. Mas também esquecível. Em um restaurante que se propõe a exaltar o imaginário brasileiro, os drinks carecem de ousadia, sotaque e afirmação. Cumprirem sua função não é o mesmo que marcar presença.


Araá

O Araá é um restaurante que impressiona pelo contexto e se sustenta pelo turismo. Agrada sem provocar, conforta sem instigar. É um lugar que rende fotos impecáveis, conversas animadas à mesa e uma lembrança gustativa surpreendentemente difusa no dia seguinte.


Não é um restaurante ruim. O que o torna frustrante é não ser tão bom quanto promete, nem tão alto quanto acredita estar. A vista é memorável. A cozinha, infelizmente, permanece abaixo da paisagem que a cerca.


Araá

fotos: divulgação

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