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Art Wall - "Dia e Noite em Escorpião", de Jarbas Lopes: O Cosmos, a Borracha e Outras Ilusões de Grandeza

há 8 minutos
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Treze metros de elásticos, algumas esferas e três décadas de pesquisa bastam para erguer um pequeno universo no corredor de um shopping. O empreendimento é ambicioso: transformar borrachas tensionadas em representação do cosmos e convencer o visitante de que, entre uma vitrine e outra, ele está a poucos centímetros de compreender os mistérios da existência. O infinito ganhou endereço comercial, ar-condicionado e vizinhança com as lojas de grife.


Em Dia e Noite em Escorpião, Jarbas Lopes organiza elásticos brancos e pretos numa trama que sugere conexões universais. As esferas evocam estrelas, as cores demarcam a alternância entre dia e noite, e o conjunto propõe uma reflexão sobre nossa posição no universo. A ideia é legítima. O problema começa quando a intenção filosófica parece receber mais crédito do que a experiência visual efetivamente oferece.


Integrante da série Pintura Elástica, desenvolvida desde os anos 1990, a instalação carrega o peso de uma pesquisa prolongada. Três décadas de trabalho merecem consideração, mas a longevidade de um procedimento não constitui, por si só, evidência de sua potência. Uma investigação artística precisa justificar sua continuidade pela capacidade de produzir novas percepções, e não simplesmente pela habilidade de repetir seus próprios princípios com a dignidade adquirida pelo tempo.


A substituição da pintura convencional por elásticos tensionados apresenta uma solução material interessante. O suporte ganha protagonismo, a superfície se abre ao espaço e a composição abandona a rigidez do quadro. Ainda assim, a novidade do procedimento não garante a complexidade do resultado. Transformar um material cotidiano em linguagem artística é uma operação conhecida; o desafio consiste em fazer com que essa transformação ultrapasse a curiosidade inicial e sustente uma experiência intelectualmente consistente.


A associação entre as esferas e os corpos celestes oferece ao público uma chave de leitura acessível. O branco representa o dia, o preto anuncia a noite, e a estrutura sugere uma rede de relações cósmicas. Tudo funciona com uma clareza admirável, quase didática. O universo, que passou bilhões de anos aperfeiçoando seus enigmas, aparece subitamente organizado por uma legenda bastante eficiente. Faltou combinar com os buracos negros, que costumam ser menos colaborativos.


A questão não é exigir que a arte explique a astronomia ou apresente soluções para os grandes dilemas humanos. Tampouco se espera que toda obra produza uma revelação transcendental capaz de justificar o preço do estacionamento. O que se pode exigir é que a ambição conceitual encontre correspondência na forma. Quando o discurso promete uma experiência cósmica, mas a percepção permanece dependente de associações previsíveis, a distância entre intenção e realização começa a chamar mais atenção do que a própria obra.


A instalação ganha interesse com a alteração dos elásticos brancos para pretos durante a exposição. A mudança introduz temporalidade e modifica a percepção do conjunto, impedindo que a composição permaneça inteiramente estática. A passagem do dia para a noite oferece uma dimensão performativa discreta, embora a solução carregue uma literalidade difícil de ignorar. O visitante acompanha a transformação cromática e compreende o mecanismo. Resta saber se compreendeu algo novo ou se apenas assistiu à demonstração prática de uma ideia previamente anunciada.


Mudar a aparência de uma obra não significa necessariamente ampliar seu pensamento. A operação pode produzir deslocamentos sensíveis, instaurar ambiguidades e alterar relações espaciais. Também pode limitar-se à execução de uma metáfora. Em Dia e Noite em Escorpião, a troca de cores parece oscilar entre essas possibilidades, sem que a transformação material alcance, com a mesma clareza, uma transformação conceitual. A noite chega, pontualmente. A revelação, nem tanto.


Art Wall

O local da exposição acrescenta outra camada de contradição. Um shopping de luxo oferece a instalação como oportunidade de aproximação entre arte e vida cotidiana, defendendo a convivência entre cultura, circulação pública e consumo. A iniciativa tem méritos concretos: amplia o acesso, retira a obra do ambiente tradicional das galerias e permite encontros inesperados com a produção artística. Seria injusto desprezar essas vantagens apenas porque o cenário vende bolsas que custam mais do que muitos salários mensais.


A ironia está na facilidade com que a presença da arte se converte em argumento de distinção institucional. O espaço comercial adquire uma aparência mais sensível, o público recebe uma experiência cultural e a administração ganha uma narrativa sofisticada sobre seu compromisso com a sociedade. Todos saem aparentemente enriquecidos, inclusive o departamento de marketing. A arte, porém, não deveria ser reduzida à função de decorar a reputação de quem a abriga.


Essa ambiguidade não desqualifica automaticamente a exposição. A arte pode ocupar ambientes comerciais sem se submeter integralmente à lógica do consumo. Para isso, precisa preservar alguma autonomia crítica, criando experiências que resistam à transformação em cenário fotogênico ou certificado de bom gosto. Uma instalação não perde sua legitimidade por estar cercada de vitrines, mas tampouco adquire profundidade pelo simples contraste entre o comércio e a contemplação.


O mérito de Dia e Noite em Escorpião está na simplicidade construtiva, na ocupação do espaço e na possibilidade de acompanhar uma composição em transformação. Suas limitações aparecem quando a dimensão cósmica depende de símbolos excessivamente diretos e quando a retórica da universalidade parece resolver, antes da experiência, aquilo que deveria permanecer em aberto. A obra apresenta uma estrutura visual compreensível, mas nem sempre consegue converter essa compreensão em inquietação duradoura.


Talvez o universo não precise de mais uma representação feita de linhas, esferas e contrastes cromáticos. Precisa, pelo menos no território da arte, de uma abordagem que faça essas formas produzirem algo além da identificação imediata com estrelas, conexões e ciclos naturais. O cosmos já oferece mistérios suficientes para dispensar ilustrações comportadas. A arte não tem obrigação de competir com a imensidão, mas pode evitar a tentação de domesticá-la.


Entre elásticos tensionados e consumidores apressados, a instalação acaba expondo uma questão mais interessante do que sua própria metáfora astronômica: a facilidade com que atribuímos profundidade a uma experiência quando ela vem acompanhada de um vocabulário grandioso. O infinito, afinal, é um conceito generoso. Cabe em quase qualquer lugar, aceita inúmeras interpretações e dificilmente aparece para reclamar de sua utilização.


Que os elásticos permaneçam esticados, portanto. O que não precisa continuar sob tensão é a paciência do público, obrigado a encontrar profundidade onde a obra nem sempre a produz. Uma experiência artística convincente não depende de nos informar que estamos diante do cosmos. Precisa criar condições para que o olhar descubra alguma coisa que não estava pronta na legenda, no título ou no texto de apresentação.


Quando isso não acontece, resta uma instalação visualmente organizada, conceitualmente acessível e cercada por uma promessa maior do que sua realização. O universo continua em expansão. A arte, por sua vez, não precisa ficar presa à órbita das próprias intenções. E o shopping pode continuar vendendo luxo, desde que não confunda a presença de algumas estrelas de borracha com a descoberta de uma nova galáxia do pensamento.


Art Wall - "Dia e Noite em Escorpião", de Jarbas Lopes: O Cosmos, a Borracha e Outras Ilusões de Grandeza


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