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As visitas - Uma ficção filosófica: Uma noite de filosofia, música e outras formas de espera

há 14 minutos
3 min de leitura

Existe uma certa vaidade em transformar uma porta aberta em acontecimento filosófico. Basta alguém atravessar uma soleira para que apareçam questões sobre identidade, alteridade, subjetividade, existência e, naturalmente, a necessidade de convencer o público de que está diante de algo extraordinário. As visitas - Uma ficção filosófica, primeira montagem teatral do grupo Filosofia & Arte, parte dessa operação: converter uma situação banal em investigação sobre aquilo que nos constitui e nos modifica. A premissa é interessante. O problema começa quando a obra parece tão encantada com a própria premissa que corre o risco de confundir profundidade com insistência.


Bia Antunes e Luame Cerqueira propõem que somos constituídos pelas visitas que recebemos: pessoas, afetos, lembranças, obras de arte, ideias e acontecimentos que atravessam nossa existência sem pedir autorização. É uma concepção reconhecível na tradição filosófica e bastante produtiva para o teatro. Afinal, a identidade humana está longe de ser uma peça de porcelana protegida numa cristaleira. Somos resultado de relações, circunstâncias e experiências. A questão é que descobrir essa condição não significa, automaticamente, produzir uma experiência teatral à altura dela. Uma ideia pode ser intelectualmente sedutora e cenicamente pouco surpreendente. A filosofia, infelizmente, não concede desconto na exigência artística.


O espetáculo reúne contos de Victor Giudice, Julio Cortázar, Miguel de Unamuno e F. Scott Fitzgerald, entrelaçados a textos autorais dos próprios criadores. A seleção revela ambição literária e interesse pelo fantástico como instrumento de perturbação do cotidiano. São autores capazes de transformar o familiar em território suspeito, deslocando a percepção do espectador sem precisar anunciar, a cada instante, que estão fazendo literatura fantástica. Essa escolha oferece material fértil à dramaturgia, mas impõe uma responsabilidade: fazer com que as referências deixem de funcionar como credenciais culturais e adquiram existência própria no palco. Conhecer bons escritores é uma qualidade; saber o que fazer com eles é outra.


As visitas - Uma ficção filosófica

A porta, elemento central da cenografia, concentra simbolicamente boa parte da proposta. É passagem, limite, possibilidade de invasão e promessa de transformação. Uma solução visual econômica, coerente com o argumento e suficientemente aberta para receber diferentes interpretações. Contudo, símbolos não fazem milagres. Uma porta pode representar a fronteira entre o conhecido e o desconhecido, mas não substitui a construção de conflitos, assim como uma janela não garante que exista alguma paisagem interessante do outro lado. O objeto cênico precisa participar de uma ação, produzir tensão, alterar relações. Caso contrário, corre o risco de passar a montagem inteira fazendo o trabalho conceitual que deveria caber ao teatro.


A opção por aproximar filosofia, literatura, atuação e música ao vivo também merece atenção. Christian Gazzetta, no bandoneon, e Jean Charnaux, no violão, participam da composição dramatúrgica, criando atmosferas e momentos contemplativos. A música, segundo a proposta dos realizadores, não funciona como mero acompanhamento. Pretende integrar a própria experiência narrativa. É uma decisão pertinente, sobretudo porque a sonoridade pode produzir estados de percepção que o discurso verbal não alcança. Mas existe uma diferença considerável entre criar uma atmosfera e prolongar uma atmosfera. A contemplação, quando não encontra contraponto, pode transformar-se em acomodação. O espectador não é obrigado a considerar profundo tudo aquilo que recebe uma melodia bonita.


A própria noção de visita oferece uma possibilidade dramatúrgica mais cruel do que aquela sugerida pela apresentação. Uma visita pode invadir, incomodar, destruir uma rotina, revelar segredos e obrigar o anfitrião a reconhecer que sua casa nunca esteve tão sob seu controle quanto imaginava. Pode ser desejada e, simultaneamente, insuportável. Pode transformar uma relação em conflito e uma convivência em ameaça. Essa dimensão menos conciliadora da experiência parece especialmente promissora para uma montagem que pretende investigar a instabilidade da identidade. Afinal, ser modificado não é necessariamente uma experiência edificante. Há encontros que enriquecem; outros deixam estragos. A arte não precisa tratar toda transformação como um presente embrulhado em papel filosófico.


O espectador não assina contrato de transformação ao comprar um ingresso. Pode sair inquieto, entediado, emocionado ou simplesmente interessado em jantar. A autonomia da recepção é parte da própria experiência artística, e exigir que ela corresponda à intenção autoral seria uma forma bastante autoritária de hospitalidade.


Afinal, uma visita não precisa anunciar sua importância antes de entrar, muito menos distribuir um programa explicativo sobre as transformações que pretende provocar. Ela simplesmente chega, ocupa o espaço e altera as condições de convivência. O teatro deveria fazer o mesmo. Se a montagem conseguir converter suas referências em conflito, suas metáforas em ação e suas ideias em experiência sensível, terá encontrado um motivo consistente para abrir a porta. Caso contrário, poderá oferecer ao público uma reunião bastante elegante de filosofia, literatura e música, na qual todos os convidados são ilustres, as conversas são inteligentes e ninguém se lembra exatamente de quem foi que entrou.


As visitas - Uma ficção filosófica: Uma noite de filosofia, música e outras formas de espera


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