top of page

O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado: Uma sátira que se perde na própria engrenagem

há 16 minutos
3 min de leitura

Por Paulo Sales


A ideia de submeter a criação artística a um departamento burocrático é suficientemente absurda para dispensar grandes esforços de imaginação. Michel Melamed, autor e diretor de O funcionário que pede para não ser identificado, parte dessa premissa para construir uma sátira ao sistema de validação da arte, às exigências do mercado e à crescente disposição dos artistas para adaptar o próprio trabalho às condições de sua sobrevivência. O problema começa quando a encenação parece tão fascinada pelos próprios mecanismos de invenção que perde de vista a necessidade de estabelecer uma comunicação mais efetiva com a plateia.


No fictício Setor de Registro e Produção de Obras Artísticas, uma funcionária incapaz de produzir qualquer criação original dedica-se a rejeitar os projetos alheios. A atividade, inicialmente burocrática, transforma-se em exercício de ressentimento e poder, até que a personagem encontra uma solução para sua esterilidade criativa: reunir todas as obras recusadas e produzir uma Obra de Arte Total. A metáfora é clara, assim como seu alvo. Editais, patrocinadores, algoritmos, critérios de produtividade e expectativas de consumo compõem uma engrenagem que frequentemente determina o que pode ou não chegar ao público.


O assunto oferece possibilidades satíricas consideráveis, sobretudo porque a classe artística conhece bem os constrangimentos que a peça pretende expor. Melamed, porém, prefere acumular jogos de palavras, associações, repetições e desvios de linguagem a desenvolver progressivamente as situações dramáticas. O resultado é uma dramaturgia de elaboração verbal ostensiva, que confunde, em diversos momentos, inventividade com profusão. A quantidade de estímulos não corresponde necessariamente à qualidade das ideias, e o espetáculo parece pouco interessado em estabelecer uma hierarquia entre seus achados.


A fragmentação da personagem em quatro intérpretes - Inez Viana, Simone Mazzer, Thalma de Freitas e Yasmin Gomlevsky - acompanha essa opção. Vestidas com figurinos de formas geométricas e proporções quase infantis, as atrizes compõem uma figura coletiva, alternando vozes, movimentos e registros interpretativos. A proposta tem coerência conceitual, mas a multiplicação da personagem nem sempre produz aprofundamento cênico. Em alguns momentos, a distribuição das funções parece obedecer mais ao desejo de variedade formal do que a uma necessidade propriamente dramatúrgica.


O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado

As quatro atrizes demonstram domínio vocal e disposição para o jogo, especialmente nas composições musicais à capela. As vozes funcionam como instrumentos, construindo ritmos, harmonias e efeitos sonoros sem recorrer ao acompanhamento convencional. A execução exige precisão e oferece alguns dos momentos mais interessantes da montagem. Ainda assim, a exploração musical sofre com a mesma tendência ao excesso que caracteriza o texto. Nem toda combinação vocal acrescenta uma dimensão expressiva à cena; algumas parecem existir pelo simples prazer de demonstrar possibilidades técnicas.


A direção de Melamed preserva a instabilidade como princípio de organização. A movimentação, os figurinos e a composição sonora procuram escapar de referências realistas, enquanto a narrativa avança por associações que exigem atenção constante. O problema é que o estranhamento, quando se converte em procedimento quase permanente, perde parte de sua capacidade de surpreender. A ausência de pausas e de uma progressão dramática mais definida torna a experiência irregular, com passagens em que a plateia acompanha o exercício formal sem encontrar razões suficientes para se envolver com o destino da personagem.


O humor também oscila. As referências às dificuldades de financiamento, à submissão aos editais e à necessidade de produzir conteúdos adequados às plataformas digitais são reconhecíveis e podem provocar identificação imediata. Outras piadas dependem de trocadilhos e associações cuja elaboração parece importar mais do que o efeito cômico propriamente dito. A sátira, que poderia alcançar maior contundência ao examinar as contradições do próprio meio teatral, por vezes se satisfaz com o reconhecimento de situações já conhecidas por seu público.


O funcionário que pede para não ser identificado tem intérpretes preparadas, uma pesquisa vocal consistente e uma premissa capaz de sustentar uma comédia de interesse. Falta, contudo, ao espetáculo uma seleção mais rigorosa de seus recursos. A recusa às convenções não constitui, por si só, uma linguagem teatral; a fragmentação não substitui a construção dramática, assim como o acúmulo de referências não assegura densidade ao pensamento. Ao tentar escapar de todos os mecanismos de aprovação, a montagem parece dispensar também alguns critérios elementares de composição.


A ironia é que uma peça dedicada a denunciar os filtros impostos à criação artística revela dificuldade em exercer o próprio filtro. Ao materializar tantas ideias em uma mesma estrutura, acaba tornando menos nítido aquilo que pretende defender. A liberdade criativa não exige que tudo seja aproveitado, e a imaginação também depende da capacidade de escolher, cortar e dar forma. É justamente essa disciplina que falta a uma montagem que, apesar do empenho de suas intérpretes, termina mais interessada em exibir sua inquietação do que em transformá-la em teatro plenamente realizado.


O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado: Uma sátira que se perde na própria engrenagem

Comentários


bottom of page