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E Se Fôssemos Baleias? - A Funcionária do Mês

há 11 minutos
4 min de leitura

“E Se Fôssemos Baleias?” parte de uma situação de trabalho marcada pela exaustão para alcançar uma questão mais profunda: o momento em que a pessoa deixa de perceber o próprio corpo como território de existência e passa a tratá-lo como instrumento de desempenho.


A rotina de uma trabalhadora de centro de distribuição, submetida a jornadas prolongadas, insônia e controle permanente, estabelece uma relação brutal entre tempo e produtividade. Cada hora precisa cumprir uma função. Cada limite físico representa uma interrupção. O corpo só adquire valor enquanto permanece disponível para produzir.


O sonho com uma baleia rompe essa lógica sem oferecer uma saída reconfortante. A imagem não funciona como simples símbolo de liberdade. Sua dimensão, seu silêncio e sua existência alheia à produtividade introduzem uma forma de presença que não encontra correspondência naquele ambiente.


Depois do sonho, alguma coisa se desloca. A personagem reage ao sistema que a submetia e perde o emprego. A ruptura, porém, não encerra a violência. A demissão é registrada, compartilhada e transformada em acontecimento público. O sofrimento individual passa a circular como imagem.


Essa passagem modifica a natureza da experiência. O corpo antes explorado pela produtividade torna-se objeto de consumo pela atenção. O sofrimento ganha valor quando pode ser visto, comentado e compartilhado. A exposição pública parece produzir reconhecimento, mas conserva uma lógica de apropriação.


A tecnologia aparece, portanto, menos como cenário do que como estrutura de funcionamento. O mesmo ambiente capaz de controlar o rendimento também oferece os meios para transformar a demissão em espetáculo. Produção e visibilidade pertencem a uma mesma economia de mensuração.


O aspecto mais perturbador está na interiorização desse mecanismo. Depois de submetida durante tanto tempo a critérios externos, a pessoa passa a carregar esses critérios consigo. O desempenho deixa de ser somente uma exigência profissional e começa a interferir na percepção de valor, identidade e pertencimento.


A baleia interrompe essa assimilação. Ela não trabalha, não demonstra eficiência, não precisa justificar seu tamanho. Sua existência não pode ser organizada segundo uma tabela de rendimento. Por isso, a imagem produz uma ruptura tão violenta: diante dela, a linguagem da produtividade revela seus próprios limites.


A transformação não conduz necessariamente à lucidez. Essa é uma das escolhas mais precisas da obra. Não existe uma passagem confortável da opressão para a consciência, seguida por alguma forma de emancipação. Existe desorientação. A antiga maneira de existir perde estabilidade antes que uma nova forma de compreensão possa surgir.


Esse deslocamento impede que o sofrimento seja convertido em aprendizado edificante. A experiência não precisa ensinar uma lição para possuir consequência. Ela pode simplesmente alterar a relação de alguém com o próprio corpo e com aquilo que anteriormente parecia suportável.


E Se Fôssemos Baleias?

A exposição pública acrescenta outra contradição. Quando a violência se torna visível, também se torna consumível. A audiência pode condenar o acontecimento e, simultaneamente, participar de sua transformação em conteúdo. A indignação não está necessariamente fora do mecanismo. Ela pode ser absorvida por ele.


O corpo permanece no centro dessa dinâmica. Primeiro, é submetido à disciplina do trabalho. Depois, torna-se imagem pública. Em ambos os casos, existe uma disputa pela possibilidade de determinar o que aquele corpo significa.


A obra também desconfia da necessidade de explicar completamente uma existência. Comportamentos precisam ser justificados. Sentimentos precisam ser nomeados. Identidades precisam apresentar coerência. Aquilo que escapa a essa exigência tende a provocar desconforto.


A baleia permanece justamente onde a explicação falha. Sua presença não depende de interpretação para adquirir dimensão. Ela não precisa converter sua existência em argumento. A imagem conserva uma opacidade que impede sua captura completa pelo discurso.


Essa opacidade alcança a própria personagem. Quanto mais sua experiência se afasta das categorias disponíveis, mais difícil se torna organizá-la em uma narrativa compreensível. A desorientação deixa de ser um defeito da experiência e passa a constituir parte dela.


A força da obra está nessa recusa em transformar ruptura em recompensa. A demissão não é libertação. A viralização não é reconhecimento genuíno. A transformação não produz automaticamente uma identidade mais autêntica. Cada deslocamento abre um problema diferente.


A lógica produtiva aparece, então, como algo maior que uma condição profissional. Ela determina maneiras de ocupar o tempo, administrar o corpo e avaliar o próprio valor. O controle mais eficiente não precisa permanecer visível quando o indivíduo aprende a reproduzi-lo sobre si mesmo.


Imaginar-se baleia significa imaginar uma existência que não precisa transformar sua dimensão em utilidade. A hipótese parece absurda porque confronta uma cultura acostumada a exigir justificativas até para aquilo que deveria ser elementar.


A obra permanece desconfortável porque não oferece uma resolução capaz de neutralizar essa tensão. Depois que a lógica do desempenho é percebida, torna-se difícil retornar à inocência anterior. O que antes parecia apenas rotina passa a revelar uma forma de controle.


A baleia permanece como o elemento que não se deixa domesticar por essa linguagem. Grande demais para a métrica, silenciosa demais para a explicação e alheia demais à produtividade, ela expõe a insuficiência de um sistema que só reconhece aquilo que consegue quantificar.


Quando a existência deixa de caber nesses critérios, não surge necessariamente uma resposta. Surge um vazio. E é justamente nesse vazio que a obra encontra sua dimensão mais incômoda: a possibilidade de que uma vida possua valor antes, durante e depois de qualquer desempenho que possa ser medido.


E Se Fôssemos Baleias? - A Funcionária do Mês


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