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Budah “Frequência Lunar”: A noite como espelho

Artistas costumam acreditar que a maturidade consiste em aperfeiçoar uma fórmula. Refinam a mesma voz, os mesmos gestos, a mesma persona, até que tudo funcione como um relógio suíço. O problema é que relógios também param. "Frequência Lunar", segundo álbum de Budah, parece nascer justamente da desconfiança de que permanecer reconhecível demais pode ser uma forma silenciosa de desaparecer.


Escutar o disco procurando uma narrativa perfeitamente organizada significa impor uma lógica que nunca pertenceu às boas madrugadas. A noite não evolui em linha reta. Ela oscila, recua, exagera, perde o controle e, algumas horas depois, recupera uma lucidez que o dia raramente oferece. O álbum absorve essa dinâmica sem transformá-la em conceito decorativo. A lua não funciona como um símbolo bonito pendurado na capa. Ela aparece como um estado de espírito que nunca permanece imóvel tempo suficiente para ser domesticado.


Budah compreende uma diferença que costuma separar artistas interessantes daqueles que apenas administram a própria carreira. Identidade não depende da permanência da forma. Depende da permanência do olhar. É possível trocar de cidade, de timbre, de ritmo e até de vocabulário sem que a assinatura desapareça. Algumas obras mudam de roupa; poucas mudam de pele. "Frequência Lunar" pertence à segunda categoria.


Depois de "Púrpura", havia um caminho previsível. Bastava aprofundar o R&B que já lhe rendia reconhecimento, lapidar pequenos detalhes e entregar ao público uma continuação confortável. Conforto, porém, costuma ser um luxo perigoso para quem trabalha com criação. Quanto mais uma fórmula funciona, maior a tentação de protegê-la. Budah faz algo muito mais raro. Abandona um terreno fértil antes que ele se transforme em paisagem.


Essa mudança não soa ansiosa nem obedece à necessidade quase compulsiva de provar versatilidade. Há artistas que trocam de gênero como quem troca de roupa diante de uma vitrine, esperando descobrir qual figurino produz mais aplausos. Aqui acontece outra coisa. As novas escolhas parecem surgir porque o repertório anterior já não comportava certas inquietações. A música cresce para acomodar uma personalidade que ficou grande demais para a moldura anterior.


Budah

A madrugada ocupa o centro dessa transformação. Não como cenário, mas como comportamento. Durante o dia quase todos negociam versões aceitáveis de si mesmos. Ajustam o tom de voz, controlam os impulsos, organizam a expressão do rosto. Quando a cidade diminui o ruído, sobra muito menos espaço para interpretação. É nesse instante que aparecem desejos inconvenientes, vaidades cuidadosamente escondidas, medos antigos e uma coragem que dificilmente suportaria a claridade do expediente. O disco parece interessado justamente nesse momento em que a máscara continua no rosto, mas já não convence nem quem a veste.


A produção acompanha essa lógica sem cair na tentação da limpeza absoluta. Douglas Moda, Iuri Rio Branco, Tibery, DONATTO, Larinhx, Iamlopess, Vitão, Lucas Vaz, DJ Caetano, AmandesNoBeat, André Nine, Calixto e The Sir! constroem uma arquitetura sonora onde pequenas asperezas permanecem intactas. O disco respira melhor por causa delas. O excesso de polimento produz um efeito curioso: elimina o erro, mas também elimina a temperatura. Música feita para atravessar a madrugada não deveria soar como um apartamento recém-decorado onde ninguém jamais se permitiu morar.


A direção musical assinada por Budah, Debby Freitas e Tibery demonstra segurança suficiente para resistir a outra armadilha frequente. Muitos álbuns conceituais sacrificam as canções para proteger a coerência do conceito. Aqui acontece o inverso. O conceito serve às músicas. Cada faixa encontra sua própria temperatura, acelera ou desacelera conforme exige o percurso emocional, enquanto uma atmosfera discreta mantém tudo ligado pelo mesmo pulso. A unidade nunca precisa anunciar sua presença. Ela simplesmente impede que o disco se desfaça.


As participações ampliam esse universo sem transformar o álbum numa vitrine de convidados ilustres. Pabllo Vittar entende perfeitamente que presença não depende de ocupar cada centímetro disponível da música. Algumas pessoas confundem protagonismo com excesso de luz. Outras compreendem que um foco bem direcionado ilumina muito mais do que todos os refletores ligados ao mesmo tempo. "VAMPIRA" encontra justamente esse equilíbrio. O encontro entre as duas artistas produz tensão, elegância e um tipo raro de cumplicidade, porque nenhuma delas parece interessada em vencer a outra.


IZA chega a "SALTO 15" com uma serenidade quase provocadora. Em tempos de interpretações cada vez mais infladas, impressiona ouvir alguém que sabe exatamente quanto precisa entregar e, principalmente, quanto pode guardar para si. Certos cantores imaginam que intensidade depende de volume. Ela demonstra que intensidade depende de precisão.


Duquesa, Tasha & Tracie, AJULIACOSTA, Vita e Franco e The Sir! reforçam uma impressão semelhante. Nenhuma participação parece escolhida para satisfazer planilhas de streaming ou alimentar conversas sobre algoritmos. Existe afinidade estética, mas também algo menos mensurável. Todos compreendem intuitivamente o universo em que estão entrando. Quando isso acontece, colaboração deixa de ser estratégia e passa a funcionar como linguagem.


"VIDA DE ARTISTA" talvez seja o gesto mais insolente do álbum, justamente porque recusa uma etiqueta que se tornou quase obrigatória. Espera-se que artistas bem-sucedidos demonstrem gratidão o tempo inteiro, como se prosperar exigisse um pedido permanente de desculpas. Budah prefere celebrar. Faz isso com ironia, humor e um certo prazer em ocupar espaços que durante muito tempo lhe disseram para observar de longe. Vaidade continua sendo um pecado imperdoável apenas quando aparece no corpo das mulheres. Nos homens, costuma receber nomes muito mais elegantes, como liderança, confiança ou visão.


Também chama atenção a maneira como Budah constrói sua feminilidade. Ela nunca endurece apenas para convencer alguém de que merece respeito, tampouco transforma vulnerabilidade em espetáculo emocional. A personalidade muda de temperatura ao longo das faixas sem provocar estranhamento. Arrogância, desejo, delicadeza, humor e introspecção deixam de competir entre si. Funcionam como humores de uma mesma mulher, e não como personagens convocadas para cumprir funções diferentes.


O álbum também resiste a uma expectativa cada vez mais comum na indústria. Tornou-se quase obrigatório explicar cada escolha artística antes mesmo que o público tenha tempo de escutá-la. Tudo precisa nascer acompanhado de manifesto, conceito, fio explicativo e legenda. "Frequência Lunar" prefere confiar que certas experiências continuam mais inteligentes quando permanecem parcialmente indecifráveis. O mistério não representa falta de clareza. Representa respeito pela inteligência de quem escuta.


Algumas transições poderiam assumir riscos ainda maiores. Em determinados momentos, a variedade de gêneros parece conter a própria ousadia, como se o disco recuasse um passo antes do precipício. Curiosamente, esse recuo produz mais curiosidade do que frustração. Obras excessivamente resolvidas costumam envelhecer depressa porque oferecem todas as respostas de uma só vez. As melhores permanecem inquietando o ouvinte muito depois do silêncio.


Budah entrega justamente essa sensação. Não a de uma artista que encontrou seu lugar definitivo, mas a de alguém que perdeu o interesse por lugares definitivos. Pessoas reais funcionam assim. Grandes discos também.


Budah “Frequência Lunar”: A noite como espelho


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