CASACOR Rio 2026 - Mente e Coração: A revolução da decoração: agora até o cheiro tem curadoria
Por Paulo Sales
Há algo profundamente engraçado numa mostra de decoração: você entra para conhecer casas onde, teoricamente, alguém deveria morar. Só que os moradores parecem pertencer a uma espécie que não derruba café, não esquece copo na sala, não acumula sacola de farmácia e jamais compra uma cadeira simplesmente porque achou bonita, mesmo sem saber onde colocá-la.
A CASACOR Rio 2026, instalada no Edifício Aliança da Bahia, no Centro, celebra 35 anos sob o tema “Mente e Coração”. É um título delicado para uma exposição em que a mente calcula o preço de uma poltrona enquanto o coração tenta justificar a compra pelo acabamento.
A proposta parte de uma transformação importante na ideia contemporânea de morar. A residência deixa de ser apenas um lugar para viver e passa a funcionar como um organismo multifuncional: precisa acolher, trabalhar, receber, cozinhar, descansar, estimular os sentidos, guardar memórias e oferecer experiências. Morar, aparentemente, deixou de ser suficiente.
Resta saber quando alguém vai projetar um ambiente dedicado exclusivamente à tarefa de pagar o condomínio.
Quatro espaços ajudam a entender essa tentativa de devolver alguma humanidade ao universo perfeitamente arrumado da decoração.
Em “Toda Infância”, Sophia Abraham Interiores cria um ambiente infantil de 45 m² integrado a um jardim.
É bonito, delicado e muito organizado. Portanto, possui uma relação bastante curiosa com a infância.
Criança de verdade não trabalha com composição cromática. Trabalha com obsessões. Um pedaço de papel pode ser mais valioso do que um brinquedo de três mil reais. Uma caixa de papelão pode virar nave espacial. Um objeto absolutamente inútil pode ganhar status de patrimônio histórico.
O mérito do projeto está justamente em não transformar a criança em acessório decorativo. O ambiente privilegia imaginação, movimento e contato com o jardim, permitindo que a experiência aconteça em vez de simplesmente apresentar uma versão plastificada da infância.
A criança provavelmente vai ignorar tudo e transformar a caixa de papelão em esconderijo.
E estará correta.
A Casa Glade, assinada por PN+ | Paula Neder Arquitetura, leva a experiência doméstica para além da visão. Madeira, arte, muxarabis, tecidos e paisagem compõem o cenário, enquanto a fragrância Chá Branco amplia a proposta até os guardanapos de linho, bordados com referências aos ingredientes do perfume.
É uma casa que não quer apenas ser vista. Quer ser cheirada.
A arquitetura chegou ao ponto em que não basta decidir o revestimento do banheiro. Agora é necessário estabelecer qual lembrança olfativa acompanhará a pessoa enquanto ela procura o sabonete.
A ideia, apesar do exagero que rende boas piadas, possui fundamento. Memória também se constrói pelo cheiro. Uma fragrância pode transportar alguém para uma casa, uma viagem, uma pessoa ou uma época com uma eficiência que nenhuma fotografia alcança.
O projeto compreende isso e transforma o aroma em parte da identidade espacial. O espaço deixa de ser apenas uma composição visual e passa a ser construído por camadas sensoriais: textura, temperatura, som, cheiro, luz e lembrança.
A sofisticação, porém, produz uma consequência curiosa. A casa passa a exigir manutenção de personalidade. Se o perfume acaba, será que o ambiente entra numa crise existencial?
A graça está justamente aí: por trás da elaboração cenográfica existe uma percepção bastante simples. Uma casa não é apenas aquilo que os olhos registram. Ela também é aquilo que o corpo sente e aquilo que a memória consegue guardar.
A Casa de Memórias, de Sebastian Gomez Arquitetura, parte de uma ideia simples, mas que contraria boa parte da lógica do consumo contemporâneo: uma casa não precisa apagar o próprio passado para continuar interessante.
Existe uma indústria inteira dedicada a convencer o proprietário de que sua sala está atrasada. A cadeira envelheceu. A luminária perdeu relevância. O sofá ficou datado. O piso já não conversa com ninguém.
Sebastian Gomez segue pelo caminho oposto e revisita o modernismo brasileiro por meio de materiais, proporções, vazios, texturas e cobogós curvos de madeira.
O cobogó funciona especialmente bem como imagem da memória. Ele separa sem isolar, permite enxergar sem revelar completamente e cria uma passagem filtrada entre os espaços.
É uma arquitetura que aceita a permanência sem confundi-la com imobilidade.
Isso é particularmente interessante numa época em que “novo” adquiriu uma espécie de superioridade moral, como se aquilo que acabou de sair da embalagem tivesse automaticamente mais valor do que aquilo que sobreviveu ao tempo.
Uma casa realmente habitada costuma carregar objetos sem currículo. Uma cadeira herdada. Uma mesa marcada. Um quadro torto. Uma luminária que ninguém mais fabrica. Um objeto cuja origem desapareceu, mas que continua ali porque alguém decidiu, há muitos anos, que ele pertencia à família.
É justamente essa dimensão que transforma uma casa em alguma coisa mais complexa do que uma composição bem resolvida.
“Casarão Senta, Teresa!”, de Paula Müller, ocupa 75 m² e reúne antiguidades, peças contemporâneas, madeira, preto, off-white, amarelo, ladrilho hidráulico e referências a Santa Teresa.
É uma tarefa ambiciosa: colocar a atmosfera de um bairro inteiro dentro de 75 m² sem transformar tudo numa loja de lembranças para turista.
O projeto utiliza “Samba do Avião”, de Tom Jobim, como referência conceitual e trabalha com ideias de chegada, retorno, pertencimento e memória.
O resultado interessa porque não depende apenas da caricatura carioca.
Não basta jogar cor, madeira e ladrilho hidráulico num ambiente e declarar que o Rio chegou.
A proposta procura algo mais difícil: a sensação de uma casa construída aos poucos, por pessoas que não receberam instruções sobre como combinar tudo.
E essa é justamente uma das diferenças entre uma residência real e uma fotografia de decoração.
Uma cadeira veio da casa da mãe. A mesa foi comprada em outra época. O quadro foi presente. O tapete não combina com nada, mas custou caro demais para ser retirado. A planta deveria ter morrido há cinco anos e continua viva por motivos desconhecidos.
É dessa desordem afetiva, e não da coerência estética, que muitas vezes nasce a identidade de uma casa.
Os quatro ambientes partem de caminhos diferentes, mas compartilham uma preocupação clara: recuperar alguma coisa que a decoração puramente visual deixou escapar.
A decoração contemporânea percebeu que ninguém deseja realmente comprar uma mesa. O desejo está naquilo que imaginamos que acontecerá ao redor dela.
A indústria do design descobriu que vender objetos é relativamente simples. Mais sofisticado é vender a sensação de quem teremos a chance de ser depois de comprá-los.
Por isso, cada ambiente precisa de uma narrativa. A cadeira precisa representar alguma coisa. O revestimento precisa transmitir alguma coisa. O lavabo precisa ter personalidade. Até o perfume precisa participar da história.
Há nisso uma espécie de paradoxo. Quanto mais a arquitetura tenta antecipar a experiência de morar, mais evidente fica aquilo que nenhum projeto consegue controlar: a vida.
Uma criança risca a parede. Uma visita senta no lugar errado. Uma toalha molhada aparece sobre a cama. O cachorro invade o ambiente cuidadosamente composto. Um objeto sem nenhuma relação estética com o restante da sala permanece ali durante quinze anos.
“Mente e Coração” funciona como tema porque traduz essa tensão com alguma precisão. A mente quer coerência, acabamento e proporção. O coração insiste naquela cadeira velha que deveria ter sido descartada em 2018.
A arquitetura contemporânea pode criar ambientes em que tudo parece finalmente resolvido.
A vida doméstica não tem essa obrigação.
Porque, depois da exposição, existe a casa verdadeira: louça na pia, brinquedo no chão, uma conta vencendo e uma cadeira ocupando há anos um lugar que ninguém sabe explicar.
Porque, diferente de uma peça de showroom, aquilo pertence à vida.
CASACOR Rio 2026: A casa em disputa na primeira semana
A primeira semana da CASACOR Rio 2026 recusa a condição confortável de simples desfile de interiores. A mostra constrói uma espécie de dramaturgia espacial na qual cada ambiente formula, por meio da matéria, da escala e da atmosfera, uma hipótese sobre o modo contemporâneo de habitar. O interesse desloca-se, assim, da aparência para a experiência, da composição para aquilo que permanece depois que o olhar deixa de procurar o detalhe fotogênico.
No CasaShopping Loft Travessia, assinado pelo Studio Claudio Pimenta e Patrícia Franco, a casa abandona qualquer pretensão de estabilidade. O loft assume a passagem como princípio espacial e transforma a ideia de abrigo em uma experiência de suspensão. Mostrar e ocultar, aproximar e preservar, expor e resguardar tornam-se operações simultâneas.
A sofisticação do projeto está menos na exuberância dos elementos do que na tentativa de submetê-los a uma lógica atmosférica. Cada escolha procura integrar uma narrativa espacial, evitando que o objeto se reduza à condição de adereço. Quando essa articulação se sustenta, a decoração deixa de funcionar como repertório visual e adquire densidade conceitual. Quando vacila, surge o problema recorrente da arquitetura cenográfica: a representação de uma vida cuidadosamente editada pode se sobrepor à própria possibilidade de vivê-la.
O Loft Pilotis Rafael Ramos Arquitetura desloca a discussão para outra dimensão. O pilotis, historicamente associado à dissolução dos limites convencionais entre arquitetura e cidade, reaparece como instrumento de exposição. O interior não se fecha diante do exterior. A cidade participa da experiência doméstica e impede que o conforto seja confundido com isolamento.
A abertura produz uma condição espacial particularmente interessante. Estar dentro deixa de significar afastar-se do mundo. A intimidade passa a depender de gradações, enquadramentos e distâncias, enquanto a proteção se constrói sem recorrer necessariamente ao confinamento. O conforto, consequentemente, deixa de ser uma soma de objetos agradáveis e passa a depender da inteligência com que o espaço organiza presença, circulação e percepção.
Os dois ambientes, embora partam de premissas distintas, aproximam a mostra de uma questão mais substantiva: que formas de vida a arquitetura contemporânea pretende acolher?
A pergunta desloca a atenção dos acabamentos para a experiência. Revestimentos, mobiliário, iluminação e soluções formais ganham relevância quando participam de uma concepção espacial consistente. Isolados, permanecem como vocabulário. Integrados a uma ideia de habitar, adquirem espessura.
A primeira semana da CASACOR Rio 2026 funciona, portanto, como um inventário de desejos contemporâneos. Alguns ambientes conquistam pela imediata sedução visual. Outros exigem permanência, deslocamento e uma segunda leitura. Essa diferença é fundamental porque a arquitetura não se completa na fotografia. Ela depende do corpo, do tempo e da percepção em movimento.
Um ambiente pode alcançar rigor compositivo, acabamento impecável e grande apelo visual sem produzir uma experiência memorável. A qualidade espacial começa a ser aferida quando a imagem deixa de comandar a percepção e a atmosfera assume seu lugar.
Depois da visita, desaparecem os enquadramentos convenientes, a busca pelo detalhe e a lógica instantânea da imagem. Permanece a impressão espacial, a memória do percurso, a sensação de ter habitado por alguns minutos uma determinada ideia de casa.
É nesse intervalo entre representação e experiência que a mostra encontra sua questão mais sofisticada. A arquitetura deixa de ser apenas aquilo que se contempla e passa a responder pelo tipo de vida que torna imaginável. A casa apresentada como cenário perde relevância diante daquela capaz de produzir uma experiência de habitação, ainda que temporária.
A CASACOR Rio 2026 ganha densidade justamente quando seus ambientes ultrapassam a condição de imagens desejáveis e começam a discutir, por meio do espaço, os hábitos, os limites e as expectativas que definem o morar contemporâneo.
CASACOR Rio de Janeiro 2026 | Mente e Coração: Arquitetura para pensar, sentir e viver
Razão sem sensibilidade é apenas cálculo. Sensibilidade sem inteligência pode ser apenas aparência. A 35ª edição da CASACOR Rio de Janeiro, intitulada “Mente e Coração”, propõe algo muito mais interessante: descobrir o que acontece quando pensamento e emoção deixam de disputar protagonismo e passam a construir, juntos, a experiência de habitar.
Em uma arquitetura cada vez mais atravessada por novas formas de viver, trabalhar, receber e ocupar os espaços, funcionalidade já não significa rigidez. Ambientes precisam acompanhar a vida, móveis podem assumir múltiplas funções e a flexibilidade passa a ser uma forma sofisticada de inteligência. Afinal, uma casa realmente contemporânea não deveria impor uma única maneira de viver, mas oferecer possibilidades.
Um espaço é acolhedor porque parece acolhedor ou porque realmente faz alguém se sentir pertencente? Entre materiais, objetos, memória, desejo e identidade, a arquitetura será convidada a ultrapassar a estética do bem estar para construir experiências que tenham significado.
Instalada em um edifício histórico, a mostra também colocará passado e futuro frente a frente. Preservar não significa congelar. Transformar não precisa significar apagar. O desafio está em saber o que merece permanecer, o que pode ganhar uma nova leitura e o que precisa abrir espaço para aquilo que ainda está por vir.
“Mente e Coração” chega para provocar, seduzir e, naturalmente, fazer pensar. Porque arquitetura não é apenas aquilo que vemos. É aquilo que organiza nossos gestos, desperta memórias, cria desejos e nos permite reconhecer um pouco de nós mesmos no espaço.
Edifício Aliança da Bahia, Rua Araújo Porto Alegre, no 36 - Centro
De 15/09 a 08/11/2026
CASACOR Rio 2026 - Mente e Coração: A revolução da decoração: agora até o cheiro tem curadoria





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