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Coyote: Quando a metáfora é feroz, mas não morde

Uma alegoria sobre solidão urbana

Coyote

Coyote: Quando a metáfora é feroz, mas não morde


Em uma metrópole onde o aluguel sobe, o salário não, e o algoritmo parece ter mais instinto do que as pessoas, dois jovens passam a esperar, noite após noite, a reaparição de um coiote na escadaria do prédio. Não é exatamente uma escolha racional. É uma tentativa de sentir alguma coisa.


Assim se estrutura Coyote: uma alegoria sobre solidão urbana, colapso ambiental e exaustão psíquica em tempos de hiperconectividade. A premissa é potente. Um animal selvagem invade o espaço urbano e interrompe a rotina de dois personagens emocionalmente esvaziados. A imagem é clara. A promessa é grande.


Dirigida e estrelada por Karen Coelho e Rodrigo Pandolfo, a peça aposta no realismo fantástico e no teatro do absurdo como linguagem. O mistério do animal sustenta a narrativa. Ele pode ser natureza insurgente, delírio compartilhado ou projeção do desejo de ruptura. A ambiguidade é um acerto. O problema não está na ideia, mas na consequência.


A presença do coiote reorganiza a rotina dos protagonistas. Eles se aproximam, criam cumplicidade, passam a esperar algo que rompa o ciclo mecânico da vida. No entanto, essa ruptura raramente se concretiza. O animal fascina, mas não ameaça. Sugere transformação, mas não impõe custo.


Falta risco.


Melinda trabalha de madrugada e vive no automático. Tony está desempregado e emocionalmente à deriva. A peça retrata com precisão a fadiga contemporânea. O diagnóstico é claro e reconhecível. Mas o teatro não vive apenas de diagnóstico. Vive de conflito.


O absurdo aqui é mais poético do que perturbador. Em vez de desestabilizar, ele emoldura. O espectador entende a crítica, reconhece a metáfora e acompanha a atmosfera. O que não acontece é o abalo.


Visualmente, o espetáculo é coeso. O cenário e o figurino constroem um espaço urbano rarefeito, suspenso entre concreto e delírio. A iluminação trabalha a expectativa com inteligência. A trilha e o movimento ampliam a sensação de que algo está prestes a acontecer. A engrenagem está montada. O mecanismo funciona.


Mas a explosão não vem.


A peça aborda colapso ambiental, precarização do trabalho e saúde mental. São temas urgentes. No entanto, urgência temática não equivale a urgência dramática. Para que a crítica deixe de ser conceito e se torne experiência, algo precisa ser perdido, quebrado ou atravessado sem retorno.


O coiote poderia ser ameaça concreta. Poderia provocar ruptura irreversível. Poderia expor violência, delírio ou destruição. Em vez disso, permanece principalmente como símbolo. Um símbolo bem construído, mas ainda protegido.


Coyote é consistente, sensível e formalmente alinhada. A imagem central é forte e a atmosfera é sustentada com rigor. O espetáculo questiona a relação entre humanidade e natureza com inteligência. O que falta é permitir que essa natureza deixe de ser contemplada e passe a agir.


Enquanto metáfora, é instigante. Como confronto, ainda hesita.


Se quer ser feroz, precisa aceitar ferir algo ou alguém.


Coiote

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