top of page

Cuidado Com o Que Deseja: Um Pesadelo Psicológico Entre Boas Ideias e Armadilhas Narrativas

há 2 horas
3 min de leitura

Por Paulo Sales


Cuidado Com o Que Deseja (La Silla), dirigido por Ángel de la Cruz, explora justamente a arrogância de quem acredita ter controle sobre a própria história, mesmo quando as escolhas já começaram a produzir consequências irreversíveis.


Daniel Lonces, interpretado por Jaime Lorente, é um escritor de terror em ascensão, celebrado pelo público e aparentemente realizado na vida pessoal. Instalado em uma casa nova com a esposa e o filho, ele desfruta do sucesso enquanto tenta ignorar os problemas que ameaçam sua reputação e sua estabilidade. Acusações relacionadas ao suicídio de um fã e as insistentes tentativas de contato da amante expõem as contradições de um homem empenhado em preservar a imagem que construiu. Daniel quer continuar admirado sem precisar encarar tudo o que suas atitudes revelam.


Quando a inspiração desaparece e o prazo para entregar seu próximo livro se aproxima, ele decide experimentar o desespero que pretende retratar na ficção. Com a ajuda da esposa, aceita ficar amarrado a uma cadeira durante duas horas, convencido de que a experiência poderá alimentar sua criatividade. A ideia, que inicialmente parece uma excentricidade inofensiva, logo se transforma em uma situação aterrorizante. Imobilizado, Daniel perde a capacidade de interferir nos acontecimentos e assiste, impotente, à ameaça de tudo aquilo que deveria proteger.


A ironia da situação é particularmente interessante. Acostumado a criar histórias e determinar o destino de seus personagens, o escritor se vê submetido a circunstâncias que não pode reescrever. A cadeira limita seus movimentos, mas também o confronta com a vulnerabilidade que ele julgava compreender intelectualmente. O sofrimento deixa de ser matéria-prima para a literatura e passa a exigir uma reação que seu corpo já não consegue oferecer.


Cuidado Com o Que Deseja

Ángel de la Cruz conduz boa parte do suspense com enquadramentos fechados, silêncios incômodos e ruídos que ampliam a sensação de ameaça. A ambientação doméstica, normalmente associada à segurança, adquire um caráter opressivo à medida que o perigo se aproxima. A direção compreende que o terror dessa premissa depende menos de grandes efeitos do que da percepção de que qualquer tentativa de recuperar o controle pode ser inútil.


O filme, contudo, não mantém a mesma precisão durante toda a narrativa. Algumas reviravoltas parecem calculadas para prolongar o suspense, enfraquecendo a naturalidade de determinadas situações. A premissa já oferece tensão suficiente para sustentar o interesse, mas a trama por vezes insiste em acumular conflitos quando poderia explorar melhor as implicações psicológicas do confinamento. O desfecho também recorre a ambiguidades que nem sempre enriquecem a experiência. Quando faltam elementos para compreender as motivações e a lógica dos acontecimentos, a incerteza corre o risco de parecer uma solução conveniente, em vez de uma escolha dramática consistente.


Ainda assim, Cuidado Com o Que Deseja apresenta uma reflexão pertinente sobre a diferença entre imaginar o sofrimento e experimentá-lo, além de questionar a pretensão de usufruir dos próprios desejos sem assumir seus custos. A cadeira se torna o instrumento de uma experiência que Daniel acreditava poder controlar, revelando os limites de sua autoconfiança e a fragilidade de uma vida sustentada por omissões.


O longa funciona melhor quando confia na tensão psicológica e nas contradições do protagonista. Apesar das inconsistências narrativas, oferece um suspense claustrofóbico que envolve o espectador e examina como a vaidade, a culpa e a necessidade de preservar aparências podem comprometer o julgamento. Daniel queria transformar o medo em arte, mas descobre que a realidade não oferece a mesma liberdade da ficção. Nem toda situação permite uma saída conveniente, e nem toda consequência pode ser contornada com uma boa justificativa.


A proposta tem mérito, a atuação principal sustenta o desconforto e a direção constrói uma atmosfera eficaz, embora o roteiro não explore todas as possibilidades que apresenta. É um filme recomendável para quem aprecia suspenses psicológicos centrados no confinamento e nas contradições humanas, sobretudo quando a ameaça externa se mistura à dificuldade de reconhecer os próprios erros. Afinal, preservar uma imagem impecável pode exigir muito mais esforço do que construí-la, especialmente quando a verdade começa a escapar do controle.


Cuidado Com o Que Deseja: Um Pesadelo Psicológico Entre Boas Ideias e Armadilhas Narrativas


Comentários


bottom of page