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d4vd “WITHERED” e a morte das versões que fomos

Existe uma coisa particularmente irritante nas histórias de amadurecimento: elas quase sempre tentam transformar sofrimento em sabedoria depois que o sofrimento já passou. Você perde alguém, sofre, muda, escreve algumas músicas e, quando percebe, aquilo que destruiu uma parte da sua vida virou “processo de crescimento”. É quase reconfortante. Quase.


Talvez seja por isso que WITHERED funcione melhor quando deixamos de tratá-lo como uma bela história sobre aceitar a passagem do tempo. O álbum parece interessado em algo menos confortável: o que acontece com uma pessoa quando uma parte importante da identidade construída ao lado de alguém deixa de existir.


Antes de existir para milhões de pessoas, d4vd existia em um quarto. Um espaço pequeno, silencioso e suficientemente isolado para que ninguém pudesse interferir entre uma sensação e a tentativa de transformá-la em música. Sem plateia, não há necessidade de parecer interessante. Sem reputação, não há necessidade de parecer consistente. Sem ninguém observando, você pode descobrir coisas sobre si mesmo que jamais admitiria em público.


Depois entram dinheiro, expectativa, relacionamentos, viagens, fãs, exposição e pessoas que passam a ter opiniões sobre uma versão sua que você mesmo ainda está tentando entender. A vida ganha dimensões que não cabem mais naquele quarto, mas isso não significa que a pessoa que existia ali tenha desaparecido. Ela continua presente, apenas soterrada por tudo aquilo que veio depois.


Em Petals to Thorns, a rosa ainda parece estar no território do florescimento: beleza, desejo, vulnerabilidade e espinhos. Em WITHERED, ela envelhece. As pétalas caem, a forma se altera, a flor deixa de ser aquilo que era. Nós preferimos chamar isso de amadurecimento porque a palavra “morte” continua sendo socialmente inconveniente, sobretudo quando estamos falando de sentimentos que um dia pareceram permanentes.


Esse é um dos erros mais infantis que cometemos sobre relacionamentos: acreditar que a duração determina a autenticidade. Como se o tempo pudesse funcionar como um certificado de validade emocional. Uma relação longa parece importante porque sobreviveu. Uma relação curta precisa justificar sua existência, como se algumas experiências precisassem durar anos para provar que foram reais.


A nossa cultura é obcecada pela permanência porque permanência parece uma prova. Se continuou, significou alguma coisa. Se acabou, começamos a procurar o momento em que tudo deu errado. Essa lógica transforma o término em uma espécie de tribunal retrospectivo, como se a existência de um fim pudesse invalidar tudo o que aconteceu antes dele.


O primeiro amor, por exemplo, não termina apenas quando duas pessoas se separam. Ele pode terminar quando você percebe que nunca mais terá aquele futuro imaginado. O relacionamento ainda pode existir na memória, mas a vida que você projetou dentro dele desapareceu.


Depois, esse mesmo amor termina outra vez quando uma música deixa de provocar a mesma dor. Termina quando você volta a um lugar que parecia pertencer àquela pessoa e descobre que a memória ocupa mais espaço do que ela ocupou. Termina quando você consegue contar uma história que antes não conseguia sequer lembrar sem sentir alguma coisa no corpo.


É nesse ponto que WITHERED começa a funcionar como uma autópsia da identidade. Uma autópsia não tenta ressuscitar aquilo que morreu. Ela examina o corpo depois do acontecimento, procurando entender o que mudou, o que permaneceu e em que momento a vida deixou de funcionar como antes. O álbum parece fazer algo semelhante com a pessoa que sobra depois de uma perda.


Quando alguém participa profundamente da nossa vida, essa pessoa passa a funcionar como um espelho. Ela não apenas nos vê. Também ajuda a definir como nos vemos. Há uma versão de nós que existe porque alguém a reconheceu, desejou, admirou, suportou ou simplesmente testemunhou sua existência durante tempo suficiente.


d4vd

O mundo, entretanto, tem a péssima mania de continuar funcionando quando a nossa vida interna está em ruínas. As pessoas continuam trabalhando, viajando, fazendo compras, respondendo mensagens, lançando músicas. O relógio não reconhece o tamanho das coisas que terminaram dentro de você.


Talvez essa seja uma das conexões mais interessantes entre a trajetória de d4vd e WITHERED. A pessoa que começou criando música em um quarto já não é suficiente para explicar a pessoa que veio depois. O mundo aumentou, a exposição aumentou, as experiências aumentaram, e aquilo que antes parecia suficiente para organizar uma identidade deixou de dar conta dela.


Você passa anos tentando escapar do quarto para descobrir o mundo e, depois de conhecer o mundo, percebe que algumas das coisas mais honestas que produziu estavam naquele quarto. A diferença é que você não retorna carregando a mesma pessoa. Volta com informações que não possuía quando saiu, com experiências que alteraram sua percepção e com a consciência de que aquele espaço nunca foi tão simples quanto parecia.


É como reler um diagnóstico depois de descobrir que a primeira hipótese estava errada. O documento é o mesmo. Você é quem mudou o suficiente para enxergá-lo de outra maneira.


Por isso, recuperar a intimidade das origens não significa reconstruir um estado perdido de pureza. Depois que você conhece o lado de fora, torna-se impossível romantizar completamente o lado de dentro. A experiência transforma até a lembrança daquilo que existia antes dela.


Nós fazemos isso o tempo inteiro com as nossas próprias vidas. Guardamos fotografias, músicas, lugares e conversas como pequenas provas de que determinada versão de nós ainda está em algum lugar. Revisitamos essas coisas esperando encontrar a sensação original, como se a memória fosse uma máquina capaz de devolver exatamente aquilo que registrou.


Você pode entender racionalmente que uma relação acabou e continuar emocionalmente negociando com ela durante anos. Pode saber que sua adolescência terminou e continuar tentando recuperar uma sensação que nunca mais existirá. Pode compreender perfeitamente que uma determinada pessoa ficou no passado e, ainda assim, sentir o corpo reagir antes que a razão consiga explicar por quê.


Por isso, talvez exista uma diferença importante entre uma história de superação e uma história de transformação. A primeira costuma imaginar um ponto final: você atravessa o sofrimento, aprende alguma coisa e chega do outro lado carregando uma versão melhor de si mesmo. A narrativa é bonita, organizada e profundamente conveniente.


A transformação é mais desagradável.


Você não necessariamente se torna alguém melhor. Torna-se alguém diferente, e isso não garante conforto. Algumas coisas que você perdeu continuam fazendo falta. Alguns nomes ainda produzem uma reação física antes que o cérebro tenha tempo de lembrar que já passou. Certas músicas continuam abrindo portas que você preferia manter fechadas.


Algumas perdas não precisam ser transformadas em lições imediatamente. Algumas versões de nós mesmos não precisam ser recuperadas. E algumas coisas podem simplesmente ter sido importantes, ter terminado e continuar fazendo parte da pessoa que ficou.


Talvez amadurecer seja suportar essa contradição sem tentar resolvê-la.


d4vd “WITHERED” e a morte das versões que fomos


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