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Depois Daquele Ano: A Série que Confunde Nostalgia com Profundidade

Há quem visite o passado como quem retorna ocasionalmente à antiga casa da infância. Outros assinam escritura definitiva. Trocam os móveis de lugar, restauram fotografias amareladas, cultivam o jardim e passam anos discutindo as rachaduras abertas por uma tempestade que já desapareceu do horizonte. Poucas obsessões alcançam um refinamento tão meticuloso quanto transformar uma desilusão amorosa em patrimônio histórico, voltando sempre ao mesmo terreno na esperança de descobrir um vestígio capaz de alterar toda a interpretação anterior. Depois de incontáveis escavações, o único achado realmente novo costuma ser a percepção de que o escavador envelheceu mais do que as próprias ruínas.


Depois Daquele Ano aposta todas as suas fichas nessa forma de devoção. Em vez de observá-la com curiosidade, investigá-la ou desmontar seus mecanismos, prefere acomodá-la sobre um altar, envolvê-la em fotografia quente, embalá-la por uma trilha sonora cuidadosamente melancólica e tratar aquele estado emocional como se fosse a condição mais espontânea da experiência humana. A escolha chama atenção porque persistência e profundidade raramente caminham juntas. Quando a narrativa insiste em repetir um sentimento sem acrescentar novas camadas, o resultado dificilmente ganha densidade. Apenas permanece girando em torno do mesmo ponto.


A distância entre alguém que não consegue superar uma perda e alguém que transforma essa perda no eixo da própria personalidade parece pequena à primeira vista, mas produz personagens completamente diferentes. O primeiro desperta curiosidade porque existe uma batalha em andamento. O segundo transmite a impressão de que a batalha terminou há muito tempo e o derrotado decidiu transformar a derrota em residência permanente. Percy pertence inteiramente a esse segundo grupo. Tudo o que faz parece irradiar de Sam, como se sua identidade tivesse sido lentamente corroída e o espaço restante fosse ocupado por lembranças cuidadosamente conservadas. Emprego, inseguranças, escolhas, hesitações e até os silêncios parecem gravitar ao redor de um relacionamento encerrado muito antes do início da série.


O aspecto mais curioso dessa construção está na incapacidade do roteiro de perceber o efeito produzido. Quanto mais empenho dedica a engrandecer o amor perdido, menor Percy se torna. Pessoas interessantes costumam carregar curiosidades, contradições, desejos, manias e interesses que continuam existindo mesmo quando ninguém as observa. Percy carrega memória. O roteiro trata recordação como se ela pudesse substituir personalidade, e as duas jamais ocuparam o mesmo espaço.


Depois Daquele Ano domina o vocabulário visual desse tipo de romance adolescente produzido para o streaming. Lagos eternamente dourados pelo pôr do sol, enquadramentos que confundem contemplação com lentidão, músicas indie posicionadas com precisão cirúrgica para indicar quando o espectador deve sentir nostalgia e uma sequência aparentemente infinita de flashbacks organizados como se alternar linhas temporais bastasse para produzir profundidade emocional.


Barry's Bay tenta assumir o papel de personagem. O lago, as cabanas, as árvores e o silêncio compõem um cenário construído para despertar aquela sensação confortável de lembrança idealizada, quase como um cartão-postal encontrado muitos anos depois dentro de uma gaveta. A imagem permanece bonita. O problema aparece quando a beleza precisa sustentar funções que pertencem ao drama. Paisagens conservam memórias. Quem produz conflito são as pessoas.


A estrutura alterna presente e passado enquanto Percy retorna para o funeral de Sue, mãe de Sam e uma das poucas figuras realmente acolhedoras daquela comunidade. A promessa implícita nessa montagem parece evidente: cada retorno ao passado deveria modificar a leitura do presente. Em teoria, as duas linhas temporais enriqueceriam uma à outra. O que acontece, porém, é exatamente o contrário. Cada novo salto apenas confirma aquilo que o primeiro episódio já havia deixado claro. Percy e Sam permanecem emocionalmente congelados, e a repetição desse estado acaba ocupando o lugar da evolução dramática.


Depois Daquele Ano

Curiosamente, as versões infantis dos personagens demonstram uma vitalidade ausente na fase adulta. Juliette Hawk compreende algo que o restante da série parece esquecer com frequência. Sentimentos sinceros não precisam carregar solenidade o tempo inteiro. Sua Percy erra, improvisa, ri, demonstra curiosidade e permite que pequenas imperfeições componham a personalidade da personagem. Quando Sadie Soverall assume o papel, essa espontaneidade praticamente desaparece. Não por limitações da atriz, mas porque o roteiro passa a tratar qualquer emoção como se estivesse escrevendo a inscrição de uma lápide.


Sam recebe tratamento semelhante. Matt Cornett interpreta um personagem condenado a viver eternamente suspenso entre uma declaração interrompida e um olhar lançado para algum ponto distante do horizonte. A impressão é menos a de alguém apaixonado do que a de uma fotografia incapaz de terminar a própria pose.


Na infância, Percy e Sam compartilham filmes de terror, mergulhos no lago, pulseiras e tardes sem importância aparente. Justamente por isso, essas cenas funcionam. Ainda não surgiu a necessidade de transformar cada pequeno acontecimento em prova irrefutável de que duas almas nasceram destinadas uma à outra. Crianças dificilmente pensam nesses termos. Elas apenas acumulam experiências, e o significado costuma aparecer muito depois.


A adolescência altera completamente essa lógica.


Uma mensagem respondida algumas horas depois ganha o peso de uma tragédia grega. Um silêncio passageiro passa a carregar a gravidade de uma traição irreparável. Um olhar mal interpretado produz consequências proporcionais às de um desastre natural. O roteiro demonstra enorme dificuldade para distinguir conflitos reais das distorções emocionais típicas da idade.

Existe, naturalmente, uma beleza muito particular em observar adolescentes exagerando os próprios sentimentos. Quase toda juventude acredita que o mundo acompanha o ritmo do próprio coração. A dificuldade aparece quando personagens adultos continuam reproduzindo exatamente a mesma dinâmica enquanto a narrativa insiste em apresentar essa permanência como sinal de amadurecimento.


Percy e Sam atravessam anos inteiros praticamente intactos. O tempo modifica o calendário, jamais modifica as pessoas. Eles não acumulam novas formas de compreender o passado. Apenas colecionam nostalgia como quem organiza relíquias dentro de uma vitrine.


A série trata envelhecer e amadurecer como se fossem movimentos simultâneos. Nunca foram. O corpo acompanha o calendário sem pedir autorização. A consciência exige trabalho, desconforto e disposição para abandonar versões antigas de si mesmo.


Depois Daquele Ano: A Série que Confunde Nostalgia com Profundidade

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