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Disney On Ice: Festa em Família - A impressionante máquina criada para fazer crianças acreditarem no impossível

Algumas das maiores demonstrações de genialidade humana não acontecem quando a realidade é enfrentada, mas quando ela é cuidadosamente editada. O público entra em uma arena sabendo que não encontrará uma princesa, um alienígena azul geneticamente modificado, uma família colombiana com poderes impossíveis ou uma rainha capaz de criar tempestades de neve com as próprias mãos. O curioso é que esse conhecimento não atrapalha em absolutamente nada a experiência. Pelo contrário. A consciência da mentira torna a participação ainda mais interessante, porque todos ali aceitam participar de um acordo coletivo: durante algumas horas, a razão ficará sentada na arquibancada enquanto a imaginação ocupará a pista de gelo.


Esse é o verdadeiro espetáculo de Disney On Ice: Festa em Família. O gelo, as luzes, a música e os figurinos são apenas a camada visível de uma operação muito mais fascinante. A produção não vende simplesmente personagens conhecidos. Ela comercializa uma suspensão temporária da incredulidade, algo que a humanidade pratica há milhares de anos, desde os primeiros mitos contados ao redor do fogo até as modernas arenas transformadas em pequenos reinos congelados.


A criança que vê Elsa deslizando pelo gelo acredita estar diante de uma rainha que controla o inverno. O adulto, em teoria, sabe que aquilo depende de uma infraestrutura gigantesca. Entretanto, a palavra "sabe" talvez seja generosa. Ele possui a informação, mas escolhe não pensar nela naquele momento. Ninguém compra um ingresso para contemplar compressores industriais, sistemas de refrigeração ou protocolos de segurança. O público vai ao espetáculo para esquecer, por um breve período, que até a fantasia precisa pagar suas contas de energia.


Uma pista de gelo com mais de quarenta metros de extensão precisa nascer dentro de uma arena localizada em uma cidade tropical. O processo exige aproximadamente trinta e duas horas de preparação entre montagem da estrutura e congelamento até a espessura adequada. A refrigeração permanece funcionando sem interrupção, alimentada por geradores que continuam trabalhando desde o início da montagem até a desmontagem final. O reino de gelo de Elsa possui um detalhe que os filmes raramente mencionam: ele vem acompanhado de técnicos de refrigeração, operadores de máquinas e profissionais de manutenção que garantem que seus poderes mágicos não sofram uma pane elétrica.


A ironia se torna ainda mais saborosa quando observamos Stitch. Uma criatura concebida como uma experiência destinada ao caos, alguém cuja principal característica é a incapacidade de seguir regras, aparece executando movimentos dentro de uma das estruturas mais rigorosamente organizadas do entretenimento mundial. O pequeno destruidor intergaláctico entra na pista exatamente no horário previsto, respeita marcações de palco, iluminação, trilha sonora e uma sequência de movimentos repetida inúmeras vezes.


Angel surge como a companheira perfeita dessa contradição. Sua história fala sobre conexão, afeto e a capacidade de transformar um ser programado para destruir em alguém capaz de amar e pertencer. Existe uma graça involuntária no fato de que o casal mais improvável da galáxia encontre sua harmonia justamente dentro de uma operação que se move com a precisão de uma linha de montagem de luxo, transportada por dezenas de toneladas de equipamentos e organizada por uma disciplina quase militar.


O universo de Frozen oferece outra camada de humor involuntário. Elsa e Anna pertencem a uma narrativa onde o inverno é uma força natural, quase espiritual. Porém, na realidade dos bastidores, o verdadeiro herói anônimo de Arendelle provavelmente veste um capacete, carrega uma prancheta e verifica a temperatura do gelo às três da manhã. A magia da neve continua encantadora, mas ela depende de pessoas que jamais aparecerão em uma fotografia ao lado das crianças.


Essa talvez seja uma das maiores injustiças e, ao mesmo tempo, uma das maiores belezas do espetáculo. A fantasia exige invisibilidade seletiva. Alguns rostos precisam ocupar os cartazes, enquanto outros precisam desaparecer para que a ilusão permaneça intacta.


E essa multidão invisível é impressionante. Mais de cem profissionais participam da montagem em um único dia. Carregadores, riggers, eletricistas, operadores de som, técnicos de iluminação, especialistas em refrigeração, equipes de produção e inúmeros outros trabalhadores transformam concreto, cabos e máquinas em um cenário onde os personagens parecem existir naturalmente.



Vinte e uma carretas atravessam estradas carregando uma cidade desmontável. O contêiner mais pesado da operação, responsável pelos equipamentos da pista de gelo, possui vinte e seis toneladas e exige um guindaste com capacidade para até oitenta toneladas para ser movimentado. O castelo encantado chega em caixas numeradas, acompanhado de manuais técnicos, cálculos estruturais e uma quantidade de planejamento que provavelmente faria qualquer monarca de conto de fadas pedir ajuda a uma equipe de engenheiros.


Dentro dessa coleção de personagens, talvez Mirabel Madrigal seja quem oferece a reflexão mais inesperada. Sua história em Encanto gira em torno de uma família extraordinária que passa anos tentando preservar uma imagem de perfeição enquanto rachaduras começam a surgir em sua casa mágica. Existe um paralelo curioso com os grandes espetáculos internacionais. O público vê uma superfície sem falhas, mas por trás dela existe um esforço constante para manter tudo funcionando, corrigir problemas, administrar desgastes e impedir que qualquer imperfeição atravesse a cortina.


Mirabel, justamente a única integrante da família sem um dom sobrenatural evidente, é quem possui a maior capacidade de enxergar aquilo que os outros preferem ignorar. Talvez ela fosse a primeira personagem a perguntar quem mantém a pista congelada, quem dirige as carretas, quem monta os cenários e quem permanece acordado quando todos os aplausos já terminaram.


Essa observação leva a uma questão mais desconfortável quando se considera o uso da Lei Rouanet. O debate público frequentemente cai em dois extremos igualmente preguiçosos. De um lado, aqueles que tratam qualquer incentivo a uma grande produção como um escândalo automático. De outro, aqueles que acreditam que a emoção produzida pelo espetáculo encerra qualquer questionamento.


Uma produção associada a uma das marcas mais poderosas do planeta, com capacidade de atrair patrocinadores, lotar arenas e movimentar uma cadeia comercial gigantesca, naturalmente deve responder a perguntas sobre o papel de um mecanismo criado para incentivar o acesso à cultura. O fato de o espetáculo gerar empregos, movimentar serviços, contratar profissionais locais e proporcionar uma experiência artística legítima também faz parte da discussão.


O aspecto mais curioso de Disney On Ice: Festa em Família é que sua maior qualidade talvez seja também sua limitação. A precisão alcançada é tão impressionante que quase elimina qualquer sensação de risco. Cada luz acende no instante planejado. Cada entrada de personagem foi calculada. Cada gesto foi repetido inúmeras vezes. Cada reação da plateia já foi estudada por décadas de experiência na fabricação de encantamento.


E justamente por funcionar tão bem, ela revela algo interessante sobre o entretenimento contemporâneo. As grandes empresas descobriram que não vendem apenas um ingresso. Elas vendem uma lembrança antes mesmo de ela existir. Vendem a fotografia que será guardada no celular, a história que os pais contarão anos depois e aquele instante em que uma criança olhará para o gelo e aceitará, sem qualquer necessidade de prova, que o impossível resolveu tirar férias no mundo real.


A grandeza técnica de transformar uma arena quente em um reino congelado é real. O talento dos artistas é real. O esforço dos trabalhadores invisíveis é real. O impacto econômico é real. O consumo energético, a complexidade logística e as perguntas sobre sustentabilidade e acesso cultural também são reais.


O brilho da superfície é apenas metade da história. A outra metade está escondida sob o gelo, dentro dos caminhões, nos corredores escuros da arena e nas mãos de pessoas que jamais receberão uma ovação, mesmo sendo elas as responsáveis por permitir que a fantasia apareça exatamente no momento em que a cortina se abre.


Disney On Ice: Festa em Família - A impressionante máquina criada para fazer crianças acreditarem no impossível


 
 
 

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