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Toy Story 5: O dia em que os brinquedos perceberam que perderam uma guerra sem sequer terem sido convidados para a batalha

Existe uma crueldade quase cômica no destino dos brinquedos de "Toy Story". Durante décadas, eles passaram todo o tempo preocupados com o rival errado. Primeiro foi o brinquedo mais novo, mais brilhante, mais tecnológico, aquele que chegava dentro de uma caixa reluzente com cheiro de fábrica e a arrogância de quem sabia que seria o presente mais desejado da manhã de Natal. Depois vieram os videogames, os aparelhos eletrônicos e as novas modas que transformavam antigos tesouros infantis em objetos de segunda categoria. A grande ironia é que, enquanto olhavam desconfiados para os recém-chegados na prateleira, o verdadeiro adversário estava sendo construído em outro lugar.


A escolha de "Toy Story 5" de colocar o tablet Lilypad no centro da história é mais inteligente do que parece à primeira vista. Seria muito fácil transformar o aparelho em um vilão preguiçoso, uma espécie de monstro eletrônico que invade o quarto da criança e rouba sua imaginação como um ladrão de desenhos animados. Felizmente, a Pixar conhece bem demais o território em que pisa para cair nessa armadilha.


O estúdio entende que as melhores tragédias não acontecem quando um vilão chega à cidade com uma capa preta anunciando suas más intenções. Elas acontecem quando todos os envolvidos acreditam estar fazendo a coisa certa. O tablet não entra no quarto de Bonnie pela janela durante a madrugada. Ele é entregue por mãos amorosas, acompanhado por um sorriso, pela promessa de aprendizado, diversão e alguns preciosos minutos de paz para adultos que também estão exaustos tentando sobreviver ao ritmo caótico da vida contemporânea.


O grande antagonista dessa história não tem uma risada diabólica, não constrói uma fortaleza e nem prende ninguém em uma torre. O antagonista é uma conveniência tão sedutora que quase ninguém sente o momento exato em que ela deixa de ser uma ferramenta e começa a ocupar o lugar de experiências que antes exigiam participação ativa.


Uma criança brincando com um cowboy de pano precisa negociar com o próprio imaginário. Ela decide se ele é corajoso ou covarde, se vai salvar uma cidade ou fugir dela, se o cavalo atravessa um deserto ou um oceano. A criança é roteirista, diretora, atriz, cenógrafa e público da própria aventura.


A tela oferece algo diferente. Ela entrega personagens prontos, mundos prontos, sons prontos e recompensas calculadas para aparecer exatamente no segundo em que o interesse ameaça escapar. É como comparar uma pequena fogueira acesa no quintal com um parque de diversões que nunca fecha as portas e que possui funcionários dedicados exclusivamente a descobrir qual brinquedo fará você querer ficar mais cinco minutos.


Woody já enfrentou Buzz Lightyear, e aquela disputa carregava algo quase aristocrático. O velho xerife assistia ao surgimento de um novo rei em seu próprio reino. Havia ciúme, orgulho ferido e uma disputa por atenção. Era uma guerra entre duas figuras que, no fundo, pertenciam ao mesmo universo.


O Lilypad altera completamente as regras do jogo. Ele não quer substituir Woody como o brinquedo favorito. Ele transforma a própria ideia de brinquedo em algo menos necessário. É uma mudança muito mais assustadora. Um rei deposto ainda sabe que existe um trono. O verdadeiro terror começa quando o castelo inteiro é demolido e, no lugar dele, surge um shopping center iluminado vinte e quatro horas por dia.


Essa sempre foi a genialidade secreta de "Toy Story". O filme jamais esteve interessado apenas em bonecos que ganham vida quando os humanos saem do quarto. Essa é a fantasia necessária para falar sobre algo profundamente desconfortável: o prazo invisível que acompanha tudo aquilo que amamos.


Toy Story 5

Um brinquedo sabe que será abandonado. Um artista sabe que um dia o público pode olhar para outro palco. Um funcionário experiente sabe que alguém mais jovem chegará falando uma linguagem que ele ainda está tentando aprender. Até mesmo dentro das relações mais íntimas existe uma melancolia silenciosa ao perceber que certos papéis que ocupávamos na vida de alguém já não nos pertencem mais.


"Toy Story 5" transforma esse sentimento universal em uma piada visual que talvez seja uma das imagens mais inquietantes de toda a franquia. Sempre que um ser humano aparece em cena, quase sempre está curvado diante de alguma tela. O rosto iluminado pelo brilho artificial substitui o contato com o espaço ao redor. As pessoas continuam sentadas na mesma mesa, caminhando pela mesma casa e dividindo o mesmo ambiente, mas suas atenções estão hospedadas em outro lugar.


A imagem lembra um pequeno apocalipse doméstico que acontece sem barulho. Não existem cidades destruídas, robôs assassinos ou naves atacando a Terra. Existe apenas uma família inteira em uma sala, cada pessoa segurando uma janela particular para outro mundo enquanto a janela real da casa permanece fechada.


Ainda assim, "Toy Story 5" é inteligente o bastante para evitar o discurso nostálgico de que tudo era melhor antes. O passado também tinha seus alarmistas profissionais. Houve quem acreditasse que romances deixariam jovens irresponsáveis, que quadrinhos destruiriam a inteligência das crianças e que a televisão transformaria todos em seres incapazes de pensar.


A diferença contemporânea é a escala da disputa. Um brinquedo antigo precisava competir contra um brinquedo novo. Agora, um simples boneco de pano enfrenta uma indústria construída por psicólogos, designers, programadores e especialistas cujo trabalho diário é descobrir como transformar segundos de curiosidade em horas de permanência.


A situação chega a ser cruelmente desigual. É como colocar um pequeno barco de madeira para competir contra um navio de guerra equipado com radares, motores gigantescos e uma tripulação que nunca dorme. Depois apontamos para o barco abandonado na areia e perguntamos por que ele perdeu sua importância.


É justamente essa crueldade que torna a história de Woody tão duradoura. Ele nunca teve medo apenas de perder a posição de brinquedo favorito. O medo sempre foi mais íntimo e menos heroico: continuar exatamente igual enquanto o mundo ao redor muda de idioma.


O velho cowboy permanece de pé, com o chapéu bem colocado, o sorriso costurado no rosto e a mesma disposição para viver aventuras. A tragédia é que ele descobre algo que todo adulto aprende cedo ou tarde: o amor pode ser verdadeiro, a memória pode ser bonita, mas nenhum dos dois assina um contrato garantindo permanência eterna.


É uma conclusão amarga, quase cruel, e talvez seja justamente por isso que "Toy Story" continue falando tão profundamente com pessoas que já deixaram a infância para trás. Os brinquedos nunca foram apenas brinquedos. Eles sempre foram pequenas versões de nós mesmos, esperando pacientemente em alguma prateleira emocional, torcendo para que alguém ainda se lembre de voltar ao quarto onde tudo começou.


Toy Story 5: O dia em que os brinquedos perceberam que perderam uma guerra sem sequer terem sido convidados para a batalha


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