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Divertimento: o encontro entre Marcelo Onofri e o Trio Retrato Brasileiro que redefine tradição e improviso

 Uma tensão fértil entre disciplina e liberdade

Divertimento

Divertimento: o encontro entre Marcelo Onofri e o Trio Retrato Brasileiro que redefine tradição e improviso


Há algo de arquetípico na experiência de ouvir Divertimento. O encontro entre Marcelo Onofri e o Trio Retrato Brasileiro não é apenas musical, é simbólico. Temos ali o mestre e os aprendizes que, com o tempo, deixam de pedir bênção e passam a dividir a partitura. O que começa como formação vira parceria criativa. Essa trajetória não é só conceito: ela se escuta na maneira como os temas amadurecem, reaparecem transformados e ganham novas camadas ao longo do disco.


Professor da Unicamp, Onofri traz à obra uma dimensão cênica clara. Nada soa improvisado no sentido descuidado da palavra, mas tudo respira. O resultado é uma tensão fértil entre disciplina e liberdade, como se a partitura dissesse “por aqui” e os músicos respondessem “tudo bem, mas olha isso também”.


A formação já anuncia personalidade: sem bateria, com vibrafone, guitarra, contrabaixo e piano. Em vez de faltar algo, sobra espaço. Cria-se um jogo sofisticado entre figura e fundo sonoros. O ouvido é constantemente provocado a escolher onde pousar. Ora o vibrafone de Gabriel Peregrino desenha linhas que assumem o protagonismo, ora o piano reorganiza o campo harmônico e muda o centro de gravidade da peça. É o tipo de música que exige atenção, mas recompensa. Se você piscar, a harmonia já mudou de assunto.


Os temas retornam transformados, como personagens que voltam de viagem diferentes do que eram. Em “Lancelot’s Adventures”, a alternância de atmosferas cria microrrupturas que reorganizam a percepção. Já “No Velho Texas” evoca paisagens cinematográficas que talvez nunca tenham existido, mas que, curiosamente, você jura ter visto em algum lugar. A imaginação do ouvinte completa o cenário, com direito a pôr do sol em câmera lenta.


As influências aparecem sem pedir licença, mas também sem roubar a cena. A arquitetura formal e o refinamento harmônico lembram Johann Sebastian Bach e Maurice Ravel. A organicidade rítmica e a maleabilidade melódica dialogam com Tom Jobim e Gilberto Gil. Nada soa como citação escolar. É mais como uma conversa entre gerações em que ninguém precisa levantar a voz para ser ouvido.


Em “Tragitango”, homenagem a Astor Piazzolla, surge o arquétipo da paixão: tensão, ruptura e lirismo contido. A música caminha na fronteira entre controle e vertigem. Dialoga com a tradição, mas preserva identidade própria. Não é nostalgia, é continuidade com personalidade.


O momento mais introspectivo aparece em “Kabrum”. A palavra falada interrompe o fluxo instrumental e cria um espaço de recolhimento. A pausa não esfria o disco, pelo contrário, reorganiza sua escuta. É o instante em que o álbum respira fundo e nos obriga a fazer o mesmo.


Viabilizado pelo ProAC, o projeto celebra também os dez anos de trajetória do trio formado por Gabriel Peregrino, Guilherme Saka e Théo Fraga. A maturidade aqui não se confunde com rigidez. Ela se manifesta como clareza de linguagem. O grupo sabe o que quer dizer e, melhor ainda, sabe como dizer sem explicar demais.


A arte de capa de Malu Bragante reforça essa identidade ao optar por um retrato ilustrado. A escolha não é apenas estética. O desenho sugere narrativa, movimento e certa ironia leve, como quem diz que a música pode ser sofisticada sem perder o prazer do jogo.


Divertimento é, acima de tudo, uma obra sobre relação. Entre mestre e discípulos. Entre tradição e contemporaneidade. Entre estrutura e improviso. Um disco que afirma, com elegância e uma pontinha de malícia musical, que aprender também é criar e que criar, às vezes, é a melhor forma de responder ao mestre.

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